CRÍTICA: Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Críticas
// 26/01/2012

Indicado ou não ao Oscar de Melhor Filme, Millennium é um dos melhores lançamentos (originalmente) de 2011 e, se tratando do circuito nacional, abre muito bem 2012. A nova produção de David Fincher é mais contida. O diretor prefere resguardar para impactar e fazer dos melhores momentos de Os Homens que Não Amavam as Mulheres icônicos.

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Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
por Caíque Bernardes 

David Fincher possui em seu portfólio muitos filmes impactantes e marcantes. Desde a paranóia subversiva que é Clube da Luta até a claustrofobia suja de Se7en, não faltam provas de que o diretor domina plenamente o artifício de chocar seus espectadores. Assim, quando a esperada adaptação Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, best-seller conhecido por seu teor adulto, anunciava-se em seu trailer como “the feel bad movie of the year” (em tradução livre, “o filme mais deprimente do ano”), tudo parecia estar correndo na direção certa. No entanto, o diretor não volta às raízes sórdidas de seus primeiros filmes, preferindo compensar e mesclá-las ao clima frio da Suécia para produzir temas pesados e violentos em um longa limpo, polido e eficaz. Menos escuro e pessimista do que o esperado, é verdade, mas muito mais interessante.

No primeiro ato do filme somos, de forma rápida e certeira, apresentados aos principais personagens do mistério. Acompanhamos Mikael Blomkvist (Daniel Craig), um jornalista investigativo acusado de difamação que aceita, para livrar seu nome, a proposta de Henrik Vanger (Christopher Plummer), um velho magnata, para investigar o desaparecimento de sua neta, Harriet Vanger, acontecido na década de 60, cujo culpado, segundo ele, é alguém que conhece muito bem sua família. Com o andar da investigação é revelado que existem aspectos muito mais sombrios à trama, segredos abomináveis que podem acabar colocando a vida do próprio Mikael em perigo.

Paralelamente, somos apresentados à Lisbeth Salander (Rooney Mara, o interesse amoroso de Mark Zuckerberg em A Rede Social), uma garota incomum e intimidadora que, apesar de ter sido considerada incapaz e cuidada por tutores sua vida inteira por seu comportamento anti-social e agressivo, se tornou uma habilidosa hacker, coletando todo tipo de informações secretas de servidores e computadores pessoais para uma firma de segurança particular. Lisbeth é única e intrigante e, se no segundo ato do filme se verá envolvida com a investigação de Mikael, sua história antes disso é uma verdadeira aula de como introduzir uma protagonista em um filme. Desde sua reação extremamente violenta ao ser assaltada no metrô até a forma com que Lisbeth lida com o derrame de seu querido tutor, vemos várias faces de uma personagem complexa e atormentada e, mais do que apenas conhecê-la, passamos a simpatizar e enraivecer junto com ela. O excelente design visual de personagem certamente leva boa parte dos créditos por este feito também, pois tudo sobre a personagem é icônico: de seus cabelos e roupas punks até os piercings e tatuagens – inclusive uma de dragão, título em inglês do filme, que é evidenciada em uma poderosa cena da personagem no banho.

Todos os aspectos que tangem ao trabalho da direção de arte e à fotografia, aliás, são orquestrados de forma magistral no filme para trazer uma atmosfera dura e fria para ele. A isolada ilha dos Vanger no presente, coberta de neve e com uma fotografia fria em um tom branco monocromático, contrasta com os coloridos e quentes flashbacks da década de 60, reforçando a ideia posta por um dos personagens de que o desaparecimento de Harriet foi o início do declino das indústrias Vanger, e que o fantasma dos acontecimentos pesa até hoje naquele lugar. O anacronismo também está presente no material de pesquisa de Mikael e Lisabeth, com antigas fotos e negativos sendo escaneados para modernos MacBooks e transformados em animações, sendo importante para lembrar-nos exatamente de a quanto tempo tudo aquilo aconteceu, uma percepção essencial para que sejamos impactados em uma cena de choro ao final da trama: que um longo passar de anos não fechou certas feridas.

A montagem do filme também merece destaque (sendo talvez o Oscar que a produção tenha mais chances de levar) não apenas pela relação passado/presente que existe no longa, mas principalmente na articulação paralela dos lados separados de Mikael e Lisabeth na investigação. O momento da revelação final do mistério é um ícone neste aspecto. Embalados apenas pela ótima trilha sonora rock-eletrônica de Trent Reznor, os dois combinam peças diferentes do mistério em ambientes separados e a montagem guia o espectador fluidamente através das fotografias, mapas, recortes de jornais, expressões e anotações, fazendo-o compreender o mistério junto com os personagens, sem que nenhuma palavra precise ser dita por qualquer um deles.

Apesar de seu mistério não oferecer nada mais do que o óbvio como revelação final, as cenas desenvolvidas a partir da descoberta introduzem uma das melhores sequências de ação do filme. É preciso ser dito que, enquanto o filme em sua grande maioria possa trazer à mente referências visuais a A Rede Social, existem momentos no filme nos quais esta crosta é quebrada para dar lugar à violência forte. Apesar de se tratar de uma investigação sóbria, a temática do filme é essencialmente a violência contra a mulher (daí o nome sueco/brasileiro da obra) e é nestas horas, esparsas, que o Fincher visceral de Clube da Luta reaparece. Ao racionar as cenas de violência gráfica e concentrá-las em poucos momentos da película, o diretor instantaneamente as torna icônicas, aquelas a que o cérebro volta ao sair da sala de cinema.

O único pecado importante de Millennium é se estender demais em seu epílogo de pelo menos 20 minutos, totalizando três momentos onde o espectador jura que o filme acaba ali, apenas para ele continuar. Resulta, assim, em uma diluiçãodo ponto principal da trama, degringolando para um curta-metragem/heist movie que parece deslocado de uma forma geral. Talvez por esta esfriada final, o filme fica longe de ser o mais deprimente de 2011 (certamente perdendo para Melancolia e Amanhecer no quesito “feel bad”, ainda que por motivos diferentes), mas não deixa de modo algum de ser uma das mais eficazes composições de thriller dos últimos tempos.

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Millennium: The Girl With The Dragon Tattoo (EUA, 2011). Suspense. Sony Pictures
Direção: David Fincher
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Chritopher Plummer
Trailer

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Categorias
Críticas, Suspense, Thriller