CRÍTICA: Minhas Mães e Meu pai

Comédia
// 11/11/2010

A “dramédia indie” já virou um subgênero do cinema norte-americano. A descoberta do ano foi este Minhas Mães e Meu Pai, elogiado em peso pela crítica e bem-sucedido na bilheteria, levando em conta que é uma produção independente e modesta. Um elenco de qualidade coroa o filme, que é um tanto equivocado, mas cheio de boas intenções.

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Minhas Mães e Meu Pai
por Pedro de Biasi

Existem dois tipos de problemas no bem-intencionado Minhas Mães e Meus Pais: aqueles que poderiam ser simplesmente removidos, e outros que estão tão atrelados à proposta do roteiro que pedem por uma reformulação geral. O resultado final pende levemente para o positivo, mas é ordinário ser apenas a comédia indie fofa do momento.

Na trama, um casal de mulheres, Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) vive com seus filhos Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasikowska). As mães carregaram um bebê cada, usando o esperma de um doador anônimo. Seu nome é Paul (Mark Ruffalo), dono de um restaurante e de uma vida desregrada e pacata. Curiosos, Joni e Laser entram em contato com o “pai” e ameaçam a estabilidade da família.

Não é surpresa que um filme que toca na questão do casamento homossexual seja moralista. É estranho – e, até certo ponto, bom – que isso não se dê pelo tema em si, e sim em valores familiares “universais”. É deselegante, por outro lado, que o discurso seja disfarçado, já que é Nic que prega seus valores morais – e se mostra certa em suas lições. Há pelo menos uma subtrama (a amizade de Laser e Clay) que serve apenas para indicar que a mãe tem (sempre) razão. E não só a razão de quem está correto.

Afinal, outro empecilho que a diretora Lisa Cholodenko e o co-roteirista Stuart Blumberg encontram está nos sentimentos. Não no quanto a história afeta “O Espectador”, aquela entidade coletiva que deve saber bastante de cinema, de tanto que é invocada como argumento de autoridade. O retrato das emoções dos personagens é comprometido pela escolha de um ponto de vista um tanto tirânico.

Nic, obcecada por controle como é, acaba tomando conta de seus criadores. Sob seu viés, o filme busca a racionalidade, seja para “esclarecer” a sexualidade das esposas, seja para “justificar” o que levou Jules a determinado ato. E são, via de regra, explicações simplórias. A personagem de Moore, particularmente, se perde em meio à psicologia barata, já que tudo aponta para uma pessoa impulsiva e difícil de restringir.

Essa proposta unilateral, expositiva demais, também deixa pouco para se descobrir no roteiro. Assim, detalhes como o jantar carnívoro na casa de Paul, que até então parecia um vegetariano estereotipado, e momentos de franco sentimentalismo como o desabafo de Jules na frente da tevê são alguns dos melhores momentos do filme. O que gera interesse é o fato de haver, nesses instantes, algo além daquilo que é verbalizado – pois o simples ato de se expor mostra que Jules está aberta à discussão.

O que leva, claro, ao ótimo elenco. É notável que Moore encontre pulsões genuínas mesmo quando tudo conspirava para que elas fossem sufocadas. Bening também se liberta das amarras racionalistas, revelando os sentimentos de Nic em uma cadência impecável, e até acertando no desequilíbrio que algumas cenas pedem. Hutcherson se aproveita do tom afável da obra e surpreende como um jovem xucro, ao passo que Wasikowska e Ruffalo, corretos, deixam a trama os levar, o que não é de todo mal.

Apesar dos tropeços, Cholodenko e Blumberg vêem a vida familiar com perspicácia, como o título original (“As Crianças Estão Bem”) indica. Não é só uma defesa da naturalidade da família de Nic e Jules, mas também um ponto de vista das próprias mães. Os adultos se fecham em seus problemas por altruísmo e egoísmo: querem excluir os filhos dessas crises e, por isso mesmo, se permitem um espaço particular para resolvê-las. A partilha das inseguranças reserva, para o final, belos momentos.

A impressão que pesa é a de que as emoções têm de ser conquistadas, quando na verdade elas deveriam existir antes separadas, e depois unidas. É essa visão torta que torna as cenas de sexo péssimas e que aprisiona os personagens em emoções racionalizadas. É nos relances de liberdade que um bom filme tenta emergir.

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The Kids Are All Right (EUA, 2010). Comédia. Imagem Filmes.
Direção: Lisa Cholodenko
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska

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Categorias
Comédia, Críticas, Drama