CRÍTICA | Minions

Animações
// 25/06/2015
minions

Sempre que tento entender o inexplicável e estrondoso sucesso do fraco Meu Malvado Favorito e de sua horrorosa continuação, lembro da ocasião em que estive presente em uma sessão de Dredd em que o teaser trailer em 3D do segundo filme foi exibido para uma plateia formada exclusivamente por adultos, cujas reações à peça de divulgação (que foi exaustivamente exibida ao longo de meses nos cinemas) chamaram muito minha atenção: primeiro, a incapacidade dos espectadores de esconder o deslumbramento infantil com a língua-de-sogra que parecia invadir a sala na direção das poltronas e, segundo, a explosão de gargalhadas (adultas, repito e enfatizo) que inundou o ambiente quando um dos minions esmurra e derruba um dos companheiros no desfecho da cena.

Alívios cômicos (ou sidekicks) por excelência, os minions, os seres amarelos unicelulares (?) dotados de um design pouquíssimo elegante e de um humor óbvio e rasteiro (que até funciona em várias ocasiões), caíram como um meteoro na graça do público e se tornaram a maior, senão única razão do sucesso da franquia – e não é à toa que, mesmo sendo personagens secundários, eles estão presentes de forma esmagadora em qualquer material relacionado aos filmes (cartazes, trailers, capa do DVD e do Blu-ray, brinquedos, etc) e nos principais argumentos utilizados pelos defensores das obras. Entretanto, já está mais do que provado que a bagunça inócua e lançadora-de-objetos-na-direção-da-plateia que caracteriza qualquer segmento audiovisual estrelado pelos minions não é capaz de sustentar ou sequer contribuir para uma construção narrativa satisfatória – o que, fatalmente, condena essa ascensão dos coadjuvantes engraçadinhos a protagonistas.

Escrito por Brian Lynch e dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin (este último responsável pelas vozes dos bichinhos), Minions introduz os personagens-título como seres fadados a servir mestres perversos e apresenta suas consecutivas e fracassadas tentativas de colaborar com grandes vilões ao longo da História. Derrotados e desiludidos, os pequeninos decidem se refugiar em uma gélida e remota caverna, onde se organizam em uma comunidade que rapidamente é afligida pelo abatimento oriundo do descumprimento de suas funções naturais. É então que três deles – o destemido líder Kevin, o músico e fã de bananas Stuart e o ingênuo Bob – decidem sair do esconderijo em busca de um vilão digno da servidão daquela tribo. Assim, o trio logo é cativado pela supervilã Scarlett Overkill (Sandra Bullock), que encomenda um grande roubo para testar as habilidades e a lealdade de seus novos capangas.

Apenas alguns tons menos histriônico que os dois Meu Malvado Favorito, este spin-off (ou prequel) volta os holofotes para o que havia de melhor e mais tolerável naqueles filmes sem qualquer propósito artístico ou ambição narrativa. Assim, a frágil trama é inteiramente estruturada como suporte para esquetes dos seres amarelos, que carecem de personalidades compatíveis com a centralidade dos papéis e cujo humor, predominantemente físico, flerta demasiadamente com o pastelão, saturando o espectador com tombos, sopapos e um bocado de histeria. Ainda nesse sentido, os realizadores pecam ao amontoar o filme com referências culturais que, abraçando a ambientação sessentista da trama, parecem apostar mais na vaidade dos espectadores capazes de identificá-las e compreendê-las do que na organicidade com que poderiam se encaixar na narrativa.

Por outro lado, o filme consegue arrancar uma ou outra risada quando explora aquilo que os minions possuem de melhor: a seriedade e o comprometimento nonsense com que assumem personalidades distintas ou se envolvem em atividades diversificadas, como ocorre em algumas passagens musicais, na hilária sequência em que Bob é coroado rei da Inglaterra ou na divertida montagem que exibe a jornada do restante da tribo rumo ao Reino Unido. Infelizmente, os realizadores são incapazes de identificar o potencial dessas investidas e desperdiçam a maior parte do tempo tentando conferir credibilidade à trama – que, por sinal, é repleta de arbitrariedades e inconsistências, característica marcante da franquia.

Preguiçoso a ponto de recorrer frequentemente à narração em off para que a trama seja compreendida (já que a língua própria dos minions mistura de forma imprevisível diversos idiomas humanos e fazer um trabalho genial como o de WALL•E é um desafio grande demais para os realizadores), Minions reflete a cada minuto o esforço inútil de uma equipe que, caso pudesse abandonar o pouco de dignidade que ainda lhe resta e atender às reais demandas do público, transformaria o longa em uma versão estendida da cena que surge após o fim dos créditos – uma bagunça musical, histérica, caótica e sem sentido, com toda a sorte de objetos voando na direção do público e os minions fazendo aquilo que sabem fazer de melhor: ser minions e alojar-se, sorrateiros, na mente dos consumidores. As empresas de brinquedos, guloseimas, material escolar, roupas de cama e as redes de fast food que ostentam os personagens em seus produtos e vitrines agradecem enfaticamente e mandam lembranças.



Minions
(EUA, 2015). Animação. Universal Pictures.
Direção: Kyle Balda e Pierre Coffin.
Vozes de:
 Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allison Janney, Steve Coogan, Jennifer Saunders, Geoffrey Rush, Steve Carell e Pierre Coffin.

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Animações, Críticas