CRÍTICA | Moana

Animações
// 07/01/2017
moana

Esqueça vestidos esvoaçantes, cabelos bem arrumados e, principalmente, príncipes encantados. Moana é uma evolução natural do que podemos observar nos filmes da Disney protagonizados por mulheres. Para falar só de alguns anos para cá, Pocahontas (1995) escolhe ficar com seu povo, Mulan (1998) vai à guerra no lugar de seu pai e salva a China, o príncipe de Tiana (A Princesa e o Sapo, 2009) tem muito menos importância que seu sonho de abrir o próprio negócio e a maior preocupação de Anna e Elsa (Frozen, 2013) é cuidar uma da outra. A jovem polinésia, nova integrante do rol de princesas da Disney, parte sozinha em uma jornada para salvar sua tribo e em todo o filme não há nada – absolutamente nada – que remeta, nem de longe, a um interesse romântico. E isso é ótimo.

Começamos a história sendo apresentados à lenda de Te Fiti, a deusa com poder de criar vida, e como o semideus Maui (Dwayne Johnson) roubou seu coração, enfraquecendo-a e espalhando devastação e morte pelo mundo. Quem conta a lenda é Vovó Tala (Rachel House), assustando as crianças da vila com exceção de uma: sua neta, a aventureira e independente Moana (Auli’i Carvalho). Filha de Tui (Temuera Morrison), chefe da tribo, a princesa carrega a responsabilidade de ser uma líder para seu povo. Ainda que ela seja respeitada e admirada por todos e goste de cada pessoa da ilha, enfrenta o dilema de ter que escolher entre ficar em terra para governar ou seguir para o mar, sua grande paixão, para descobrir o que existe além do recife, o que vai contra a vontade do pai, que não gosta nem que ela fique na beira da praia – a ilha, afinal, oferece tudo que eles precisam para viver e ninguém precisa sair dela, já que o mar é extremamente perigoso.

É quando os peixes somem dos arredores da ilha e as plantações começam a morrer que Moana precisa partir para encontrar Maui e fazê-lo devolver o coração de Te Fiti. Vovó Tala, grande mentora da heroína, é quem dá o empurrão que faltava para a princesa pular num barco e partir mar adentro acompanhada por seu hilário galo de estimação, Heihei (Alan Tudyk).

A qualidade visual da obra é estonteante. Dos cabelos ao fogo, passando por cada grão de areia, os detalhes são impressionantes e muito realistas, mas sem deixar de lado as características cartunescas típicas das animações. O grande destaque, porém, é o oceano. Seja na superfície ou abaixo dela, cada onda, reflexo ou mesmo partícula de água se espalhando pelo ar faz acreditar que estamos vendo o mar de verdade na tela do cinema.

O roteiro é muito bem construído e desenvolve com uma fluidez admirável a amizade entre Moana e Maui e seus arcos narrativos: ela está aprendendo a navegar para salvar sua tribo e ele, em busca de redenção. O texto passeia sem dificuldade pela mitologia polinésia e ainda oferece ao público personagens cativantes que ninguém esperaria, como uma tatuagem e até o próprio oceano. A trilha sonora – grande trunfo do filme, sobre a qual já falamos – está amarrada ao enredo de forma tão intricada que cada verso estabelece algum detalhe que contribui para a história. Nenhuma palavra está ali à toa, seja na versão original em inglês ou na tradução para o português.

Envolvente, cheia de ação, boas doses de humor, momentos emocionantes e músicas que vão ecoar por um bom tempo na sua cabeça e reverberar no seu coração. Temas como amizade, família, confiança, respeito e tradição estão presentes, mas o principal discurso é sobre as dualidades que nos permeiam e vivem dentro de nós. O que temos de bom e ruim, nossas responsabilidades e sonhos, quem somos e quem queremos ser. Clássico instantâneo.
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Moana (EUA, 2016). Animação. Disney Pictures.
Direção: John Musker, Ron Clements
Elenco: Auli’i Carvalho, Dwayne Johnson
9-pipocas
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Animações, Críticas