CRÍTICA | Mulher-Maravilha

Ação
// 31/05/2017

É emblemático que, em um tempo quando o feminino passa por um processo de libertação de amarras milenares e empoderamento, a Mulher-Maravilha dê o passo à frente de Batman e Superman com o primeiro filme realmente relevante do Universo Cinematográfico DC. Sim, os rumores são reais: a Distinta Concorrência do monólito do entretenimento que se tornou a Marvel finalmente acertou a mão, ainda que o filme esteja longe de ser perfeito.

Para a estreia solo de Diana na tela grande, a diretora Patty Jenkins, de Monster: Desejo Assassino, não busca reinventar a roda, e narra de forma bastante linear a infância e crescimento da personagem na isolada ilha de Themyscira, encantada e povoada por amazonas, até seu primeiro contato com o mundo “dos homens”, e as óbvias complicações que se dão a partir daí. Gal Gadot, mesmo com um repertório limitado de expressões faciais, encarna com propriedade o papel, em evidente dedicação que supera a apatia e angústia mal direcionadas de suas contrapartes masculinas do mesmo universo, o Superman de Henry Cavill e o Batman de Bem Affleck, respectivamente.

Como já sabíamos – e de forma análoga a Capitão América: O Primeiro Vingador, obra a que se assemelha ainda em outros aspectos – o longa é, na verdade, um grande flashback do período em que, recém-chegada de um paraíso perfeitamente harmonioso, Diana ainda se demonstrava bastante ingênua e crédula, o que gera algumas interações divertidas, e outras constrangedoras, com Steve Trevor (Chris Pine), o afortunado capitão americano que, envolvido em uma trama de espionagem em plena Primeira Guerra Mundial, vai parar no tal paraíso, governado pela Rainha Hipólita (Connie Nielsen). A ingenuidade e distanciamento da protagonista em relação ao nosso mundo, no entanto, fazem com que, muitas vezes, o personagem de Pine seja usado como verdadeiro ponto de vista para o público, o que tanto vai em linha com o caráter mais mítico do Universo DC, em oposição aos dramas humanos típicos da Marvel, quanto, por um lado, desumanizam a Mulher Maravilha em seu próprio filme.

A ação, executada, tratada e editada de forma empolgante e envolvente, mesmo que também nada inovadora, tem início ainda nos domínios de Hipólita – irritantemente despreparada para uma líder guerreira viva há incontáveis eras – e, ao migrar para a Europa em guerra, empaca por um arrastado e tedioso segundo ato, antes de voltar com redentora força total para o terço final do longa, com direito a um interessante plot twist que desmonta um elemento aparentemente raso e clichê do roteiro. A personagem-título exibe um impressionante nível de poder, e a ambientação em um contexto de conflito quando a humanidade ainda estava se dando conta do próprio potencial destrutivo oferece o contraponto perfeito para os ideais honrados, mas também inegavelmente bélicos, da sociedade em que ela nasceu.

Assim como aconteceu com as adaptações cinematográficas de personagens da Marvel como o Homem de Ferro e os Guardiões da Galáxia, Mulher Maravilha se beneficia com a inexistência de adaptações icônicas anteriores, o que libera diretora e elenco para explorarem todos os aspectos da personagem sem o receio de estar repetindo o que já foi feito antes. A diferença é que a amazona tem um peso cultural muito maior que o dos demais citados, e Jenkins e Gadot fazem um trabalho à altura desse patamar, ainda que preguiçoso – precisava mesmo que alemães, austríacos e amazonas gregas falassem apenas em inglês? Diana não merecia mais umas duas camadas emocionais e intelectuais? – em certos aspectos. A DC tem aqui um ponto de partida muito mais sólido para o vindouro Liga da Justiça do que o filme que leva o nome dos outros dois integrantes da sua maior Trindade. Como diria um certo supervilão da vida real, “tem que manter isso aí”.


Wonder Woman (EUA, 2017) Ação/Aventura. Atlas Entertainment / DC Films / Warner Bros. Pictures.
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Connie Nielsen, Elena Anaya, Ewen Bremner, Saïd Taghmaoui.

8-pipocas

 

 

 

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