CRÍTICA | Na Estrada

Aventura
// 12/07/2012

Já tem um tempo considerável que Walter Salles não põe em cena um ótimo filme. Na Estrada, adaptação do livro de Jack Kerouac, era a aposta para um retorno bastante esperado do diretor à qualidade que apresentou um dia em Central do Brasil, ainda mais depois da sua passagem como competidor em Cannes

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Na Estrada
por Virgílio Souza 

Sal Paradise (Sam Riley) é um jovem escritor que, como a maioria de seus pares, encara o difícil e recorrente duelo contra o papel em branco. Charmoso de um jeito tímido, contido, vive com a mãe e convive com amigos ainda mais beberrões e inconsequentes que ele, deixando-se levar de modo quase apaixonado pelas aventuras alheias, mas sem se esquecer de suas ambições mais íntimas – o livro próprio em primeiro lugar. Seu melhor amigo é Dean Moriarty (Garrett Hedlund), também escritor, igualmente jovem e dezenas de vezes mais subversivo e confuso, que dividiu parte da juventude entre o salão de sinuca, a cadeia e a biblioteca municipal. Símbolos da geração do fim dos 40 e início dos 50, eles são a essência de Na Estrada e a principal razão pelo sucesso do filme em recriar a atmosfera entorpecente da época.

Dirigida por Walter Salles, a obra é inconstante e alterna momentos de euforia e depressão, variando seu ritmo sem critério aparente. O que parece ser um grande problema é, no entanto, dos seus maiores méritos: a narrativa de Na Estrada é capaz de incorporar os principais elementos da trajetória de Sal e Dean em viagem pelos Estados Unidos – da melancolia à eletricidade. A direção também é competente ao construir belos planos que indicam a turbulência na relação entre os amigos: vemos o jovem nova-iorquino fumando ao lado de estranhos em um caminhão, quando a luz de seu cigarro se destaca em meio à escuridão da noite, para, mais adiante, vê-lo surgir assim ao lado de Dean, como sinal claro de seu afastamento – estar com ele, no fim das contas, é como estar com um estranho.

É decepcionante notar, por outro lado, que as principais falhas existentes decorrem de maneirismos e excessos do diretor. Salles interrompe a fluidez da trama ao abusar de determinados planos que, inicialmente simbólicos, perdem suas funções quando repetidos pela décima vez: são os casos daqueles enquadramentos que mostram o para-brisas sujo de poeira, o carro dos amigos atravessando a tela, o bloco de anotações de Sal a cada palavra que ele escreve.

Além de apresentar os mencionados problemas de direção, o longa conta com um roteiro problemático, assinado por Jose Rivera, em termos de ritmo. Ainda que se possa argumentar que as oscilações refletem a própria natureza da trama e de seus personagens centrais (e, em certa medida, é verdade, pois eles são seres errantes), é incômodo perceber que, em determinados momentos, a trama parece indecisa sobre qual rumo tomará a seguir, o que gera variações de tom prejudiciais ao seu desenrolar. É o que acontece, por exemplo, quando Sal, Dean e Marylou (Kristen Stewart) passam a oferecer carona a forasteiros e caubóis – trecho que oferece boas cenas, mas que pouco move a trama ou auxilia na compreensão de seu principal conflito: Sal versus necessidade de escrever seu livro.

A irregularidade também se manifesta na fotografia de Eric Gautier (de Diários de Motocicleta e Na Natureza Selvagem). Curiosamente, o francês – experiente no registro de cenários abertos – se mostra mais eficiente em fotografar as sequências internas, atribuindo importantes significados aos personagens conhecidos pelo caminho. Auxiliado pela belíssima direção de arte de Martin Gendron e Hania Robledo, é capaz de transmitir exatamente as características que despertam o interesse de Sal em personagens como o saxofonista vivido por Terrence Howard. Fotografado com uma paleta saturada e cercado por objetos de cores quentes, ele é a representação precisa daqueles que “queimam, queimam, queimam” – e que atraem o jovem escritor.

Igualmente importantes para a construção de Sal são os demais coadjuvantes. E não surpreende ou incomoda que passem como flashes e ocupem tempo limitado em tela, uma vez que experiências momentâneas, intensas e de curta duração, fazem parte da vida na estrada. Todos desempenham seus papéis com competência. Destacam-se Viggo Mortensen (como o misterioso Bull), Amy Adams (fora de sua zona de conforto, dando vida à junkie Jane), Kirsten Dunst (a fragilizada, mas combativa, Camille) e Tom Sturridge (bom como um intelectual afetado, excelente como um poeta pesaroso e fatalista).

Entre os principais nomes, três performances impactantes. Stewart constrói Marylou como uma garota instável, que aparenta maturidade quando diz querer se casar e ter filhos para, em seguida, tomar uma das decisões mais impulsivas e adolescentes de toda sua trajetória. A jovem também protagoniza uma das cenas mais bonitas do longa, quando chora ao som de You Can’t Love What You Kill – interpretação contida, mas importantíssima para delinear o fim de seu arco.

Hedlund, por sua vez, compõe Dean como um boêmio mulherengo e irresponsável que aparenta se interessar muito menos por escrever do que diz ao amigo Sal. A impressão de que o personagem estaria fadado ao fracasso se confirma, mas, ao fim da projeção, temos um sujeito angustiado pela ausência do pai, desapontado por nada ter produzido e frustrado por ter desperdiçado todas as oportunidades e companheiros que tivera. A cena em que descreve uma orgia simboliza essa percepção: inquieto, o rapaz carrega um sorriso no rosto segundos antes de revelar ter pensado em suicídio e dizer que está “queimando por dentro” – aqui, a direção de Salles é irrepreensível.

Por último, temos Riley. Como o filme, ele paira entre a reflexividade de uma juventude efervescente e a histeria coletiva desse mesmo grupo, movido por álcool, drogas, suor e lágrimas. Usualmente movido pelas ações de seus colegas (repare como ele diz “a decisão [sobre para onde ir] é minha” e, em seguida, é conduzido até outro destino por Dean, guiado pelo interesse próprio de encontrar o pai), Sal é concebido através de pequenos traços, como sua respiração, geralmente ofegante em função da longa caminhada, do vício ou da disenteria. Ainda, sua personalidade se encontra invariavelmente ligada à escrita, o que justifica sua agonia quase doentia quando as folhas de seu caderno de anotações se esgotam, no que talvez seja o melhor momento do longa – e, não coincidentemente, o melhor fragmento da grande atuação de Riley.

Não fossem algumas más escolhas de Salles no momento derradeiro, como as alucinações do protagonista e a desnecessária colagem de falas e sons da viagem enquanto acompanhamos a confecção das últimas linhas do livro, Na Estrada teria desfecho ainda mais digno, sustentado pela poderosa trilha sonora de Gustavo Santaolalla, espetacular desde o início do longa, e pela impactante narração de Sal, que ganha mais força aqui do que nunca. Após vê-lo finalmente entrar em chamas, com o fúria que lhe é característica, não restam dúvidas: ele é Jack Kerouac.

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On the Road (Reino Unido, Eua, Brasil, França, 2011). Drama/Aventura. PlayArte.
Direção: Walter Salles
Elenco: Kristen Stewart, Sam Riley, Garrett Hedlund, Kirsten Dunst.

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Aventura, Críticas, Drama