CRÍTICA: Nanny McPhee e as Lições Mágicas

Críticas
// 16/09/2010

Nesta sexta-feira estreia no Brasil, em médio circuito e apenas com copias dubladas, a fantasia infantil Nanny McPhee e as Lições Mágicas, continuação do longa de 2005 estrelado e produzido por Emma Thompson. Com alguns exageros e total entendimento de seu papel dentro do cinema, o filme só não é um êxito por completo para as crianças por se limitar demais à uma faixa etária restrita. Mas é extremamente saudável.

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Nanny McPhee e as Lições Mágicas
por Arthur Melo

É praticamente impossível assistir aos dois filmes da babá encantada Nanny McPhee sem tecer comparações com Mary Poppins. As semelhanças são inúmeras, mas, levando em consideração o vão que há no tempo desde a última vez que este crítico e, muito provavelmente, tantos dentre os que lerão este texto assistiram à Sra. Poppins pela última vez, é evidente que estabelecer uma tabela e por as duas obras lado-a-lado seria perda de tempo – sem mencionar que retiraria toda e qualquer validade de uma análise centrada no longa protagonizado por Emma Thompson.

De um jeito ou de outro, é fácil dizer que o cinema infantil já foi mais encantador. Lógico que os lucros são ainda maiores do que outrora e os lançamentos não param de surgir. Entretanto, o contingente de crianças que crescem hoje com um título do cinema que guardará em sua essência para o resto da vida, sempre proporcionando momentos agradáveis em sessões vespertinas, é visivelmente menor. Efeitos vitalícios como o de Mary Poppins são raros. Nanny McPhee e as Lições Mágicas tenta incessantemente plantar alguma coisa na cabeça de uma nova leva de cinéfilos em pré-formação.

Na nova história, que não dá continuidade ao longa anterior, Isabel (Maggie Gyllenhaal) é uma mãe de três filhos que precisa cuidar sozinha de sua fazenda, já que o marido (participação especial de Ewan McGregor) está lutando na guerra, pela Inglaterra. Desesperada por não conseguir tomar conta das finanças do lugar, das confusões dos filhos, dos desastres causados pela Sra. Docherty (Maggie Smith), a dona da loja onde trabalha, e pela iminência da vinda dos sobrinhos para passarem uma temporada no campo, Isabel se vê obrigada a aceitar a ajuda voluntária da babá Nanny McPhee para dar um jeito nas coisas.

A disposição narrativa é semelhante à do primeiro filme, de 2005. McPhee chega em um momento de atribulações para colocar as crianças travessas nos eixos e ajudar a família num problema maior. Aos poucos, a babá ganha o carinho das crianças graças aos seus truques de mágica que lhes educam aos poucos. De fato, novidade não há sequer alguma. O roteiro de As Lições Mágicas evolui sobre uma trilha já percorrida, seja pelos filmes que lhe deram referência, seja pela primeira produção da série. Mas fez pequenas evoluções que, observando o trabalho como um todo, apenas mantém o saldo sem perdas e ganhos, o que é extremamente coerente – ao menos no que se propõe a fazer.

É mais do que óbvio que o filme é destinado às crianças. E disto toma proveito. A história é clara e sem rodeios, evita ramificações e procura se centrar nos pequenos em cena. Peca, apenas, pelo excesso. Diferente da medida usada no primeiro filme, McPhee agora parece mais disposta a abusar da magia para seja lá o que puder lhe adiantar o trabalho. Por vezes, produz um resultado agradável, como a caçada aos seis porquinhos no primeiro ato do filme, mas desnecessário no modo fácil demais com que a babá opta por fugir do “terrível” trânsito londrino já no segundo ato. Um mínimo de sutileza seria totalmente absorvida pela plateia mais nova de qualquer forma. Mas isto não chega a ser um estorvo. Mesmo sabendo com que público está lidando, a sucessão de acontecimentos no filme não é entregue de pronto. É notável, mesmo que – agora sim – sutil, o modo como o roteiro procura moldar a mente das crianças, fornecendo, através das situações mais cômicas, importantes fragmentos que serão resgatados no final, ilustrando aos menores como se “brinca” de ser coerente com o que já foi dito.

O que se faz no roteiro é reproduzido nos parâmetros técnicos da produção. A direção de arte se preocupa menos com os detalhes e mais com o design em conjunto, que atrai os olhares por conta de uma fotografia cujo papel é mais dar ênfase no enxoval de cores vivas e contrastantes do que auxiliar numa história que não pede entrelinhas visuais. Um desapontamento apenas pela trilha de James Newton Howard. Famoso por fazer milagres através de suas composições em filmes que mal dão pano para manga, o músico deixou toda a sua expressividade de lado e não colabora com um bom refrão durante toda sua execução.

Já o receio quanto ao elenco é superado. Estelar, o time de atores (firmado provavelmente durante o “recreio” das gravações dos últimos Harry Potter) se mostra despreocupado em se fazer presente em um longa como Nanny McPhee, aceitando-o e se confortando em cena. Não é à toa que Maggie Gyllenhaal, Maggie Smith e Ralph Fiennes estão até mais convincentes do que a própria Emma Thompson, que não se renova e nem se aprimora sequer no visual.

Distante de se tornar um clássico, Nanny McPhee e as Lições Mágicas sofre não só com a competição com o apelo a novos modelos da cultura infantil (comercialmente muito mais poderosos) e, para os mais crescidos, perde espaço por conta de suas extravagâncias aqui ou ali. Mas se vale por apresentar uma densidade acertada à sua história e por acreditar que ainda é possível ajudar na criação de mentes infantis mais saudáveis.

Nanny McPhee and The Big Bang (Inglaterra, 2010). Infantil. Fantasia. Universal Pictures.
Direção: Susanna White
Elenco: Ralph Fiennes, Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal, Ewan McGregor, Maggie Smith.

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Categorias
Críticas, Fantasia, Infantil