CRÍTICA | Need for Speed

Ação
// 13/03/2014
Com o trunfo de trazer como protagonista um dos principais atores da série mais universalmente aclamada dos últimos anos, a adaptação da franquia de games Need For Speed para a tela grande mira na atmosfera dos clássicos das perseguições automobilísticas das décadas de 1960 e 1970, mas acaba como um primo pobre de Velozes e Furiosos com personagens (ainda mais) tolos.
Need For Speed – O Filme
Por Gabriel Costa
Segundo a cartilha não escrita das adaptações cinematográficas de videogames, um filme baseado em um jogo de corrida que basicamente não tem história alguma precisaria apenas de uma trama simples que justificasse empolgantes sequências automobilísticas. Need For Speed – O Filme falha de forma retumbante nesse quesito e apresenta um encadeamento surreal de eventos envolvendo personagens que parecem incapazes de tomar uma decisão racional. Mas sim, as corridas são empolgantes.
Tobey Marshall (Aaron Paul) é um jovem aficionado por carros que administra a oficina que herdou do pai e participa de corridas clandestinas que garantem a renda extra necessária para manter o negócio. Ou pelo menos é o que ele diz aos amigos e funcionários da oficina que também compõem a equipe de suporte que o auxilia nas competições. Na verdade, as dívidas da oficina já saíram de controle, o que leva Marshall a aceitar a proposta de um antigo desafeto, Dino Brewster (Dominic Cooper), para restaurar um Mustang no valor de pelo menos 2 milhões de dólares. E é aí que a trama começa a se complicar, e não exatamente de um jeito interessante.
Dino namora Anita (Dakota Johnson), antigo interesse romântico de Marshall e irmã de Pete (Harrison Gilbertson), o mais jovem integrante da equipe do protagonista. O filme percorre um período de pelo menos dois anos e meio ao longo da primeira meia hora, em um ritmo pouco equilibrado. A restauração do Mustang, que de início parece ser um dos pilares da trama, acontece fora da tela em uma fração de segundo, e o carro logo é vendido para um magnata representado pela britânica (Imogen Poots).
Após a venda, as diferenças de Marshall e Dino entram novamente em ebulição, e eles decidem resolver a questão da forma mais lógica: correndo um contra o outro (com Pete participando de gaiato) em três supercarros europeus que supostamente pertencem ao tio de Dino. Obviamente, o antagonista não encara bem a perspectiva de derrota, e provoca um desastre que culmina na prisão de Marshall por dois anos, enquanto Dino, protegido por seu dinheiro e, presumivelmente, aura de vilão, continua em liberdade. Com a pena cumprida, o personagem principal decide buscar vingança, mais uma vez, do jeito mais sensato, ou seja, derrotando Dino na De Leon, um circuito secreto organizado por Monarch (Michael Keaton), um milionário excêntrico e recluso que transmite e narra sua corrida ilegal via internet.
De acordo com o diretor Scott Waugh, o filme busca emular a aura de clássicos policiais com perseguições automobilísticas como Operação França e Bullit – que chega a ser mostrado em exibição no cinema drive in que é o ponto de partida da primeira corrida do filme. E, de fato, como não poderia deixar de ser, as sequências de corrida e perseguição são muito mais satisfatórias que a interação entre os personagens, especialmente quando alguém inevitavelmente perde o controle do próprio veículo – ou é levado a isso.
A polícia, porém, é tratada de uma forma que lembra outra famosa série do mundo dos games, GTA: basta sair da visão dos agentes da lei por alguns minutos que a perseguição é interrompida. Em um par de momentos particularmente absurdos, Benny (Scott Mescudi, mais conhecido como o rapper Kid Cudi), especialista em aviação do grupo de Marshall, surge pilotando helicópteros de rede de televisão e do exército (!) sem que nenhuma explicação seja oferecida além de breves menções a “contatos”. A comparação com a série Velozes e Furiosos é inevitável, e os longas protagonizados por Vin Diesel, The Rock e companhia saem à frente pela honestidade enquanto cinema-pipoca, enquanto Need For Speed parece insistir em uma pretensa dramaticidade que chega a ser incômoda.
Aaron Paul, um chamariz no mínimo tão significativo para o filme que a marca da franquia de jogos eletrônicos, diante do sucesso de Breaking Bad, que lhe rendeu dois prêmios Emmy, carrega boa parte da angústia de Jesse Pinkman para Marshall, mas isso não esconde a personalidade rasa do protagonista. Os dois anos na prisão mal são mencionados após acontecerem, e não parecem ter sido uma experiência particularmente marcante para o personagem. Cooper é ainda mais unidimensional, e a rivalidade entre os dois não chega a envolver o espectador pelo simples motivo de que ambos se comportam – assim como o restante do elenco – como pessoas que não têm ideia das consequências de seus atos, ou simplesmente não se importam.
Need For Speed – O Filme tem algum valor como entretenimento, embora seja mais pelo caráter de comédia involuntária do que por boas sacada do roteiro, direção ou elenco. Em um também fictício ranking de adaptações de games, estaria provavelmente entre algum dos últimos filmes da série Resident Evil e o primeiro Mortal Kombat, de 1995. É diversão descerebrada, com ênfase na segunda parte.
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Need For Speed – O Filme (EUA, 2014) Ação. DreamWorks SKG.
Direção: Scott Waugh
Elenco: Aaron Paul, Dominic Cooper, Imogen Poots, Scott Mescudi
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Categorias
Ação, Críticas, Games