CRÍTICA: Nine

Críticas
// 28/01/2010

Indicado a Globo de Ouro a Melhor Filme Comédia ou Musical, Nine, de Rob Marshall, chega aos cinemas brasileiros amanhã. Prometendo uma verdadeira coroação à vontade italiana de filmar, o musical se prende aos padrões americanos e desvirtua no seu próprio texto e estilo. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”

Nine
por Eliézer Carneiro

Nine é, antes de tudo, um musical. Primeiramente, preciso fazer uma confissão: eu odeio musicais. Nunca fui muito fã de filmes onde a ação era interrompida aleatoriamente para alguém soltar a voz e fazer um número de dança sem existir nenhum contexto para isso. Salvo alguns filmes da Carmen Miranda e do Fred Astaire, sempre considerei musicais como um gênero chatíssimo.

Achei interessante quando soube que o diretor de Nine seria o Rob Marshall que, apesar de só ter feito dois filmes (Chicago, de 2002, e Memórias de uma Gueixa, de 2005), foi muito bem na direção do primeiro e soube transformar vários números musicais em um longa.  Além do diretor, o que também chamou a atenção foi a quantidade de estrelas premiadas que faziam parte do projeto e, por fim, a peça e o filme no qual ela foi baseada.

Nine é proveniente de um musical de sucesso da Broadway que, por sua vez, é fruto do filme 8 ½, do diretor Federico Fellini. Para poder entender não só o nome do filme como todo o universo ao qual ele remete, é preciso prestar atenção à um fato: a produção de Fellini assim se chama porque, antes de dirigi-lo, o cineasta já tinha feito 6 filmes, 2 curtas metragens (que juntos valeriam como sendo 1 longa) e co-dirigido outro (o que valeria como meio filme); somando tudo, se tem os 8 ½ . O filme, que trazia Marcello Mastroianni no papel do cineasta Guido Anselmi e Claudia Cardinale como a também Claudia, ganhou 2 Oscar (Filme Estrangeiro e Figurino),  13 prêmios de Melhor Filme em festivais pelo mundo e depois disso entrou em quase todas as listas de 10 maiores filmes de todos os tempos. A história – que vale a pena pincelar aqui – mostrava a agonia e a crise existencial de um diretor que, perto das filmagens, ainda não tinha um roteiro para por em prática. Fellini dava toques de surrealismo ao filme, fazendo o Guido sofrer de alucinações e lembranças da infância enquanto é pressionado por todos.

19 anos se passaram até que Maury Yeston , um famoso compositor de musicais da Broadway, pegou o 8 ½, adicionou números musicais e o transformou no 9. Nine foi um sucesso, ganhou 6 prêmios Tony além de versões mundo afora (a versão argentina é considerada a melhor de todas) e teve uma segunda versão americana com Antônio Banderas no papel de Guido.

Bem, o que se esperar de um musical? A resposta óbvia seria “números musicais”. Pelo o que se pode constar, parece que alguns números do musical original foram cortados, ao mesmo tempo em que outras canções foram compostas somente para o filme, como “Cinema Italiano”, executada por Kate Hudson. Como é de se esperar, o resultado das canções é irregular, desde a fraca “Chiclete” até a ótima “Take it all”, cantada pela ótima Marion Cotillard.

As sequências musicais, ao menos, são muito bem feitas. Rob Marshall se mostra experiente no assunto. Com sabedoria, usa os cenários, aproveita muito bem os recursos da câmera e procura montar suas cenas numa espécie de palco, deixando tudo mais simples, o que coloca tais passagens num nível de excelente produção. Os problemas aparecem no restante do filme.

O roteiro escrito por Anthony Minghella (O Paciente Inglês) e Michael Tolkin (Impacto Profundo) é ótimo na abordagem de questões que remetem às mesmas do  filme original. Nine trata desde o relacionamento humano (Guido, sua esposa e suas amantes), até questões que eram sempre presentes na obra de Fellini, como o poderio da igreja católica romana na cultura italiana, lembranças da infância, a mídia e a cultura dos paparazzi , a mulher, a política e o senso de beleza italianos.

O ponto mais fraco talvez seja a direção do Rob Marshall justamente fora das cantorias. Guido é um personagem complexo, Daniel Day Lewis está perfeito como tal e, mesmo assim, parece que o filme não tem a capacidade de buscar esta complexidade que o personagem carrega.  Das atrizes, Marion Cotillard está perfeita e dá um show, seguida por Penélope Cruz que, como o personagem manda, esbanja sensualidade, e também Judi Dench, que está muito bem no seu posto; fora o bom grado de matarmos a saudade de Sophia Loren, que aparece bem, mas em poucas cenas.

Não é surpresa perceber que os atores europeus se saíram melhores. Pode parecer piada, mas o filme é muito americano para o que se propõe. Desde a menção aos lendários estúdios da cinecittà às questões que dizem respeito à mulher e à sociedade, o filme aborda de uma maneira bastante americanizada. O adultério, por exemplo, é tratada do famoso jeito americano no cinema: algo imperdoável que nunca pode acontecer e resolvido na base do drama, onde as mulheres dão ataques e os homens ficam esgotados – bem diferente da maneira como os cineastas italianos abordam, discutindo desde o que é o amor até o fracasso, possível volta do relacionamento e até mesmo relações onde o casal não se importa com o tema. As crises de criatividade de Guido poderiam render ótimas cenas, mas Hollywood, que (também) passa por uma tremenda crise de criatividade sem fim (vide as incansáveis continuações e adaptações) simplesmente ignora. A mulher do cinema italiano varia desde a femme fatale até mulheres comuns. Fellini adorava dar vez a moças gordas de seios fartos nos seus filmes e Saraghina era feia e ao mesmo tempo sensual… Ao contrario da Ferggie, que segue o estereótipo de mulher norte-americana.

No fim, o filme que diz ser uma homenagem à Itália na verdade não passa de um desfile de clichês italianos com um recheio americano.

Nine (EUA, 2009). Musical. Sony Pictures.
Direção: Rob Marshall
Elenco: Daniel Day Lewis, Judi Dentch, Sophia Loren, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Kate Hudson e Marion Cutillard.

Comentários via Facebook
Categorias
Críticas, Musicais