CRÍTICA: Nosso Lar

Críticas
// 11/09/2010

Mais de uma semana de atraso, é verdade. Mas antes tarde do que nunca, a crítica de Nosso Lar, a maior produção nacional até o momento, tem a sua crítica publicada aqui no Pipoca Combo. Leia as impressões clicando em “Ver Completo” e saiba se, mesmo com suas falhas, o filme ao menos é uma contribuição válida para o que o cinema brasileiro pode se tornar no futuro.

Nosso Lar
por Pedro de Biasi

Falar que Nosso Lar é moralista, doutrinador e antiquado é um jeito de perder outras questões de vista. Sim, os três adjetivos servem mais ou menos bem para descrever o filme de Wagner de Assis, mas não é construtivo se limitar a entender a proposta. O moralismo não é mais ou menos pronunciado que o normal só porque a temática é religiosa, e o roteiro é honesto em sua abordagem ideológica. Esta, por outro lado, se confunde com outro processo que se pode aproveitar sem nenhum laço doutrinário.

Mas, primeiro, a história: André Luiz (Renato Prieto) morre. Seu espírito desperta no Umbral, uma paisagem desolada e escura, repleta de almas desesperadas. Depois de muito sofrimento, ele faz uma oração e é resgatado por moradores do Nosso Lar, uma cidade espiritual situada 50 km acima da Terra. Lá ele conhece a existência após a vida e o funcionamento da sociedade das almas.

Sem a necessidade alguma de se identificar com o pensamento espírita, o espectador pode abordar a história como quem conhece um universo fantástico. Por mais que seja uma crença, Nosso Lar é um território que ninguém pode alcançar, a não ser depois de abrir mão do corpo, da boca que relata e das mãos que documentam. É uma mistura homogênea e ambígua entre verdade inalcançável e ficção.

Pode-se argumentar que a apropriação da crença como fantasia e vice-versa também ocorre em filmes como Irmãos de Fé e Maria – Mãe do Filho de Deus, mas há diferenças. Enquanto as parábolas cristãs se firmam no passado mesmo quando querem tratar do presente, Nosso Lar abarca presente e futuro. A descoberta da cidade das almas só ocorre após a vida, e o aprendizado é constante, sempre direcionado para frente. Até a arquitetura futurista passa a noção de avanço e desapego ao que já passou.

A inexistência física afrouxa os laços com a realidade em que vivemos, e até mesmo com a História ou com o futuro de nossa vivência. Não importa o que foi real na vida terrena, e sim o que será real depois dela – ou mesmo entre uma encarnação e outra. Quando Assis escolhe manter a trama nos anos 30 e 40, é apenas para criar uma interessante tensão envolvendo a II Guerra Mundial.

Infelizmente, quando a dramaturgia demanda um cruzamento entre a vida mundana e a espiritual, o roteiro de Assis se desequilibra. André Luiz é chamado de “suicida inconsciente”, por causa de seus hábitos degradantes, mas esse conceito é espiritual. Dessa forma, nunca se explica a ausência de orações dos familiares após sua morte, uma vez que tudo que o filme mostra são cenas de família-margarina.

Embora carismático, Prieto também atrapalha na construção do personagem, pois às vezes lhe falta a intensidade para transformar um sorriso ou um choro no gesto forte que deveria ser. O razoável elenco oferece uma atuação vibrante de Rosanne Mulholland como Eloisa, mas sua personalidade desafiadora acaba sufocada por truques de roteiro baratos.

Todos são vítimas daquela encenação travada que caracteriza muitos filmes brasileiros. Assis ainda trabalha mal os embates ideológicos, não raro saltando para conciliações apressadas que não fazem jus ao crescimento de André – e até exagerando o impacto de questionamentos rasos de Eloisa. Resta o bom uso da trilha do sempre ótimo Phillip Glass, que constrói o deslumbramento e a proposta empreendedora do mundo espiritual.

Em vez de agregar valores negativos ao vilão e positivos ao herói, no caso de Nosso Lar, os valores dentro de cada um fazem esse papel. Tirando essa diferença, a produção pode ser classificada como uma mediana aventura de fantasia: um filme cheio de efeitos visuais ambientado em uma realidade alternativa de onde brotam tensões, mistérios e lições de vida.

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Nosso Lar (Brasil, 2010). Fantasia. Drama. Fox Filmes.
Direção: Wagner de Assis
Elenco: Rosanne Mulholland, Paulo Goulart, Othon Bastos, Fernando Alves Pinto, Renato Prieto

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