CRÍTICA | O Abutre

Críticas
// 21/12/2014

Thriller criminal aclamado pela crítica internacional, O Abutre é uma agradabilíssima surpresa que traz Jake Gyllenhaal em ótima forma e conta com uma trama tão instigante, aterradora e bem construída quanto seu protagonista.

O Abutre
por Eduardo Monteiro

Ao ver O Abutre, é fácil perceber como a produção poderia muito bem ter resultado em um filme irrepreensível, mas é difícil definir exatamente o que seria capaz de torná-lo esta hipotética obra impecável. De toda forma, é um equívoco – ou apenas um mero desperdício de tempo – avaliar um filme pelo que ele poderia ter sido caso isto ou aquilo tivesse sido executado de forma diferente – e, além do mais, esta estreia na direção do roteirista Dan Gilroy é boa demais para abrir espaço pra esse tipo de discussão inconclusiva.

Na trama, Jake Gyllenhaal é Louis Bloom, um sujeito fracassado que tira seu sustento do instável e mal remunerado negócio de pequenos furtos no submundo de Los Angeles. Após testemunhar o trabalho de cinegrafistas autônomos que, na calada da noite, disputam os melhores e mais exclusivos ângulos de acidentes, catástrofes ou cenas de crime e oferecerem as imagens aos noticiários locais, Bloom decide tentar a sorte no ramo: com muita cara-de-pau e sem qualquer escrúpulo, o sujeito logo vence os percalços iniciais do ofício e se equipara a velhos profissionais da área, como o veterano Joe Loder (Bill Paxtor) e sua equipe. Entretanto, as ações de Bloom passam a deixar um rastro cada vez mais aterrador enquanto sua personalidade egocêntrica e seu caráter duvidoso o conduzem a um sucesso profissional e financeiro cujo custo extrapola qualquer limite moral conhecido.

Um dos destaques inegáveis do longa é, sem dúvidas, a atuação de Jake Gyllenhaal: com uma carreira cada vez mais interessante, o ator surge em cena vários quilos mais magro, com um penteado desleixado e figurinos que ressaltam a silhueta mirrada do personagem e transforma Bloom em um sociopata cuja patética necessidade de atenção reverbera danosamente na vida de dezenas de indivíduos que cruzam seu caminho. Nesse sentido, o roteiro de Gilroy acerta em cheio ao construir calmamente a escalada de gravidade das ações do protagonista, que começa com uma mero rearranjo de fotografias familiares em uma geladeira alvejada por tiros em determinada cena de crime que Bloom acabara de invadir e alcança extremos que não convém expor nesse texto, mas não raramente surpreendem o espectador.

Além disso, a eficiência do texto de Gilroy é novamente comprovada pelo modo como a narrativa é estruturada: um evento que se torna motivador do conflito central da trama só é apresentado em meados da segunda metade da projeção, sem que tudo o que fora apresentado anteriormente pareça arrastado ou impertinente e, ainda, potencializando o suspense e a tensão da narrativa em sua reta final. Infelizmente, o tom adotado pelo cineasta soa equivocado em determinados momentos, oscilando erraticamente entre o realismo e a sátira: embora consiga calcar a narrativa em um universo suficientemente autêntico e palpável, Gilroy permeia a trama com eventos, personagens ou comportamentos cujo teor satírico excessivo praticamente obriga o espectador a lembrar que aquilo se trata de um mero filme, como a cena em que a dupla de âncoras de um telejornal descreve de um modo absurdamente frio as filmagens fortes e gráficas das vítimas de uma chacina.

Todavia, o longa geralmente acerta ao estimular uma reflexão crítica através da exposição dos bastidores podres da imprensa sensacionalista (e, de tabela, alfineta o público de atrações dessa natureza, que é o grande responsável pela existência desse nicho), cuja demanda por sangue abre espaço para decisões irresponsáveis diversas e torna compreensível a postura de terceirizar a obtenção de imagens, já que assim a responsabilidade das redes de televisão quanto à produção desse tipo de conteúdo é reduzida – e, nesse sentido, o diálogo que traz a diretora de jornalismo vivida por Rene Russo informando-se sobre as possíveis consequências da veiculação de determinadas imagens e enfatizando de forma debochada que sua preocupação diz respeito exclusivamente às questões jurídicas, e não morais, é absolutamente perfeito.

Contando com um ato final coerente e impactante, O Abutre é certamente uma das grandes surpresas do ano e tanto reafirma o talento de Gyllenhaal à frente das câmeras quanto comprova o potencial de Girloy por trás delas.

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Nightcrawler (EUA, 2014). Suspense.
Direção: Dan Gilroy
Elenco: Jake Gyllenhaal, Bill Paxton, Rene Russo

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Críticas, Thriller