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Se Charles Chaplin estivesse vivo, certamente festejaria o sucesso de um filme mudo produzido mais de 80 anos após a consagração do cinema falado. O Artista, detentor de impressionantes 10 indicações ao Oscar, inova, justamente, ao reviver o passado. Mas até que ponto isso é bom? Confira.

O Artista
por Matusael Ramos

Os anos 20 foram, definitivamente, um marco na história do cinema mundial. Graças ao desenfreado crescimento econômico experimentado pelos norte-americanos desde o final da Primeira Guerra Mundial, Hollywood (ou Hollywoodland, como então a chamavam) havia se consagrado como referência mundial na produção cinematográfica, fazendo com que seus executivos não poupassem esforços para conquistar parcelas cada vez maiores do público. A cada nova produção em cartaz, as plateias se deliciavam com sequências hoje corriqueiras, como batalhas aéreas ou resgates dramáticos. Pode-se dizer que, de certo modo, o lançamento do primeiro filme falado – O Cantor de Jazz, em 1928 – representou para o cinema aquilo que a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque representaria, um ano mais tarde, para a economia mundial: um período de crise,  incertezas e reinvenção.

É justamente esse período de transição entre o fim do cinema mudo e a ascensão do cinema falado – brilhantemente abordado no clássico Cantando na Chuva, de Gene Kelly – o ponto de partida de O Artista, filme sensação da temporada.

O longa conta a história de George Valentin (Jean Dujardin), um galã do cinema mudo no auge de sua carreira, cujo acaso coloca em seu caminho a jovem e bela aspirante à atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo, radiante). Não demora muito para que, com a ajuda de Valentin, o charme de Peppy comece a atrair a atenção de produtores e a garota consiga seus primeiros papéis. Nesse meio tempo, o desacreditado cinema falado começa a ganhar espaço em Hollywood, colocando em risco a carreira de muitos atores que, até então, haviam se limitado a gesticular diante das câmeras. Orgulhoso, Valentin ainda tenta resistir a essa nova fórmula, produzindo o drama “Lágrimas de Amor”, que se mostra um fracasso nas bilheterias. A partir daí, tanto a vida profissional quanto a pessoal do ator entram em franca decadência: ele é expulso de casa pela esposa e, sem esperanças, se entrega à bebida; os convites de trabalho já não surgem e ele, por fim, cai no anonimato. Em contrapartida, a situação de Peppy, sua protegida de outrora, não poderia ser melhor: intitulada a nova namoradinha de Hollywood, a garota emplaca um sucesso atrás de outro, embalada pela sensação do cinema falado.

Escrito e dirigido pelo até então desconhecido cineasta francês Michel Hazanavicius, O Artista é talvez o mais singular dentre os grandes concorrentes ao Oscar nos últimos anos. Mudo, preto-e-branco e sustentado basicamente na dupla de atores principais, o longa resgata não só uma estética, mas também um gênero abandonado pelo Cinema há mais de 70 anos, em consequência do advento do cinema falado. Favorecidas ou não pelo charme inerente a esse tipo de filme, algumas cenas já nascem clássicas, como aquela em que Peppy e Valentim dançam separados por um biombo ou ainda aquela em que a garota experimenta um dos ternos do galã e ensaia um abraço apaixonado. Absolutamente carismático e auxiliado por um competente trabalho de caracterização, o casal Dujardin e Bejo encarna seus personagens com maestria. E, se num primeiro momento a ausência de falas pudesse ter se mostrado um fator limitante à sua atuação (e até mesmo um motivo de resistência por parte do público), a dupla faz, em compensação, sábio uso da linguagem corporal, tornando-se, de algum modo, ainda mais cativante.

Outro elemento fundamental em se falando de cinema mudo é, sem sombra de dúvidas, a trilha sonora. Em O Artista, a onipresente trilha do compositor Ludovic Bource constitui ferramenta essencial em cada uma das cenas, de modo que em muitos momentos os acordes chegam inclusive a sincronizar com o gestual do elenco. Inicialmente festiva e progressivamente mais dramática, é fato quase certo que a obra de Bource seja agraciada com o Oscar na cerimônia do próximo dia 26.

A ótima fotografia em preto-e-branco, ao contrário do que se poderia pensar, vai muito além de um simples processo de dessaturação executado durante a fase de pós-produção do filme, sendo que sua concepção está intimamente ligada ao trabalho de direção de arte e, naturalmente, às próprias filmagens.

Mas, em meio a tantos elogios que vem recebendo da crítica especializada, é de se esperar que também os seus pontos fracos comecem a ser alvos de discussão. Quanto ao roteiro, considerado por muitos exageradamente simples, vale observar que o filme, como produção, remete a uma fase do Cinema em que a maioria das histórias era carregada de ingenuidade e onde a inserção de subtramas era um campo quase desconhecido na linguagem cinematográfica. O verdadeiro deslize de Hazanavicius reside, talvez, no ritmo um tantinho arrastado que o filme adquire a partir de sua segunda metade – algo que ainda assim, poderia ser justificado pela fase desoladora na qual mergulha o protagonista.

Não há dúvidas de que O Artista seja uma homenagem muito bem vinda ao cinema mudo, que por mais de três décadas produziu clássicos como Encouraçado Potemkin (1925) e Luzes da Cidade (1931). Desde os créditos principais, exibidos já no início do longa, até a gravação das cenas em 18 fotogramas por segundo (técnica responsável pela rapidez característica dos filmes mudos), tudo é concebido para que o espectador seja transportado para aquela que muitos ainda consideram a Era de Ouro do cinema. Uma época em que clichês ou bilheterias ainda não eram as maiores preocupações do público e onde boa parte dos filmes não tinha outra pretensão senão a de entreter. Uma época em que, já dizia a sabedoria popular (e aqui me reservo ao direito de também ser antiquado), um olhar valia mais do que mil palavras.

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The Artist (França/Bélgica, 2011). Comédia. Paris Filmes
Direção: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Berenice Bejo, John Goodman, James Cromwell

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Comentários via Facebook:

6 respostas para »CRÍTICA: O Artista»
  1. Matusael, você está de parabéns pela crítica!
    Espetacular! Pretendo assistir neste final de semana.

  2. Finalmente conferi O Artista e devo dizer que é um filme bom, apenas. Não Acho que ele é inovador e nem uma obra-prima da sétima arte.

    Adorei a crítica, no entanto discordo de alguns pontos.

    Embora concorde que a fotografia é eficiente (não arrebatadora ou criativa), as atuações são excelentes e faz uma boa homenagem aos filmes mudos e preto-e-branco(e falados) americanos, não enxergo essa maravilha toda .

    A trilha sonora não contem originalidade , pois me faz lembrar vários filmes mudos no qual vi, o roteiro é redondo (ele é bom, porém não traz nenhuma inovação, muito arrastado na segunda parte o que me decepcionou um pouco), a direção é igual aquelas produções da velha guarda, apenas. Ele é bonito de se ver,razoável e simpático,e não é ousado .

    Não gosto de digitar ou falar que tal filme é feito para ganhar premiações, mas tenho que dizer, O Artista foi criado sim para vencer os grandes prêmios. Minha nota é : 7.5.

  3. 0tima critica, e otimo comentario Nerd Girl!

    Ainda não sei se posso gostar do filme! Pra fala a vdd to sem nenhuma espectativa, ja que filme feitos para o Oscar , na minha humilde concepção são chatos e como a Nerd Girl diz, não ousão nem um pouco e somente poucos são originais!!!

    Na torcida por Hugo!

  4. Sou mais uma do imenso grupo de pessoas que se apaixonou pelo filme. Concordo que ficou um pouco arrastado em alguns momentos, mas não deixou de ser empolgante. Tudo que eu vejo apontarem como “problemas” são, como você disse, características comuns aos filmes da década de 20. Ou seja, não é um problema, é uma homenagem. :)

    Preciso dizer que fiquei com vontade de sapatear e que sua crítica, mais uma vez, está muito boa!

  5. apaixonaram*

  6. É um filme especial, nostálgico, metalinguístico e atual. Pode não ser o melhor dos 9 indicados (eu, pessoalmente, prefiro Meia Noite em Paris e Árvore da Vida) mas é, ironicamente, o que mais merece o prêmio por saber utilizar sua linguagem muda de forma original e inteligente.

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