CRÍTICA | O Céu é de Verdade

Críticas
// 07/07/2014

A apreciação de um filme não pode (ou pelo menos não deveria) depender da crença do espectador. Este é um problema que o drama com cunho religioso O Céu é de Verdade até tenta contornar, embora falhe ao insistir em provar a afirmação categórica contida em seu título com evidências que só conseguem convencer aqueles que já acreditam nela.

O Céu é de Verdade
por Eduardo Monteiro

A vinheta da TriStar Pictures nunca foi tão metalinguística quanto em O Céu é de Verdade: embora sirva para informar o público do envolvimento do estúdio na produção, a famosa e breve imagem de um feixe de luz quase etéreo surgindo entre nuvens e sendo interceptado por um gracioso cavalo alado pode ser encarada como uma cena já da própria narrativa, considerando que, após viver uma experiência de quase-morte, o garoto Colton Burpo (Connor Corum) alega ter dado um giro pelo Céu e constatado que Jesus, além de bom anfitrião e guia turístico, possui um cavalo.

Esta, claro, não é a mais incisiva das estratégias utilizada pelo filme para tentar provar seu ponto. Dirigido por Randall Wallace, O Céu é de Verdade faz questão de reforçar desde o início que a narrativa é baseada em uma história verídica – e acreditar no Céu com base nisso equivale a admitir que fantasmas existem após ter visto A Invocação do Mal, outro que alega se inspirar em eventos reais. Da mesma forma, a presença de indivíduos céticos sendo gradualmente convencidos por evidências supostamente irrefutáveis apresentadas pelo jovem Colton não é nenhuma novidade; na verdade, esta é a estratégia central do longa, já que o aparente clímax dramático da narrativa (extremamente frustrante, vale apontar) ocorre quando a mais incrédula das personagens finalmente é convencida pelo garoto.

Aliás, diferentemente de lixos repugnantes como o dramalhão religioso Corajosos, O Céu é de Verdade não traz qualquer pregação mais explícita e não comete o equívoco de demonizar descrentes ou ateus; ao invés disso, o filme chega até mesmo a articular um discurso de tolerância com adversidades e crenças (ou descrenças) alheias, o que é bastante positivo. Para completar, a produção chega bem perto de se desvincilhar de rótulos religiosos definitivos ao admitir, a certa altura, que acreditar ou não no Céu está vinculado à própria ideia que cada um possui a respeito do tema: em um discurso próximo ao desfecho, o pastor vivido por Greg Kinnear sugere que o Céu pode estar (breguice alert!) “no sorriso de uma criança”, por exemplo.

Infelizmente, o filme peca por contrariar esta postura mais libertária ao tentar, até o último segundo, convencer o público da existência de um espaço metafísico transcendental para onde todas as boas almas vão após a morte. Além disso, o roteiro falha ao abandonar repentinamente certos conflitos (como as crescentes dificuldades financeiras da família Burpo foram superadas?) e por desperdiçar oportunidades de explorar temas interessantes e pertinentes, como a crueldade do sistema de saúde norte-americano.

Assim, O Céu é de Verdade se estabelece como um drama familiar aborrecido, monótomo e segregador de público, devendo funcionar apenas como reafirmação de crenças para aqueles que já as possuem – e se o interesse por um acaso for conferir Greg Kinnear em uma produção com temática religiosa, o mordaz e pouco conhecido E… Que Deus Nos Ajude!!! pode ser uma alternativa muito mais interessante e proveitosa.

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Heaven is for Real (EUA, 2014). Sony Pictures
Direção: Randall Wallace
Elenco: Greg Kinnear, Kelly Reilly, Thomas Haden Church, Connor Corum, Lane Styles, Margo Martindale.

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Categorias
Críticas, Drama