CRÍTICA: O Curioso Caso de Benjamin Button

Críticas
// 15/01/2009

Com cinco indicações ao Globo de Ouro e um dos dramas mais esperados da temporada, O Curioso Caso de Benjamin Button só estréia amanhã e já tem uma enorme leva do grande público com interesse voltado.

Confira a crítica!

O Curioso Caso de Benjamin Button
Por Débora Silvestre

O tempo exerce sobre nós efeitos não apenas físicos, mas também psicológicos. Estágios diversos da vida humana são medidos por tempo. É fácil para nós saber a faixa etária de uma pessoa apenas observando certos traços de expressão, gestos e modo de falar moldados pelo tempo. O passar do tempo, aliás, nos permite guardar memórias, recordações, momentos que tecerão nossa linha da vida de forma única e nunca igual à dos outros. A cada dia que passa, ficamos mais velhos, mais experientes, porém mais frágeis quando o tempo começa a pesar sobre nossas costas. Mas e se ficássemos mais velhos, mais experientes e, logo, mais fortes, vívidos e cheios de energia? Sobre essas e outras questões referentes ao tempo é que disserta O Curioso Caso de Benjamin Button.

A premissa é aparentemente simples: a história de um homem que, desde o nascer, não se torna mais velho, e sim mais jovem. Entretanto, tal simplicidade desaparece quando percebemos que, ao contrário de seu corpo, sua mente evolui naturalmente. Benjamin tem que aprender a ler, escrever, andar e, ao se tornar mais velho, passa a sofrer de perdas de memória e outras doenças que aparecem com a idade. Além disso, tudo se torna mais difícil quando Button se apaixona pela bela bailarina Daisy que, ao contrário dele, “cresce” normalmente.

A primeira metade do filme é menos dramática do que o resto do longa e tem o objetivo claro de mostrar as aparentes vantagens que um adolescente em um corpo septuagenário pode encontrar (é especialmente interessante a cena em que um marinheiro se espanta quando Button diz ainda ser virgem, com seu corpo de quase oito décadas), além de rascunhar a estrada que guiará a metade final da projeção: o romance entre Benjamin e Daisy.

O amor deles, aliás, é singularmente belo. Eles se amam incondicionalmente, mas tanto ele quanto ela sabem que seria impossível permanecerem juntos enquanto são muito jovens, uma vez que ele aparenta bem mais e quando forem muito velhos, já que ele estará encerrado em um corpo adolescente. A única chance que têm, então, está na época em que ambos aparentem idades semelhantes. Período este que eles ambos sabem que chegará a um fim. Não que todos os romances não cheguem a um fim (sendo este fim a morte ou não), mas a previsão do término, o saber quando tudo acabará torna o relacionamento de ambos intenso e comovente.

Assim surge o belíssimo trabalho da equipe de maquiagem do longa, por tornar crível cada uma das fases das vidas dos personagens. Todos os traços da maturidade e da juventude estão lá. É absolutamente fascinante a impecabilidade dos maquiadores e o quão reais são as expressões dos atores. Estes, aliás, não somem diante da magnitude do roteiro e, dentre as coisas mais impressionantes do filme, estão lado a lado. Nunca Brad Pitt foi tão expressivo quanto agora. Não só a maquiagem, mas também os trejeitos e olhares tanto de Pitt, quanto de Cate Blanchett e Donna DuPlantier, tornam o longa um espetáculo para os olhos e mente. Ainda, a trilha de Alexandre Desplat sabe dosar perfeitamente o tom certo entre o intimismo e o uso de músicas mais fortes.

O longa ganha pontos ainda ao não tentar, durante nenhuma cena, achar explicações para o curioso caso do título. Todos sabemos que tal caso não existe e que não há uma explicação para o que nos é mostrado. Logo, qualquer forma de tentar explicar por vias científicas o que acontece com Benjamin seria vaga e maniqueísta. O filme é um simples exercício sobre o tempo e seus reflexos em cada um de nós. Por mais que não nos demos conta disso, somos influenciados pelo tempo a todo momento. Os objetivos do projeto ficam implícitos no pequeno conto dito por Daisy nas primeiras cenas, sobre o relojoeiro cego. Sendo uma narração sobre o tempo e suas implicações, uma cena em particular, na qual Benjamin narra sobre o incidente que o reaproximaria de Daisy, é magnificamente bem montada ao conferir conclusões diferentes para um mesmo acontecimento caso ele tivesse acontecido segundos antes ou em situações diferentes na vida de cada um dos envolvidos.

Mais do que um filme sobre “um homem que rejuvenesce ao invés de envelhecer”, O Curioso Caso de Benjamin Button é, como já dito anteriormente, um ensaio sobre o tempo e quase tudo que o envolve em nossa vida. É curioso perceber, por fim, que, durante os primeiros e últimos takes das quase três horas de projeção, somos apresentados a relógios, os quais, assim como Button, tiquetaqueiam para trás.

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The Curious Case of Benjamin Button (EUA, 2008). Fantasia. Drama. Warner Bros.
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blachett

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Críticas, Drama