CRÍTICA | O Destino de Júpiter

Ação
// 04/02/2015

Chega a ser surpreendente que, mais de uma década após o fim da lucrativa franquia Matrix, a Warner Bros. continue apostando alto no talento dos irmãos Wachowski, especialmente se considerarmos que os dois trabalhos da dupla nesse meio tempo, o excelente Speed Racer e o razoável A Viagem, fracassaram nas bilheterias internacionais. Felizmente, embora o grande público não tenha correspondido financeiramente, o investimento nos cineastas continua se revelando bastante válido do ponto de vista artístico: O Destino de Júpiter pode até ter sua parcela de problemas, mas é bem executado o suficiente pra funcionar como um ótimo entretenimento.

O Destino de Júpiter
por Eduardo Monteiro

Escrito pelos próprios Andy e Lana, o roteiro se estrutura em torno de pilares bastante conhecidos e previamente explorados: presa a uma rotina fatigante e repetitiva, a faxineira Júpiter Jones (Mila Kunis) é surpreendida pela notícia de que não só existe vida inteligente em outros planetas, mas também que ela própria, uma reles terráquea, tem direito a um título de realeza extraterrestre que a coloca no centro de uma disputa entre poderosos irmãos alienígenas, herdeiros de múltiplos planetas. Jurada de morte, Júpiter é salva pelo licomutante Caine Wise (Channing Tatum) e levada para o espaço, onde descobre o destino trágico reservado para a Terra e faz tudo a seu alcance para tentar revertê-lo.

Não se trata de uma premissa remotamente original e o desenvolvimento da narrativa tampouco melhora este cenário. Constituído por um amontoado de embates, fugas, traições e resgates que mantém a trama em aparente movimento, o roteiro reserva pouco espaço para o desenvolvimento de temáticas paralelas – e tanto as reflexões sobre o real valor da vida quanto aquelas referentes à frustração de confiar insistentemente, em vão, nas boas intenções de terceiros detentores de poder limitam-se às demandas morais mais básicas do texto. Por outro lado, os roteiristas são hábeis ao relacionar, de forma prática e às vezes divertida, toda a gama de conceitos próprios daquele universo fictício à realidade vigente, formulando, por exemplo, explicações inéditas para eventos da história da Terra ou elementos culturais de seu povo (como a extinção dos dinossauros ou a origem da mitologia por trás dos vampiros, respectivamente).

Primeiro projeto dos Wachowski rodado em 3D (e o efeito é muitíssimo eficiente em várias cenas), O Destino de Júpiter dá novas tonalidades ao lugar-comum da trama através de um elenco carismático, uma direção enérgica e um design de produção deslumbrante e imaginativo. Assumindo o papel do guerreiro altamente habilidoso perseguido por erros do passado, Channing Tatum (Terapia de Risco) é exigido mais como astro de ação do que como ator dramático e corresponde à altura, enquanto Mila Kunis (Oz: Mágico e Poderoso), não tão à vontade nas sequências de ação (a cena, próxima ao desfecho, em que Júpiter atravessa corredores desviando de labaredas é incrivelmente insossa, por exemplo), confere à protagonista um aspecto comum (apesar de sua beleza exótica) e faz de tudo para que Júpiter não se estabeleça como mais uma mocinha indefesa – e embora sua natural falta de habilidade crie a necessidade de ser salva frequentemente, a mulher exibe personalidade e autonomia suficiente para, por exemplo, tomar a atitude de se aproximar de seu interesse amoroso e abrir o jogo em relação a seus sentimentos. Fechando a ala relevante do elenco, Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) dá vida a um vilão cuja natureza obviamente caricata torna admissíveis os excessos e todas as afetações da composição do ator.

Sem grande apego a sutilezas, Andy e Lana Wachowski conduzem as ótimas sequências de ação com competência e energia, ainda que algumas delas careçam de sentido (como aquela em que acompanhamos os longos esforços de Caine para invadir uma fortaleza dentro da qual o personagem, no frigir dos ovos, não tem muito o que realizar). Dando suporte ao trabalho dos diretores, a direção de arte enche os olhos do espectador e consegue dar um frescor surpreendente a elementos utilizados de forma tão recorrente no gênero: os figurinos, as naves e os cenários são grandiosos e possuem um visual todo particular, repleto de objetos de cena curiosos (repare como muitos equipamentos – como certa máquina de tortura – parecem estranhamente arcaicos e anacrônicos) e fortemente influenciados pela arquitetura europeia. Para completar, a qualidade dos efeitos especiais também chama a atenção positivamente: a substituição dos atores por bonecos digitais em planos muito elaborados é praticamente imperceptível, por exemplo.

Fazendo uma reverência estranha a Sinais, de M. Night Shayamalan, e abusando eventualmente da paciência do público com tolices (pra que diabos inventar que abelhas são “geneticamente projetadas para detectar realeza”?), O Destino de Júpiter é uma ficção científica bem eficaz que, em virtude de um roteiro falho e comprometedor, infelizmente não se qualifica para os anais do gênero.

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