CRÍTICA: O Deus da Carnificina

Comédia
// 06/01/2012

“Eu gostaria de ser julgado pelo meu trabalho, não pela minha vida”, declarou certa vez o diretor franco-polonês Roman Polanski, durante uma coletiva cedida à imprensa. O fato é que, diante de uma vida tão dura e controversa, parecia quase impossível que Polanski pudesse desassociá-la de sua carreira. Mas, como todos sabemos, ele conseguiu, e a mais nova prova disso é a comédia de humor negro O Deus da Carnificina (Carnage).

O Deus da Carnificina
por Matusael Ramos

Em mais de um século de existência, o Cinema – bem como a Literatura, o Teatro e outras formas de arte a ele intimamente ligadas – produziu tantos e tão diferentes filmes que em algum momento, invariavelmente, as boas ideias começariam a minguar. A despeito, claro, de poucas e boas exceções (normalmente fruto da produção independente ou do circuito internacional), a indústria cinematográfica, especialmente nesse início de século, abusou do investimento em remakes, reboots e sequências. É, pois, em meio a essa “crise de originalidade” generalizada, que alguns filmes – seja pelo roteiro em si, seja pelo modo como ele é adaptado – surgem como uma luz no fim do túnel. É o caso, por exemplo, da comédia Carnage, mais nova realização do diretor Roman Polanski.

No filme, dois casais se reúnem para discutir a briga dos filhos em um parque, cujo resultado maior e imediato é a perda de dois dentes incisivos por parte de uma das crianças (ou sua desfiguração, como a mãe prefere chamar). Inicialmente pautada em regras de civilidade e diplomacia, a reunião acaba por se transformar no “pior dia de suas vidas” quando seu verdadeiro objetivo é deixado de lado e entra em cena uma dantesca (e deliciosa) discussão sobre seus relacionamentos, que coloca em evidência seus piores defeitos e inseguranças.

Não há que se falar em Carnage sem antes traçar um esboço de seus quatro (e únicos) personagens, que, detentores de ótimos diálogos, são o alicerce de toda a trama. De um lado estão Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly). Ela é uma dona de casa de princípios arraigados, engajada com a causa na África e amante de antropologia. Ele, um pacato e gentil vendedor de artigos domésticos. É de Penélope (a parte mais perturbada com o ocorrido) a decisão de convocar a reunião. Do outro, estão Nancy (Kate Winslet), acionista do mercado de valores e talvez a pessoa mais disposta a resolver o impasse e Alan (Christoph Waltz), o esposo, a figura do típico advogado inescrupuloso, alheio à situação e veia irônica do longa.

Esse é pelo menos o perfil inicial dos personagens – aquele que, já antes da segunda metade do filme, cai por terra. Em Carnage os personagens são evolucionários e esse, é claro, é um dos elementos responsáveis por manter a atenção do espectador diante de um argumento a princípio limitado. O catalisador dessa transformação, no caso, vem na forma de um Whisky escocês servido com muita generosidade.

A bem da verdade, Carnage é a adaptação para o cinema da aclamada peça O Deus da Carnificina, da autora francesa Yasmina Reza. Nesse ponto, o discurso inicial sobre a “originalidade” do roteiro (coescrito por Polanski, que pouca coisa acrescentou, além das cenas de abertura e de encerramento), recai sobre o seu ineditismo no cenário cinematográfico e não necessariamente sobre a sua origem. Ora, pois, o Cinema não é um Teatro filmado – ainda que nesse caso alguns aspectos sejam preservados, como a teatralidade das (ótimas) atuações.

Carnage é contado em tempo real e tem, como único ambiente, o apartamento do casal Penélope/Michael. Num primeiro momento condicionantes, tais elementos são muito bem explorados por Polanski, que a seu favor tem o inato voyeurismo do ser humano e suas empatias. Talvez seja por essa razão que ao final do longa fiquemos com aquela (boa) sensação de que “o quê é bom dura pouco”.

Sem grande reconhecimento por parte da crítica, tampouco das premiações – que nem ao menos se atentaram para um dos melhores elencos do último ano (que, diga-se de passagem, soma 4 Oscars) – o novo filme de Polanski, ainda que com o peso de sua assinatura, parece mesmo fadado a se tornar uma daquelas preciosidades guardadas na estante dos grandes diretores, como as Almas Gêmeas de Peter Jackson ou o Império do Sol de Spielberg. É triste, mas o cinema não admite discrição.

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Carnage (EUA, 2011). Comédia. Imagem Filmes.
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly

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