CRÍTICA: O Discurso do Rei

Biografia
// 10/02/2011

Com doze indicações ao Oscar, O Discurso do Rei se tornou de imediato o longa com mais chances de tirar a estatueta da mão do favorito, A Rede Social (a julgar por todas as outras premiações). Com um elenco afiado e uma trama que funciona muito bem ao aproveitar um momento histórico para diluir uma superação pessoal, o filme pelo menos tem tudo o que é necessário para “roubar” o prêmio de seu adversário.

O Discurso do Rei
por Arthur Melo

Século XXI. Estamos em uma etapa de nossa História na qual somos fortemente influenciados pelas mídias de massa. Direta ou indiretamente, essas ferramentas ditam costumes, difundem posicionamentos, fermentam ou derrubam ideias e estreitam relações globais a passos largos. Hoje, tais veículos possuem uma força ainda maior do que no princípio de sua evolução (que ainda não terminou), quando, e justamente porque, a resposta do outro lado do canal estava longe de manter a interatividade e velocidade atuais. É a partir deste pano de fundo que O Discurso do Rei traz à tona as inseguranças de um homem jamais refeito de coragem, mas com fibra suficiente para dar voz à sua própria autoridade quando solicitada.

No filme, Colin Firth é o Duque de York (filho do Rei George V, vivido por Michael Gambom), membro da família real inglesa que se vê obrigado a assumir a contragosto o Trono após a abdicação de Eduardo VIII (Guy Pearce), seu irmão mais velho, que por sua vez assumira o posto com o falecimento de George V. Entretanto, o agora Rei George VI (pai da atual Rainha Elizabeth II) vê seu poder de governo limitado a uma deficiência linguística que o incapacitava de incorporar o papel literal de ser a “voz de seu próprio povo”: a gagueira. Está, aí, uma pedra que jaz em seu sapato desde a infância, deixando-o sempre a mercê de zombarias do irmão e da incompreensão do pai. Desesperada com o sofrimento do marido, a Duquesa Elizabeth (ou Rainha Elizabeth, como vem a se tornar), encontra nos métodos nada ortodoxos do especialista Lionel Logue (Geoffrey Rush) um possível caminho para a cura.

O percurso da trama não é complicado. Ao contrário. Sua simplicidade proporciona uma sucessão de fatos que se restringe apenas ao necessário, uma opção inteligente do roteiro que acaba por dar mais visibilidade à luta pessoal de George VI. Surge daí uma abordagem enxuta que enquanto cria as interações entre George e Lionel Logue durante o tratamento, constrói uma figura cativante do Rei, fortalecida ainda pela bela relação com sua esposa e filhas (explorada em dose certa) que depõe a favor de um interesse cada vez maior do espectador por sua pessoa, tornando-o torcedor pelo sucesso de suas realizações – uma certeira representação do cinema britânico de empresa.

Obviamente, parte do êxito está no trio que domina a execução do longa. Firth é, indubitavelmente, gago. Sua versão do problema de locução acerta os pontos com a técnica vocal e a dramaticidade, sem pender jamais para o cômico – o que seria um erro grosseiro. Helena Bonhan Carter, como Elizabeth, convence por uma serenidade e feições sutis que, quando contrastada com seus mais recentes papéis, exibe a grande artista multifacetada que pode ser ao nunca transferir um vício entre seus personagens, algo raro de se ver. Já Geoffrey Rush resgata todo o seu potencial e energia em cena ao canalizar tantos números e expressões das mais diversas formas em um único personagem, sem destoar e sem vacilar.

Em questões técnicas, O Discurso do Rei é premiado pelo terreno seguro. A direção de arte ganha pontos valiosos mais com a recriação de ambientes icônicos da história do Rei George do que com a sua própria inventividade, que é vista em poucas ocasiões. O figurino, aliás, segue a tendência e salienta o porquê de produções que remetem a épocas passadas sempre se fazerem presentes nestas categorias nas maiores premiações. Contudo, a atenção recai sobre a trilha sonora doce e suave de Alexandre Desplat, justificando sua presença ininterrupta no Oscar desde 2007, e a fotografia que sabe propor alguns deslumbres genialmente arquitetados por mãos habilidosas de Danny Cohen, como a sequência de diálogos em meio a uma praça forrada de neblina e iluminada por um Sol verossímil que nunca se vê.

O valor de O Discurso do Rei, e aqui a referência é àquilo que vai além de uma obra cinematográfica, está nos conceitos que exibe como palco para encenação da História. Se hoje vivemos em um momento no qual uma pessoa de caráter questionável pode se transformar em um símbolo de sua geração graças a uma ideia que expõe as nuances da individualidade humana – ao passo que põe em cheque a constituição da ética e da moral do maior espaço coletivo global e, ainda, é vangloriado por isso –, devolver ao homem o exemplo de alguém que precisou vencer uma batalha pessoal para ganhar de suas próprias mãos o poder de usar a maior ferramenta de persuasão humana (no caso, o rádio) para fazer História – das boas e justas – e se tornar sinônimo de força e resistência para aqueles que de fato precisavam, é o mesmo que descobrir no passado a cura para um mundo que ainda gagueja quando questionado sobre o que lhe resta de idôneo para legar às gerações futuras.

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The King’s Speech (Reino Unido, 2010). Drama. Paris Filmes.
Direção: Tom Hooper
Elenco: Helena Bonham Carter, Colin Firth, Geoffrey Rush

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Biografia, Críticas, Drama