CRÍTICA | O Doador de Memórias

Críticas
// 17/09/2014
Mais recente entrada da onda de distopias, aventuras, sagas e demais adaptações de hits literários voltados para o público jovem, O Doador de Memórias apresenta-se como um esforço legítimo, mas problemático o suficiente para se admitir que as fontes deste nicho talvez estejam secando.

O Doador de Memórias
por Eduardo Monteiro

A fotografia é uma das principais ferramentas narrativas utilizadas pelo diretor veterano Phillip Noyce na adaptação cinematográfica (que levou quase duas décadas para sair do papel) do romance infanto-juvenil de Lois Lowry: ao longo de todo o primeiro ato, o esquema preto-e-branco (ousado, para uma produção desta natureza) reflete a drenagem da individualidade promovida na comunidade supostamente utópica apresentada pelo filme, cujos habitantes são condicionados a rígidas regras de conduta em prol de uma convivência pacífica e sadia. Graças a uma inquietação aparentemente nata em relação àquela organização social, a mesmice passa a ser vista com outros olhos pelo jovem Jonas (Brenton Thwaites) – quando, então, o personagem e o público gradativamente começam a enxergar aquele universo em cores (não sei se e como o livro trabalha essa questão), embora estas continuem refletindo a monotonia da comunidade através de uma paleta fria e triste.

Visto como peculiar pelo Conselho de Anciões, o rapaz é designado para o cargo de Receptor de Memórias – isto é, indivíduo que detém, com exclusividade naquele contexto, conhecimentos anteriores à instauração da mesmice e, com isso, torna-se apto a atuar como conselheiro e ajudar a manter o regime nos trilhos. Assim, Jonas é apresentado e passa a trabalhar com o Doador de Memórias (Jeff Bridges), único indivíduo daquele universo que parece exibir uma cota mínima de sobriedade, acompanhada de uma inequívoca e reveladora angústia. À medida em que o protagonista tem acesso às recordações do Doador e descobre a pluralidade do mundo e da natureza humana (quando, finalmente, a fotografia exibe cores vivas e vibrantes), sua inquietação atinge patamares inesperados – especialmente quando o jovem percebe que indivíduos indesejados, como idosos, deficientes e enfermos, continuam sendo vitimados pelo sistema.

É, naturalmente, uma premissa bastante crítica, cuja pertinência torna-se inegável quando olhamos ao nosso redor e nos deparamos constantemente tanto com o empenho generalizado de moldar os indivíduos com base em padrões tidos como corretos ou preferíveis por uma parcela da população quanto com a incapacidade da humanidade de combater e reverter conflitos, intolerâncias, disparidades e violência de forma incisiva. Infelizmente, o potencial da trama é fatalmente diluído pela introdução do conceito de Fronteira da Memória: ao admitir que o condicionamento daquela população está vinculado a uma barreira física, que isola as memórias antigas de uma maneira mágica e fantasiosa, a autora diminui a importância do óbvio processo de alienação a que aquela população fora submetida. E a própria narrativa se encarrega de apresentar os pilares que sustentam esse condicionamento: o comportamento dos habitantes é fruto de uma criação calculada, de um regime de conduta imposto e bem delimitado, do distanciamento de toda e qualquer informação que possa despertar anseios minimamente fervorosos e de drogas que, injetadas diariamente, reprimem boa parte das emoções naturais do ser humano; a existência de um campo de força que mantém esta ordem é desnecessária e, em última instância, não faz sentido.

Além disso, a mesmice é uma característica que, infelizmente, o projeto em si também compartilha: talvez pela demora para ganhar as telonas, O Doador de Memórias chega aos cinemas com um pequeno atraso e, involuntariamente, desperta no público recordações de produções bastante semelhantes, desde o recentíssimo Divergente até a ficção-científica A Ilha. Não que o filme não possua seus méritos – e o elenco é certamente um dos principais. Além da especialíssima presença de Meryl Streep, competente como a misteriosa e ameaçadora líder do anciões, o filme conta com uma atuação bastante agregadora de Jeff Bridges, que injeta peso, prostração e algum humor ao papel que o próprio ator (que também atua como produtor) considerava como ideal para seu pai, Lloyd Bridges. E enquanto a jovem Odeya Rush, uma mistura interessante de Mila Kunis com Nicola Peltz, surge como uma presença suficientemente marcante no papel da jovem Fiona, o promissor e simpático Brenton Thwaites (que já pôde ser visto este ano em Malévola e no terror O Espelho) aparenta segurança e possui carisma suficiente para carregar a narrativa nas costas, ao passo que a atriz e cantora Taylor Swift, fazendo uma pequena ponta, serve como mero imã para atrair mais jovens para as salas de cinema.

Com efeitos visuais satisfatórios e um design de produção competente, que apresenta a comunidade como uma ilhota asséptica e cravada de casas moduladas, O Doador de Memórias vale atenção por convidar a juventude a refletir sobre higienismo social, existência humana e pluralidade sem subestimar deliberadamente a inteligência de seu público – pelo menos até pouco antes de seu frustrante desfecho.
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