CRÍTICA | O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

Ação
// 30/04/2014

Livre da tarefa de recontar mais uma vez a origem do herói aracnídeo de forma que não parecesse redundante frente à trilogia encerrada menos de uma década antes, o diretor Marc Webb pode apresentar sua visão do Amigão da Vizinhança de forma mais pura e desenvolta. E é exatamente isso que o público encontra no segundo capítulo da nova saga, ainda que o resultado final sofra pelo excesso de elementos da trama.

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro
Por Gabriel Costa

Se é possível considerar o primeiro X-Men, de 2000, como o marco zero de uma nova era de adaptações maduras dos quadrinhos para o cinema, a trilogia Batman de Christopher Nolan como ícone máximo (até o momento) de credibilidade para o gênero e a enxurrada de filmes de personagens da Marvel como indicadores de receptivdade e apetite do público, o novo longa do adorado cabeça de teia chega à tela grande em um momento curioso que de certa forma o aproxima da linguagem dos gibis, para o bem e para o mal. A encarnação do personagem na pele de Andrew Garfield já está bem estabelecida, e agora o negócio é levar a trama adiante dentro de um universo próprio em expansão, assim como acontece no contexto dos filmes que orbitam o eixo Vingadores na Marvel Studios e a rival DC – na verdade a chefona Warner – busca construir com as novas abordagens de Superman, Mulher-Maravilha, o próprio Cavaleiro das Trevas e quem mais venha a integrar a aguardada Liga da Justiça cinematográfica.

Aqui, Peter Parker não é mais um vigilante em começo de carreira aprendendo a usar seus poderes. Já dotado de alguma experiência, o jovem herói está perfeitamente confortável no uniforme de Homem-Aranha e até mesmo se dá ao luxo de priorizar o diálogo como forma de solucionar problemas com malfeitores e vilões – uma abordagem que evidentemente não obtém resultados positivos com muita frequência, mas ainda assim traz algum frescor a um gênero conhecido por personagens que esmurram primeiro e fazem perguntas depois. O Aranha, em sua melhor caracterização visual no cinema, está em completo modo Amigão da Vizinhança, o que conquista a admiração de boa parte da população de Nova York – e de figuras como Max Dillon (Jamie Foxx), um solitário empregado da OsCorp que o aracnídeo resgata dos efeitos colaterais de uma perseguição ao enlouquecido criminoso Aleksei Sytsevich (Paul Giamatti, em participação MUITO menor do que o esperado).

Essa confiança também torna mais coerente a personalidade quase extrovertida do Parker de Garfield, que causou algum estranhamento por parte dos fãs no reboot capitaneado por Webb dois anos atrás. Igualmente estável, a princípio, é a relação do protagonista com a namorada Gwen Stacy (Emma Stone), embora Peter seja secretamente atormentado pela promessa que fez ao falecido pai da moça, o capitão George Stacy (Denis Leary), de que a manteria longe do perigo constante em sua vida, a qualquer custo. Evidentemente, essa tarefa não será nada fácil, especialmente após Dillon sofrer um daqueles acidentes que no mundo dos quadrinhos tornam o sujeito quase onipotente – e louco –, em vez de matá-lo, e o amigo de infância de Peter, Harry Osborn (Dane DeHaan, de Through The Never, o “filme do Metallica”) tornar-se obcecado com o sangue do Homem-Aranha, em teoria a única coisa que pode salvá-lo da doença degenerativa hereditária que representou o fim de seu pai Norman.

Garfield e Stone, em ótimas atuações, funcionam como âncoras da trama em meio às constantes mudanças de tom e idas e vindas do desenvolvimento dos personagens e das relações entre eles. Foxx, como antagonista principal – o único agraciado com uma menção no quilométrico título em português – acaba se destacando mais como o desajeitado Dillon do que na forma do exageradamente poderoso Electro, que traz à mente o Dr Manhattan de Watchmen, e não apenas pela pele azul. DeHaan, por sua vez, serve como conexão à subtrama do passado dos pais de Peter e sua ligação com a OsCorp, mas parece algo subaproveitado, de forma mais ou menos semelhante à participação do Harry Osborn de James Franco no terceiro filme da trilogia de Sam Raimi. Vale ressaltar que, entre os personagens de “apoio” do Aranha, J. Jonah Jameson permanece criminosamente ausente, enquanto a Tia May de Sally Field proporciona momentos alternadamente divertidos e dramáticos em suas interações com Peter.

A tendência de contar uma história que sempre está caminhando rumo a novos desenvolvimentos e alargamento do escopo, e não a uma conclusão/encerramento – e que pode ou não estar relacionada ao terreno que histórias serializadas como Breaking BadGame Of Thrones ou True Detective têm conquistado em relação ao cinema -, no caso de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, levou à construção de um filme de roteiro episódico, que não tem tanto início, meio e fim quanto tem pelo menos uma dúzia de pequenos segmentos que pegam a saga de onde ela parou no longa anterior, de 2012, e a transportam passo a passo ao ponto em que se conectarão não apenas à próxima aventura do Homem-Aranha, mas também os iminentes filmes de seus antagonistas Sexteto Sinistro e Venom.

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The Amazing Spider-man 2 (EUA, 2014) Aventura/Ação. Sony Pictures.
Direção: Marc Webb
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Dane DeHaan, Sally Field.

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Ação, Críticas, HQ's