CRÍTICA: O Espião que Sabia Demais

Críticas
// 12/01/2012

O desenvolvimento peculiar do enredo complexo e um punhado de clichês podem ser obstáculos à apreciação de O Espião Que Sabia Demais. Com um pouco de paciência, no entanto, o filme se revela um interessante conto sobre lealdade e traição no sempre fascinante mundo da espionagem.

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O Espião Que Sabia Demais
Por Gabriel Costa 

Baseado no livro de mesmo nome do autor inglês David Cornwell – que realmente trabalhou para o serviço de inteligência britânico e escreve sob o pseudônimo John Le Carré – e na popular série do final dos anos 70 com o eterno Obi-Wan Kenobi, Alec Guiness no papel principal, O Espião Que Sabia Demais tem uma trama densa que exige atenção constante do público. O fluxo intenso de novos nomes de personagens e organizações a praticamente cada cena do filme dirigido por Tomas Alfredson (de Deixe Ela Entrar), com a dificuldade adicional da narrativa não linear, podem acabar provocando o desinteresse de quem está em busca de uma opção de entretenimento para simplesmente relaxar. Mas o desafio de acompanhar a investigação de George Smiley (interpretado por Gary Oldman) tem lá suas recompensas.

A história tem início com uma operação do serviço secreto britânico em Budapeste, na Hungria, que termina com resultados desastrosos, especialmente para o agente Jim Prideaux (Mark Strong). Como consequência, o líder do MI-6 – o serviço secreto de inteligência do Reino Unido –, conhecido apenas como Control (papel de John Hurt), bem como Smiley, seu “braço direito”, são afastados de suas posições. Após a morte do já idoso Control, o protagonista de Oldman é trazido de volta à ativa para investigar a denúncia de que haveria um agente soviético infiltrado no alto escalão do órgão estratégico.

Os principais suspeitos atendem pelos codinomes Tinker (Percy Alleline, interpretado por Toby Jones), Tailor (Colin Firth, no papel de Bill Haydon), Soldier (Roy Bland, na interpretação de Ciarán Hinds), Poorman (Toby Esterhase, por David Dencik) e Beggarman (o próprio Smiley). As interações entre os diversos personagens são como jogos de pôquer. O diretor não hesita em criar uma dúvida contínua no espectador sobre se o que está sendo dito a Smiley é verdade ou não e se, afinal, algum dos personagens é confiável. E, é claro, a frase “as coisas não são sempre o que parecem” é dita em pelo menos um momento.

Oldman não impressiona, mas apenas porque suas performances já nos habituaram a praticamente contar com isso. Smiley é quase bidimensional, sutil ao ponto da aparente passividade, e é justamente o que o torna ameaçador. Não faltam demonstrações da mente afiada trabalhando por trás do semblante muitas vezes inexpressivo. Enquanto sobra empenho individual e coletivo por parte do elenco, contudo, os flashbacks repentinos não contribuem em nada com a compreensão de um enredo por si só um tanto impenetrável.

Embora o filme não deixe de fornecer constantemente pequenas pistas aos que estejam empenhados em decifrar o quebra-cabeça depositado diante do fleumático Smiley, a apresentação cronológica é impiedosamente confusa, e acaba privilegiando estilo em detrimento de substância. Longe da atmosfera fantástica e grandiosa do mundo da espionagem mostrado em obras mais fantasiosas como as séries 007 e Missão: Impossível, a adaptação de Alfredson enfatiza com bela fotografia a realidade seca e impiedosa da Guerra Fria, e apresenta batalhas travadas por meio de palavras em lugar de trocas de tiros. A grande falha do filme fica evidente quando esses momentos parecem ser apreciáveis apenas como exercícios de diálogo que não deixam claro seu propósito.

O Espião Que Sabia Demais é, sim, uma obra indicada para fãs de obras do gênero explicitado no título, mas apenas aqueles que não exigem ação hollywoodiana constante – ou mesmo frequente. Ao público em geral, o filme oferece atuações eficientes, tensão sutil mas constante, e uma quantidade considerável de questões a serem debatidas durante o lanche pós-sessão.

 

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Tinker Tailor Soldier Spy (França/Reino Unido/Alemanha, 2011) Espionagem/Thriller. Working Title Films/StudioCanal
Direção: Tomas Alfredson
Elenco: Gary Oldman, Colin Firth, John Hurt, Toby Jones
Trailer 

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Categorias
Críticas, Drama, Thriller