CRÍTICA: O Garoto de Liverpool

Biografia
// 02/12/2010

Não é que a vida de John Lennon antes de se tornar um Beatle seja desinteressante. O modo como ela foi contada é que é. Ou, ao menos, se preocupou com fatos nada relevantes para o que veio a ser sua carreira depois. Isso, junto de atuações fracas, tira toda a harmonia que o Garoto de Liverpool poderia ter.

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O Garoto de Liverpool
por Gabriel Giraud

É impossível falar de John Lennon sem antes pensar nas imagens que temos dele no imaginário coletivo. Astro, pacifista, intelectual… mas pensá-lo como adolescente rebelde e relativamente vazio de ideias e personalidade é surpreendente.

Um filme com preensões biográficas sempre é uma empreitada bastante arriscada, pois há muitas vontades a serem satisfeitas: além das vontades da equipe e do público regular, há as da família e dos fãs. Dessas vontades primárias – as da produção e de toda uma equipe que pensa numa história a ser contada – surgem apelos a grandes investimentos. Isto ocorre principalmente se o objeto cinematográfico é a vida de um ícone como John Lennon – que também é um ícone comercial.

No entanto, toda a bela produção, toda a fotografia (muito bem trabalhada e explorada), todo o som, toda a direção de arte e toda a pesquisa de O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy, de Sam Taylor-Wood) não serão suficientes para agradar nem às vontades do público fetichista por Lennon, nem às da audiência pacata. O filme fica aquém.

Já no recorte da vida do astro, tem-se um argumento inconsistente e que, no fim do filme, parece irrelevante à vida de John Lennon no aspecto da formação de sua personalidade. A história é a da vida do roqueiro enquanto um adolescente habitante de Liverpool, onde ele resolve as problemáticas tramas que envolvem sua família. Ao mesmo tempo, ele descobre a música e começa a trilhar sua carreira.

O personagem de Lennon (Aaron Johnson) não parece ser um personagem – nem real, nem ficcional. As reações ante os acontecimentos são extremamente artificiais entre si, especialmente no que concerne as transições entre o bom-moço e o bad boy. Vemos na tela um ator tentando assumir essas personas. Mas vemos apenas “cara de bom-moço”, “cara de bad boy”, “cara de bom-moço” de novo. Um trabalho de atuação extremamente raso.

Na verdade, até a atriz que interpreta Julia, a mãe de John (Anne-Marie Duff), fica aquém na atuação, exagerada em muitos momentos. Além disso, todos ficam sob a sombra de Kristin Scott Thomas, que interpreta a tia Mimi, quem criou John. Talvez o trabalho estético dos personagens tenha sido privilegiado demais, de modo que os atores não se aprofundassem a atuação. Há algumas cenas que parecem ter sido retiradas de um dramalhão mexicano. A direção, assim, perde muitos pontos.

Aliás, há falas demais, imagens demais, personagens demais (para esse argumento). Parece que o filme se estende ao máximo nos 98 minutos de projeção. Há quem irá se satisfazer com um punhado de canções, ou com a participação de Morrissey. Mas quem sairá em estado de elevação de espírito completa não será nem o cinéfilo, muito menos o fã dos Beatles. Será o adorador de inglês from Britain.

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Nowhere Boy (Reino Unido, Canadá, 2009). Drama. Biografia. Imagem Filmes
Direção: Sam Taylor Wood
Elenco: Aaron Johnson, Thomas Sangster, Kristin Scott Thomas

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Biografia, Críticas