CRÍTICA | O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

Aventura
// 11/12/2014
Rodeado pelas expectativas de sempre, último capítulo da trilogia O Hobbit finalmente chega aos cinemas e reacende uma velha discussão: a divisão em três partes foi realmente necessária, ou até mesmo uma boa ideia?

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
por Eduardo Monteiro

Quase três anos se passaram desde o anúncio do desmembramento de O Hobbit em uma trilogia cinematográfica e a decisão ainda me causa certo espanto. Note: não sou particularmente contra a divisão da adaptação da obra de Tolkien em mais de uma parte, pois acredito que a expectativa criada por uma interrupção pode favorecer a experiência do público, evitando que a jornada pareça mais corrida e menos épica do que o pretendido. No entanto, esta terceira e última parte da franquia comandada pelo neozelandês Peter Jackson é a evidência final – embora não tão contundente, felizmente – de que 474 minutos (ou quase 8 horas) de narrativa e três idas ao cinema são um tremendo exagero.

Dando continuidade ao mais eficiente capítulo da trilogia, A Batalha dos Cinco Exércitos é iniciado com os últimos momentos de vida de Smaug, que acaba sendo derrotado pelo bravo Bard (Luke Evans) após incendiar e devastar a Cidade do Lago. Porém, quando a notícia da morte do dragão se espalha pelos quatro cantos da Terra Média, exércitos de homens, elfos, anões e orcs estabelecem parcerias variadas e convergem para a Montanha Solitária para proteger, reivindicar ou saquear o vasto e agora desprotegido tesouro ali depositado – o que, claro, afeta os ânimos de todas aquelas criaturas e as coloca em iminente conflito.
Cerca de vinte minutos mais curto que os filmes anteriores, A Batalha dos Cinco Exércitos é notoriamente menos inchado que A Desolação de Smaug e, principalmente, Uma Jornada Inesperada: levando às telas um trecho relativamente pequeno do livro, o filme foca na rearticulação do cenário após a morte de Smaug e no tal confronto que eventualmente eclode, o que reduz o espaço e o tempo em que a ação acontece (a maior parte dos eventos se sucede nas redondezas da Cidade do Lago e, principalmente, da Montanha Solitária) e mantém os personagens envolvidos em um mesmo assunto, o que define um direcionamento mais claro para a narrativa. Assim, é frustrante que o roteiro ainda sofra com algum tipo de dispersão, como as cenas inseridas unicamente para resgatar personagens da trilogia O Senhor dos Anéis, a descartável subtrama envolvendo o covarde Alfrid (que acaba se tornando um alívio cômico ruim e fora do tom) ou o desfecho do triângulo amoroso envolvendo os elfos Legolas (Orlando Bloom) e Tauriel (Evangeline Lilly) e o anão Kili (Aidan Turner), que chega até mesmo a apelar para reflexões bregas e desconexas sobre o amor (que só perdem para aquela cafonice do recente Interestelar).
Além disso, o filme também é prejudicado pela enorme atenção que cede a personagens secundários, obliterando pontualmente aqueles tidos como centrais: enquanto Thorin (Richard Armitage) assume praticamente o posto de protagonista da trama (com Legolas logo atrás), o idolatrado mago Gandalf (Ian McKellen) pouco contribui para a narrativa e até mesmo o personagem que dá título à franquia permanece alheio em boa parte da projeção (o que é uma pena, já que Martin Freeman é simplesmente excelente como Bilbo), de modo que quando o hobbit finalmente retorna ao Condado, a injeção do sentimento de missão cumprida dada pelo diretor parece oca e forçada.
Ainda nesse sentido, o encerramento da jornada também peca por apresentar confrontos menos empolgantes que o pretendido: o clímax, em particular, conta com um desfecho abrupto para a batalha de grande escala e volta as atenções para o embate individual entre seus líderes, que, embora interessante e bem coreografado, soa estranhamente ordinário (considerando que deve cumprir a grandiosa tarefa de amarrar uma trilogia desse porte) e ainda comete o terrível pecado de trazer certo personagem acreditando ingenuamente que seu adversário está derrotado sem qualquer evidência que comprove o fato. Felizmente, o filme confere algum (ainda que não muito) senso de urgência e perigo ao permitir que alguns dos mocinhos sofram consequências fatais por suas decisões e atitudes, embora o recurso acabe levemente desgastado pela reutilização em um curto período de tempo, diminuindo o impacto e comprometendo a carga dramática.
Do ponto de vista técnico, entretanto, A Batalha dos Cinco Exércitos é tão eficaz quanto o prometido. Sem grande alarde, o efeito 3D surge eficiente em um punhado de ocasiões, como, por exemplo, o momento em que acompanhamos de perto o voo de Smaug sobre a Cidade do Lago ou um belo plano em que vemos, a certa distância e com uma ótima profundidade de campo, Thorin caminhar sobre um rio congelado às margens de uma cachoeira. (Nota: infelizmente não poderei comentar o uso da tecnologia HFR – high frame rate – porque, pelo terceiro ano consecutivo, a distribuidora optou por apresentar à imprensa a versão com os convencionais 24 quadros por segundo). E enquanto a trilha de Howard Shore acerta mais uma vez em cheio ao remeter com nostalgia ao senso de aventura ou à influência do Um Anel com acordes de temas oriundos de seu próprio trabalho para a trilogia O Senhor dos Anéis, as criaturas digitais merecem os aplausos de sempre, embora eu ainda esteja moderadamente perplexo com a decisão de trazer o anão Dain (Billy Connolly) como um perceptível boneco de CGI (ora, todos os demais anões são vividos por atores de carne e osso; qual terá sido a dificuldade nesse caso?). Por fim, o trabalho de som que transforma um Thorin enfeitiçado pelo tesouro em uma criatura sombria e ameaçadora ou que faz a voz de Smaug, emprestada pelo excelente Benedict Cumberbatch, ecoar imponente pela sala de cinema é digno de nota e atenção.
Estabelecendo uma série de pequenas conexões com os eventos que se desenrolariam décadas mais tarde naquele universo, já apresentados ao público no início dos anos 2000 pelo próprio Peter Jackson, O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos é um desfecho apenas eficiente para um projeto que, possivelmente, teria sido amplamente beneficiado por uma abordagem mais enxuta e menos megalomaníaca.
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The Hobbit: The Battle of The Five Armies (EUA, Nova Zelândia, 2014). Aventura. Warner Bros.
Direção: Peter Jackson
ElencoElijah Wood, Cate Blanchett, Martin Freeman, Ian McKellen
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Aventura, Críticas, Fantasia