CRÍTICA | O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Aventura
// 13/12/2012

Um dos lançamentos mais esperados do ano, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada estreia neste fim de semana. Em alguns cinemas, será exibido com a técnica High Frame Rate (48 fps) e/ou em 3D. Os que já viram a técnica no cinema dizem que ela aumenta o realismo da imagem e pode revolucionar o Cinema. Infelizmente, a exibição do filme realizada em São Paulo para a imprensa não utilizou a tal técnica, o que nos impede de tecer qualquer comentário sobre. Apesar disso, um filme é um filme, e este possui outros detalhes que merecem comentários.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
por Henrique Marino 

 Adaptado do livro O Hobbit, Uma Jornada Inesperada é a primeira parte de uma trilogia cinematográfica. A divisão em três filmes, a priori, é explicada pela lógica do mercado. Comparativamente, O Senhor dos Anéis possui um texto várias vezes maior, mas foi muito condensado em três filmes. O sucesso, então, desta trilogia é que autoriza o aumento exacerbado daquela.

Durante 2 horas e 45 minutos é perceptível a falta de pressa ao contar o que é pouco menos da metade do livro. Algumas cenas perdem o senso de proporção temporal e demoram-se sem medo de cansar o espectador. Às vezes a demora é justificada pelos detalhes que buscaram adaptar com fidelidade, o que é bastante positivo; mas, outras vezes, fica evidente que o alongamento de certas cenas serve apenas para agradar aqueles espíritos ávidos por cenas de ação megalomaníacas, com movimentos espetaculares de câmera, planos gerais bem abertos mostrando toda a exuberância dos efeitos visuais. Essa é uma mania do Cinema atual que o próprio Peter Jackson, em Senhor dos Anéis, ajudou a instituir. Em O Hobbit, no entanto, embora sejam bem realizadas, essas cenas possuem um grau de exagero que não condiz nem com a ficção da Terra-Média.

Outro exagero é o caricato personagem de Radagast que, guiado por um trenó de coelhos, faz o tipo bobalhão cheio de caras e caretas. Também entram na categoria de exageros as dispensáveis autorreferências plásticas. É feio ver um diretor se repetir, mesmo que exista conexão de elementos entre os filmes. A similaridade dá uma sensação muito falsa, afinal, qual a chance de Frodo e Bilbo descobrirem o poder do anel da mesma maneira acidental?

O que também contribui para aumentar o tempo do filme é o roteiro cheio de digressões. Por exemplo, a digressão envolvendo Radagast é inventada e auxilia uma subtrama, pouco aparente no livro, que provavelmente receberá mais atenção nos filmes. Trata-se do Necromante, um ser maligno que vive na Terra-Média. Ele é citado poucas vezes no livro, sendo que, no final, apenas mencionam um combate contra ele. Necromante é Sauron, o grande inimigo em O Senhor dos Anéis, e não seria surpresa se esse combate fosse filmado.

Além disso, o roteiro é bastante divertido. Mais do que enfatizar a luta entre o bem e o mal, Uma Jornada Inesperada parece focar na aventura e na ação, com cenas engraçadas e intensas. Por isso, diferente de O Senhor dos Anéis, tanto o livro como o filme são mais infantis e mais leves. Contudo, para não abandonar inteiramente o maniqueísmo e para que o enredo não fosse composto apenas por conflitos episódicos, os roteiristas inseriram um personagem que faz a vez do vilão enquanto Smaug (o dragão que os anões querem matar e, portanto, o verdadeiro vilão de O Hobbit) não é enfrentado. Esse personagem é Azog, um orc líder, assassino de Thror, avô de Thorin. Thorin é o líder dos anões e Azog, possuindo uma rivalidade com ele, está a sua caça. Isso, inclusive, realça as qualidades de Thorin e figura-o como um verdadeiro herói, o que não é tão enfático na obra literária. Mesmo Bilbo, o hobbit, tem seu momento de herói adiantado contra Azog.

Bilbo é um dos personagens mais bem interpretados no filme. Martin Freeman faz um trabalho excelente. O personagem atrapalhado, mas esperto, parece feito para o ator. Os momentos mais divertidos, sem dúvida, são graças à atuação de Freeman que, embora encarne o personagem, não parece deixar de lado seu modo pessoal de interpretação. Quando Bilbo encontra Gollum (Andy Serkis) temos o momento de melhores atuações no longa-metragem. Andy consegue fazer um Gollum ainda mais divertido e perigoso, embora mais caricato.

Talvez a sutil mudança na interpretação de Andy Serkis não seja mérito exclusivo do próprio ator, mas da equipe de efeitos visuais. Afinal, nos últimos dez anos eles evoluíram. A evolução é evidente não só na figura de Gollum, que apresenta elasticidade e naturalidade muito maiores, mas também na construção de cenários, ainda mais palpáveis, e também na figura do Grão-Orc (Great Goblin) e dos trolls, outras grandes construções da equipe.

Visualmente o filme é magnífico. A grandiloquência de Peter Jackson parece ainda maior. Várias tomadas abertas ressaltam a qualidade das imagens; exemplos são as minas da Montanha Solitária, apresentadas logo no início do filme, e o voo das águias, perto do final. Os movimentos contínuos da câmera dão sensação de inquietação a quase todo momento. Quando a câmera se aquieta e se fixa, temos momentos de tranquilidade e repouso. A fotografia, no Condado, parece um pouco ofuscada, dando uma sensação onírica, mas logo que a aventura começa, os detalhes e a nitidez aumentam, e os tons quentes de conforto (amarelos e laranjas) dão lugar aos tons frios do perigo (azuis-escuros). Neste sentido, o filme continua a mesma linha de O Senhor dos Anéis, inclusive o diretor de fotografia é o mesmo.

Outro ponto sem alterações é a trilha sonora. Toda ela é reaproveitada de O Senhor dos Anéis. Não há inovações, mas há adaptações, para que as melodias se encaixem de forma mais adequada. Faz falta uma identidade distinta, uma trilha sonora que se sobressaia e que dê música à nova trilogia.

Longe de ser perfeito, O Hobbit tem seus problemas, tais como falta de uma edição final enxuta, falta de identidade estética e falta de senso de proporção. Mas se mantém um bom filme sendo engraçado e alucinante, possuindo um elenco bem preparado e oferecendo incríveis efeitos visuais e uma nova forma de ver cinema. Elogioso também é o modo como vincularam Uma Jornada Inesperada a O Senhor dos Anéis, indo muito além da vinculação literária. A adaptação, nesse sentido, foi perfeita. Quanto ao enredo, como um todo, apesar de perder o foco com as constantes digressões, teve uma adaptação bastante acertada para construir um bom filme de aventura. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada tem potencial para agradar fãs de Tolkien e o público em geral, embora possa cansar a ambos.

 

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The Hobbit: An Unexpected Journey (EUA, 2012). Aventura. Fantasia. Warner Bros.
Direção: Peter Jackson
Elenco: Martin Freeman, Elijah Wood, Cate Blanchett, Ian McKellen.

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Categorias
Aventura, Críticas, Fantasia