CRÍTICA: O Homem que Mudou o Jogo

Críticas
// 16/02/2012

Recebedor de seis indicações ao Oscar, O Homem que Mudou o Jogo deixa claro desde o início que é típico material vencedor de prêmios da Academia. No bom sentido. Ao tratar de sucesso, fracasso, frustração e superação – não necessariamente nesta ordem –, o filme estrelado e produzido por Brad Pitt conta uma história que mantém o fascínio mesmo ao focar um meio que atrai tão pouca atenção fora dos Estados Unidos: o baseball.

O Homem que Mudou o Jogo
Por Gabriel Costa

Não há como negar: embora seja obviamente possível encontrar apreciadores e até aficionados pelo esporte por aí, o baseball é severamente ignorado em boa parte do mundo. Mas esse fato, mesmo aliado à previsibilidade típica dos principais indicados ao Oscar, não diminui em nada os méritos do filme dirigido por Bennett Miller (de Capote) com roteiro coescrito por Aaron Sorkin, de A Rede Social.

O roteiro foi adaptado – e indicado ao Oscar na categoria – a partir do livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game de Michael Lewis, que conta a história real do time Oakland Athletics, que, apesar de um orçamento extremamente modesto e um início desastroso de temporada, bateu vários recordes no início da década ao adotar táticas baseadas em estatísticas que contrariavam as avaliações de figuras experientes do mundo do baseball.

O grande responsável pela abordagem não tradicional dos meios de comandar um time foi o gerente geral Billy Beane, em interpretação digna da indicação de Pitt. Dono de uma determinação que passa dos limites da teimosia e chega às portas da obsessão, Beane é um ex-jogador em conflito com decisões do passado que busca fugir dos moldes habituais de negócio para superar os limites financeiros que impedem o progresso de sua equipe, independentemente da resistência de praticamente todos a sua volta. O protagonista lembra uma espécie de mistura entre o Jerry Maguire de Tom Cruise e o Mark Zuckerberg de Jesse Eisenberg em A Rede Social, solta pelo menos um par de frases antológicas durante os ótimos diálogos do filme e tem ainda aquela perpétua mania que os personagens de Pitt têm de estar sempre comendo algo.

Se é Beane que dirige ao longo do árduo caminho dos Oakland A’s, no entanto, quem faz a engenharia do veículo é Peter Brand, papel interessante e divertido de Jonah Hill, o eterno “gordinho de Superbad”, que aqui prova de forma definitiva ter a capacidade de deixar esse estigma para trás, especialmente após também ter recebido uma indicação como ator coadjuvante. Um aliado perfeito para o personagem de Pitt, Peter tem inteligência acima da média, trabalha duro e é o arquiteto da teoria estatística que Beane aplica ao time. O elenco é completado por Philip Seymour Hoffman, talvez subaproveitado como o técnico Art Howe, e Robin Wright (ex-Robin Wright Penn) como a ex-mulher de Beane, agora casada com o peculiar Alán, em participação do diretor e ator Spike Jonze.

As eventuais dificuldades de compreensão inerentes ao tema relativo a um esporte estranho à nossa cultura, até mesmo pelas próprias regras do jogo, são postas em segundo plano pela direção hábil de Miller e o alto nível das atuações. Os jogos são mostrados em poucas cenas, de forma análoga pela qual Beane os estaria vivenciando, uma vez que o gerente geral não assistia aos jogos do próprio time enquanto eles aconteciam. Quando não são apresentadas ao público apenas de relance, como, por exemplo, em televisões assistidas pelos personagens, as passagens dos jogos são reveladas em belas sequências mesmo que esteticamente. A trilha sonora, por sua vez, é sutil, e abusa do silêncio para criar e aliviar momentos de tensão dentro e fora dos jogos.

É constante a reflexão sobre até que ponto uma convicção deve ser levada, o que evidencia até uma vantagem exclusiva para quem vai ver o filme sem conhecer a história do esporte, como a maioria dos brasileiros: não saber de antemão o desenrolar da trajetória histórica dos Oakland Athletics. O Homem que Mudou o Jogo traz ao espectador uma trama desenvolvida por meio de algumas das fórmulas mais clássicas de Hollywood. Trata-se de uma obra menos impressionante por conta disso?  Nem por um segundo.

——————————
Moneyball (Estados Unidos, 2011) Drama. Sony Pictures.
Direção:  Bennett Miller
Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman

Comentários via Facebook
Categorias
Críticas, Drama