CRÍTICA | O Impossível

Ação
// 20/12/2012

Na véspera do mais recente Fim do Mundo, O Impossível se mostra um excelente filme-catástrofe como Roland Emmerich jamais conseguiu imaginar em fazer.

Leia a crítica clicando em “ver completo”. Dessa vez o texto pode conter spoilers. Portanto, alerta acionado.

O Impossível
por Virgílio Souza

É recurso comum, mas não tarefa simples, realizar certo recorte particular para tratar de temas universais (ou próprios da esfera coletiva). Os dois níveis nem sempre dialogam para além de um pano de fundo comum, o que pode tornar ainda mais arriscada a tarefa de – já falando do objeto desta crítica – simbolizar a tragédia de milhares aos problemas de alguns poucos.

Engrandece o risco perceber que, no caso em questão, estão em foco, no plano geral, os desdobramentos do tsunami que, em 2004, devastou a Tailândia, e, no íntimo, o sofrimento de uma família inglesa (no relato que a inspirou, espanhola) tradicional, bem abastada, branca. Felizmente, O Impossível supera as possíveis desconfianças ao valorizar o outro, por vezes tanto quanto os Bennett, sob a perspectiva de que, em condições de desespero e desamparo, guardados certos limites, crianças e adultos, ricos e pobres, estrangeiros e nativos mais se aproximam que se distanciam.

Sob a direção segura de Juan Antonio Bayona (de O Orfanato), o longa se apresenta como um corajoso filme-desastre, valendo-se do impacto visual de seus primorosos efeitos especiais para reconstruir a catástrofe com impressionantes naturalidade e grau de realismo. Ao mesmo tempo, dá enfoque às reações das personagens de modo visceral, sem se preocupar em promover cortes quando Maria (Naomi Watts, impecável) grita, em pânico, pelo nome do filho mais velho, ou desviar a câmera quando seu tronco é violentamente atingido por dezenas de objetos em meio a um turbilhão de água.

O principal mérito de O Impossível, porém, reside em seu aspecto mais simples: a tentativa de alívio das dificuldades enfrentadas pelos membros da família frente a um desastre de impraticável prevenção ou cura imediata. Equilibrando-se com competência entre aproveitar seu potencial lacrimogênio e evitar extremá-lo, a produção introduz dinâmicas menores, particulares, que conduzem a trama rumo ao desfecho central.

Assim, faz-se presente a alternância clássica, em certa medida óbvia, de personalidades estabelecidas inicialmente – Lucas (Tom Holland), o irmão corajoso, forçado a alguma doçura e a reconhecer o próprio medo, e Thomas (Samuel Joslin), aquele afastado da inocência infantil e levado à maturidade precoce, embora momentânea, para cuidar do garoto ainda mais jovem, Simon (Oaklee Pendergast) – e constroem-se interações breves, mas significativas, entre o quinteto central de personagens e outras vítimas da tragédia, com destaque para a senhora vivida por Geraldine Chaplin e Karl, o viúvo interpretado por Sönke Möhring. Não por acaso, tais elementos são resgatados no momento derradeiro, provendo auxílio na construção de coesão da trama e fortalecendo a percepção da importância do outro, do universal, do todo, e não apenas do eu – sensação manifestada pela lembrança da criança encontrada em meio aos escombros por Lucas, contada com entusiasmo e alívio à mãe, e pela emoção de Henry (Ewan McGregor) ao ter contato com o bilhete deixado por esposa e filha de Karl antes do tsunami.

Há, ainda, espaço para uma tocante homenagem às reais vítimas da tragédia, na sequência em que o primogênito procura por parentes de outras vítimas no hospital, como se estabelecesse um “semi-obituário” (ou um obituário que é lido em voz alta na esperança parca de que alguém se manifeste vivo) – aqui, novamente, a perspectiva de um salvador anônimo, mais importante que o eu, se faz notar.

Sensível para entrelaçar os caminhos percorridos por pais e filhos, no entanto, Bayona acaba pesando excessivamente a mão quando aborda o vínculo entre Maria e Lucas em um plano quase transcendental – é o caso da sequência do terceiro ato em que reprisa o tsunami em câmera lenta como uma espécie de pesadelo compartilhado por eles, dotado de minúscula função narrativa e capaz até de prejudicar a imersão do espectador, mostrando-se falho na tentativa de conferir a ela (desnecessários) arroubos de grandiosidade. O tom visualmente rebuscado, aqui, recria o pequeno filme de terror das sequências iniciais da tragédia, mas parece deslocado por não ser acompanhado pelo entorno, que mantém crescente a sensação de conforto pós-reencontro – a ótima trilha sonora composta por Fernando Velázquez, no momento do desfecho, soa como um suspiro aliviado.

No limite, capitaneado por interpretações precisas de todo o elenco (com destaque absoluto para Watts e McGregor, que flutuam entre enorme intensidade dramática e impressionante moderação), O Impossível é uma combinação sólida de brutalidade visual e sensibilidade narrativa, que, como um tsunami, se mostra devastador e deixa rastros de seu impacto por toda a parte.

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The Impossible (EUA, 2012). Ação. Paris Filmes.
Direção: Juan Antonio Bayona
Elenco: Ewan McGregor, Naomi Watts, Geraldine Chaplin, Marta Etura.

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