CRÍTICA: O Inverno da Alma

Críticas
// 06/02/2011

No próximo dia 27 o mundo conhecerá aquele que, segundo os votantes da Academia De Artes e Ciências Cinematográficas, foi o melhor filme de 2010. O Inverno da Alma, considerada por muitos a produção menos cotada à estatueta, concorre em três outras categorias: ator coadjuvante, atriz e roteiro adaptado. Mas afinal de contas, o que esse filme orçado em apenas 2 milhões de dólares faz numa terra de gigantes?

O Inverno da Alma
por Matusael Ramos

No cinema há o que podemos chamar, por falta de uma definição mais apropriada, de um filme de personagem. Aquele filme em que o personagem principal, seja pela própria intensidade do papel ou pela identificação do público no decorrer da trama, acaba por ofuscar os demais e a confundir-se com o próprio roteiro. Esse é o caso de O Inverno da Alma, produção independente, estrelada pela competente Jennifer Lawrence, em cartaz no Brasil desde 28 de janeiro.

No filme, Jennifer interpreta Ree Dolly, uma jovem de dezessete anos que vive com a mãe e um casal de irmãos mais novos numa casa bastante simples nas gélidas montanhas do Missouri. A família vive, por assim dizer, da caridade dos vizinhos, já que a mãe sofre de problemas mentais e Ree passar boa parte do tempo cuidando dos irmãos – com louvável devoção – diga-se. A situação se complica quando a família recebe a notícia de que sua casa será tomada se o pai, um ex-presidiário foragido da justiça, não comparecer ao seu julgamento. Ree inicia então uma verdadeira odisséia pelo obscuro mundo do narcotráfico à procura do pai, despertando a ira de muitos e colocando sua própria vida em risco.

Respeitada a diversidade que a Academia tenta manter, ano a ano, entre os indicados ao Oscar de melhor filme, é possível notar que algumas produções guardam semelhanças entre si, a ponto de se dizer que, por exemplo, Juno foi o Pequena Miss Sunshine de 2006, ou que A Rede Social será o Guerra ao Terror de 2011. De acordo com essa lógica, O Inverno da Alma poderia ser comparado talvez a Preciosa, não só pelo caráter independente da produção, mas também pelo sofrimento que o destino insiste em infligir às suas heroínas. Mas enquanto nesse último a personagem principal parece tolerar tudo com uma passividade que beira o revoltante, no filme da diretora Debra Granik ela é forte e impetuosa.

E, sendo Ree uma personagem gravitacional, o mérito do filme deve-se em boa parte ao ótimo trabalho executado pela jovem Jennifer Lawrence, que empresta firmeza a uma personagem fadada ao amadurecimento precoce e ao maternalismo. E definitivamente esses não são bons tempos para as heroínas. Em O Inverno da Alma, Ree tem que lidar com o orgulho inerente à qualquer ser humano e a necessidade que lhe obriga, por exemplo, a caçar e oferecer esquilos para o jantar. Não obstante, o mundo parece simplesmente não vê-la como uma jovem de dezessete anos, pretensão que por sinal ela mesma parece não ter. O restante do elenco, por sua vez, praticamente desconhecido do grande público, cumpre com competência o seu papel, pois, ainda que os personagens sejam invariavelmente obscurecidos por Ree, as atuações não o são. Prova disso é John Hawkes, indicado ao Oscar de ator coadjuvante pelo papel de Teardrop, tio da garota envolvido no esquema de produção de anfetamina.

Adaptado do romance homônimo do autor Daniel Woodrell, O Inverno da Alma é um filme, no mínimo, particular, a começar pelo gênero. Embora num primeiro momento possa ser entendido como um suspense, não há elementos suficientes para defini-lo como tal, seja em razão do seu ritmo decididamente lento ou do fato de que não há mais que duas cenas que possam prender o espectador na cadeira. A ambientação do longa, por outro lado, tem papel fundamental na construção de sua identidade: o cenário quase hostil das montanhas do Missouri, iluminadas por um sol muito discreto e habitadas por pessoas endurecidas (quase caricatas), os onipresentes hits ao som do banjo, tudo contribui para a densidade de um filme que beira o regionalista.

Quer alguns queiram, quer não, esse ainda não é, nem de longe, o ano de consagração do cinema independente no Oscar. É muito provável que O Inverno da Alma, que fez bonito no festival de Sundance e em tantos outros, saia de mãos vazias da cerimônia do dia 27. O estigma de filme feito por poucos e para poucos ainda tem muitos obstáculos a vencer numa indústria que não admite discrição.

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Winter’s Bone (EUA, 2010). Drama. Califórnia Filmes.
Direção: Debra Granik
Elenco: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Valerie Richards

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Categorias
Críticas, Drama