CRÍTICA | O Lar das Crianças Peculiares

Críticas
// 28/09/2016
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Concebido pelo escritor americano Ransom Riggs como fruto de sua paixão por fotografia vernacular e histórias bizarras, O Lar das Crianças Peculiares soa como uma versão infanto-juvenil fantasiosa de X-Men que, nas mãos do cineasta Tim Burton, ganha uma abordagem sombria mais que apropriada e bem-vinda. Entretanto, diferentemente do que ocorria nas histórias dos mutantes da Marvel ou em produções que abraçam paradoxos temporais, o filme abre mão de grande parte do potencial da premissa e dos elementos fantasiosos que definem seu universo ao manter o foco na tradicional disputa entre o bem e o mal, que ao menos é imaginativa o bastante para manter o espectador entretido.

No roteiro, escrito por Jane Goldman, o garoto Jake (Asa Butterfield) decide viajar para uma pequena e remota ilha galesa depois que seu avô, Abe (Terence Stamp), à beira da morte, tenta convencê-lo que as histórias de ninar que lhe contara durante a infância envolvendo um orfanato repleto de crianças com habilidades especiais eram, de fato, reais. Esquivando-se da incredulidade de seu pai (Chris O’Dowd), Jake acaba atravessando um fenda temporal e retorna a 3 de setembro de 1943, dia que a senhora Peregrine (Eva Green) e suas crianças peculiares revivem incessantemente como meio de se proteger de ameaças externas. Entretanto, a segurança daquela fenda é comprometida pelo senhor Barron (Samuel L. Jackson) e um grupo de seres peculiares nefastos e inescrupulosos que desejam transferir a imortalidade própria da vida em loops temporais para a linha cronológica convencional, condição que supostamente seria alcançada através de um experimento perigoso que coloca ymbrynes – peculiares capazes de manipular o tempo, como a senhora Peregrine – na posição de cobaias.

Pra início de conversa, O Lar das Crianças Peculiares peca por apresentar um grupo de personagens que, embora presos a um mesmo espaço-tempo por mais de 70 anos, não apresentam qualquer tipo de consternação em decorrência do confinamento ou da reiteração – sem mencionar, é claro, a incoerência de vermos figuras cujas personalidades são compatíveis com suas idades biológicas, e não com suas experiências e tempo de vida. Além disso, a arbitrariedade e a conveniência das habilidades especiais dos personagens chega a causar desconforto – incluindo a revelação absolutamente frustrante da peculiaridade do protagonista, que depende diretamente do fracasso do primeiro experimento de imortalidade dos vilões mesmo sem possuir qualquer conexão com o evento em si.

Por outro lado, o filme ganha pontos ao se manter fiel a seus conceitos particulares e ao tom sombrio, mesmo quando ambos desafiam as expectativas normalmente estabelecidas para produções com público-alvo mais jovem: a forma como o roteiro explora a dinâmica dos loops temporais no terceiro ato, por exemplo, pode soar confusa até mesmo para os mais crescidinhos, ao passo que passagens como aquelas que trazem um cadáver de criança sendo usado como marionete ou os vilões devorando uma tigela de olhos conseguem ser impactantes a seu modo, mas sem traumatizar a rapaziada. Ainda nesse sentido, Burton e a direção de arte oferecem diversas contribuições acertadas a essa atmosfera mais soturna: repare, por exemplo, a casualidade com que Peregrine e as crianças vestem sisudas máscaras de gás para assistir a determinado espetáculo de destruição lúgubre por excelência, ou o modo como o visual sutilmente sinistro do figurino dos gêmeos, vividos por Joseph e Thomas Odwell, torna a inofensiva dupla uma presença levemente incômoda e perturbadora.

Embora menos espalhafatoso que em lançamentos anteriores do cineasta, o design de produção não merece menos elogios, que se estendem tanto aos departamentos de maquiagem e figurino (mesmo quando sugestivos num nível que às vezes flerta com a obviedade), por exemplo, quanto ao de efeitos especiais – com destaque para a sequência em que o funcionamento de determinada embarcação é restabelecido. Por fim, também vale apontar que o efeito 3D é até bastante eficaz (especialmente considerando que a conversão foi feita na pós-produção) e que o uso notável de stop-motion na cena em que dois bonecos animados por Enoch (Finlay MacMillan) se enfrentam surge como um lembrete divertido e inofensivo do homem que está por trás das câmeras.

Com um Asa Butterfield esforçado, uma Eva Green contrabalanceando firmeza, zelo, mistério e excentricidade com excelência e um Samuel L. Jackson que se diverte mais do que o próprio público, O Lar das Crianças Peculiares é um passatempo mediano que, com o perdão pelo trocadilho, carece justamente de peculiaridades capazes de destacá-lo de tantas outras produções semelhantes ou equivalentes.


Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children (EUA, 2016). Fantasia. Fox Filmes.
Direção: Tim Burton
Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson


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Críticas, Fantasia