CRÍTICA: O Lobisomem

Críticas
// 11/02/2010

Repetição e mesmice. É nisso que tem se baseado uma boa leva de produções hollywoodianas. Até então isso estava estacado nas temáticas ou no puro fato de remakes e adaptações correrem soltas como se estas fossem as únicas fontes criativas para se fazer cinema. Mas e quando um longa, além de já ser um remake, ainda se dá ao direito de reutilizar tudo o que seus antecessores já fizeram? O Lobisomem é o (infeliz) caso.

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O Lobisomem
por Arthur Melo

Clichê. Palavra geralmente confundida com “previsível”. Quando o resultado de uma história é aquele mais do que esperado, o carimbo com as seis letrinhas é pressionado sobre ela. O Lobisomem, nova versão do clássico outrora escrito por Curt Siodmak e, agora, dirigido por Joe Johnston (dos divertidos Jumanji, Querida, Encolhi as Crianças e do descartável Jurassic Park III), não é previsível, é clichê mesmo (na verdade, chega a ser, de fato, um tanto previsível quando já se espera um próximo clichê uivadas intermináveis a frente).

Não há diferenças ou grandes adaptações, por assim dizer. A trama de O Lobisomem, de tão simples que é, já está integrada ao conhecimento geral por absorver rasamente o personagem folclórico. Fazendo as vezes dos roteiristas Andrew Walker e David Self (ou seja, simplificando), a trama é básica, quase sinóptica. Novas idéias, remodelagens ou recaracterização psicológica de personagens estão de fora. O atual filme do homem que se transforma em besta se limita unicamente a refilmar um produto antigo e tão desgastado quanto os elementos que coloca em pauta. O resultado é um emaranhado de falhas que estampam o quanto estavam desencorajados os seus produtores. Faltou audácia.

Benicio Del Toro (aqui irrelevante se comparado às suas atuações em longas anteriores) é Lawrence Talbot, um ator inglês do final do século XIX que vai até um vilarejo onde mora sua antiga família em busca de pistas sobre o assassinato brutal de seu irmão. Lá, além do pai de afetos questionáveis (Anthony Hopkins), encontra sua cunhada, Gwen (Emily Blunt, à caminho de um bom trabalho), que deseja mais do que tudo saber a verdade, assim como Lawrence. Logo se descobre a existência de um lobisomem no vilarejo e, em uma noite de caçada às respostas, Lawrence é atacado, mordido e passa a carregar a maldição cujo único fim se dará através de um grande amor ou uma bala de prata. Não passa disso. O resto é um conjunto de situações idênticas às já amplamente vistas em seja lá que tipo de filmes, permeadas por frases idem com comandos do tipo “Vá, fuja… Eu jamais me perdoaria se [neste ponto você já adivinhou o final da frase] eu fizesse algo de ruim a você”. Daí para o final dos 102 minutos de projeção, não muda muita coisa.

Mas O Lobisomem tem força; bruta e autodestrutiva, mas tem. Poucos filmes são tão nocivos a si mesmos quanto este, numa problemática que se estende até a técnica fraca que, às vezes, pode passar despercebida pelo requinte da direção de arte. A sonoplastia se propõe a causar nos ouvidos os sustos que o componente visual não é capaz. Mesmo assim, o efeito só alcança realidade com os mais desavisados e, de qualquer forma, perde o impulso a partir da metade, quando já se tornou mais clichê do que já era na abertura do filme (também fraquíssima, diga-se de passagem), se é que isso é possível. Quando já não se espera mais nada deste elemento, há o abuso em atribuir a animais empalhados os seus respectivos sons. A fotografia se aproveita de olhares menos atentos e tenta projetar na neblina o brilho do luar que vem de canhões de luz do chão. Já a maquiagem, em certos momentos de descuido em averiguar até que ponto da captação de imagens a prótese sem posterior computação é viável, alcança o mesmo realismo nas mandíbulas do animal que os monstros de séries televisivas antigas, mas se dá bem em incrementar Del Toro na sua primeira cena após a noite de estreia como lobisomem. Já os efeitos visuais até colaboram na medida do possível, fazendo da cena de transformação no hospício (que também não escapa de pinceladas aqui e ali de comicidade e desgaste) um dos poucos destaques do longa, em companhia das boas sequências de assassinato que pela primeira vez levam o animal às vias de fato, devorando brutalmente desde caçadores a simples pedestres.

Se a finalidade de O Lobisomem era reprisar com a boa técnica atual uma antiguidade do cinema, a missão foi cumprida, mesmo que pela metade. Mas se havia algum interesse por parte Joe Johnston e Benicio Del Toro (que também assina como um dos produtores da fita) em reestruturar o conceito para atingir algum sucesso (algo como tem feito os reboots), isto se perdeu nas linhas de um roteiro que mal soube praticar uma história sedenta por novidade e desejosa de extrações de seus repetecos. Pode descer o carimbo.


The Wolfman (EUA, 2008). Fantasia. Terror. Universal Pictures.
Direção: Joe Johnston
Elenco: Benicio Del Toro, Emily Blunt, Anthony Hopkins.

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Críticas, Fantasia, Terror