CRÍTICA: O Mágico

Animações
// 14/01/2011

De vez em quando, quase raramente, somos apresentados a animações que primam pela elegância visual, mesmo que não usando uma tecnologia amplamente requisitada pelo público. Cai sobre elas o peso de sustentar um roteiro firme e coerente. O Mágico se distancia da comédia ao obedecer este formato, mas se aproxima da perfeição com sua crítica embutida na própria arte.

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O Mágico
por Gabriel Giraud

Para se falar de O Mágico (L’Illusioniste), temos que nos remeter ao roteirista, quase-personagem e inspiração icônica da comédia francesa e do próprio filme: Jacques Tati. O cineasta, famoso mundialmente pelo filme Meu Tio (Mon Oncle), que até aparece na animação, sempre foi um francês característico em seus filmes – talvez tenha até contribuído para esse estereótipo. Com humor de gags protagonizado pelo Monsieur Hulot e com um fundo crítico extremamente forte, Jacques Tati tornou-se um dos ícones da cultura francesa.

O Mágico é um roteiro escrito por Tati com um traço bastante autobiográfico (o próprio mágico carrega seu verdadeiro nome, Tatischeff). A animação quase muda acompanha a vida de um mágico francês que, depois de visitar um vilarejo na Escócia, começa a ser seguido por uma jovem que acredita nos poderes absolutos da mágica. Assim, eles se mudam para Edimburgo para promover uma temporada num teatro da cidade. A história ganha, nesse momento, ares muito críticos. A menina não para de admirar as vitrines das lojas e, para manter a magia, o protagonista faz de tudo para ganhar o dinheiro suficiente para as compras e o dia-a-dia. O filme não é uma comédia.

O lado cômico que Tati salientava em seus filmes tange as caras e bocas. Numa animação, as expressões e fisionomias têm possibilidades infinitas. O diretor Sylvain Chomet e seu grupo de animadores exploraram essa vantagem de modo rico, sem ser exagerado. Aliás, devido ao condicionamento das animações tridimensionais, exageradas e assépticas, muitos podem até achar o desenho um tanto tradicional (mesmo havendo alguns efeitos 3D no filme). Mas, dentro de um roteiro em que o teatro é cenário e personagem que influencia a vida dos personagens, a caracterização das expressões faciais como personas, além de admirável, é coerente.

E para quem admira não só um bom roteiro como também um bom desenho, não haverá decepções. O trabalho de reprodução da arquitetura e da paisagem das “locações” é impressionante. É interessante observar também como o meio funciona como influenciador e como ele pode ser uma ilusão – remetendo ao mundo da mágica. Mas quem busca um filme com um roteiro fechado, com ações e linhas de conflito claras, pode achar o filme meio chato.

O traço fluido do desenho associado ao roteiro que basicamente trata do cotidiano de um pobre mágico leva o espectador a uma estranha comoção ante acontecimentos banais à primeira vista. Chomet acertou em cheio o ponto de Tati: fazer as pessoas encararem uma realidade, um cotidiano sem história, onde viramos peças que trabalham para ganhar dinheiro para poder viver. A vida, aliás, é, do começo ao fim, dura. Mas o ofício do ilusionista é criar ilusões; desse modo cria-se uma expectativa na personagem da menina, que vê no mágico a oportunidade de alcançar qualquer realidade. Mas ela não sabia que as ilusões que o mágico cria são feitas a partir da realidade que ele já tem – o que, consequentemente, o força a alimentar essa visão devido a sua ética profissional de sempre manter a mágica viva. E é essa a grande chave de tensão do filme.

Até quando a magia pode resistir à realidade? Que armas a ilusão tem contra a razão? Vale a pena apostar no que é mentira? (O falso é realmente falso?) Essas questões são o fechamento do roteiro. Apenas uma parte coube a Jacques Tati escrever; seu desfecho é um tanto fatalista. Mas as tensões elaboradas ressonam como questões, e isso nos faz pensar na nossa realidade e, assim, as ações do filme ganham novas ressignificações. Se Tati é um crítico da sociedade consumista moderna, ele escreve Crítica com Poesia em forma de Cinema.

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L’illusioniste (França/Inglaterra, 2010). Animação. PlayArte.
Direção: Sylvain Chomet
Trailer

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Animações, Críticas