CRÍTICA | O Mestre

Críticas
// 24/01/2013

Indicado em três das principais categorias do Oscar e escrito e dirigido pelo aclamado Paul Thomas Anderson, de Boogie Nights, Magnolia e Sangue Negro, O Mestre tem o apelo superficial de uma paródia dramatizada das virtudes e absurdos da cientologia, crença de astros como Tom Cruise, John Travolta e Juliette Lewis. Debaixo da superfície, porém, o filme guarda um estudo incerto sobre a importância do equilíbrio entre convicção e vaidade.

O Mestre
Por Gabriel Costa 

Independentemente de gostos e preferências, há de se concordar que o bom cinema é aquele que atinge o espectador em mais de uma “camada”. Quando, ao montar uma cena, direção, produção e elenco conseguem compor uma situação que prenda o interesse por si só, mas também provoque reflexão, emoção e talvez até choque, há a certeza de que algum objetivo primordial da arte está sendo atingido. E, embora seja culpado de diversos excessos, o novo filme estrelado por Joaquin Phoenix e Phillip Seymour Hoffman alcança esse objetivo.

O longa tem início com a história de Freddie Quell (Phoenix), um jovem que, após lutar na Segunda Guerra Mundial, retorna como um escravo dos mais básicos impulsos humanos. Em busca de comida, bebida e sexo, Freddie arranja trabalhos que terminam de formas desastrosas, até que invade de forma clandestina o barco do polêmico Lancaster Dodd (Seymour Hoffman), autoproclamado escritor, físico nuclear, filósofo e líder de um grupo que adota o conjunto de práticas e crenças chamado “A Causa”. Inicialmente fascinado pela bebida caseira produzida por Quell, Dodd basicamente adota o rapaz como membro de sua família, o que provoca reações controversas junto à sua esposa, Peggy (Amy Adams), o filho Val (Jesse Plemons, o Todd de Breaking Bad), e o genro Clark (Rami Malek), marido de Elizabeth (Ambyr Childers).

Quell e Dodd são criaturas inquietas e enigmáticas, e assim se mantêm ao longo de todo o filme. As reais motivações de ambos são sempre duvidosas. Dodd leva adiante A Causa por acreditar nela ou por apreciar a bajulação associada à posição de líder do movimento? Quell defende o mentor pela fé em seus métodos ou simplesmente para obter e manter uma posição de destaque em uma organização potencialmente lucrativa? As respostas a essas questões variam durante o desenrolar da história, e Phoenix e Hoffman executam um trabalho exemplar ao manter tais dúvidas sempre presentes, ainda que o primeiro às vezes pareça um tanto envelhecido para o papel que interpreta.

Como se não bastasse, Anderson inclui ainda mais uma peça no quebra-cabeça, Peggy, cuja real influência sobre o marido nunca fica explícita em toda a sua real extensão. A bela esposa tanto pode ser a verdadeira mente por trás de uma organização de intenções aparentemente nobres, mas fundamentalmente corrupta, como apenas uma mulher que apoia os planos do marido ambicioso. O teor enigmático é ressaltado ainda pela trilha original de Jonny Greenwood, do Radiohead 

Ao final dos longos – mas não tediosos – 144 minutos de filme, não é feito um julgamento explícito dos erros e acertos dos personagens abordados. Eles são mostrados simplesmente como humanos, com todos os seus êxitos e contradições. O importante aqui – assim como na vida de Freddie – é a jornada, e não o destino.

 

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The Master (EUA, 2012) Drama. The Weinstein Company
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern

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Críticas, Drama