CRÍTICA: O Preço do Amanhã (In Time)

Críticas
// 03/11/2011

Raramente uma ficção científica traz uma novidade decente. Um elemento-chave que crie toda uma nova concepção de mundo, um universo com suas próprias regras, onde toda a ação se desenvolve. Espelhado no mundo real, o paralelo fictício move a mente e proporciona divagações sobre tantas questões aparentemente simples do cotidiano. O Preço do Amanhã (In Time) poderia ser esse tipo de ficção. As regras estão lá, só restou o crucial para qualquer filme: vender a própria ideia, e não só apresentá-la.

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O Preço do Amanhã
por Arthur Melo

Diferenças sociais não são assunto novo. Inúmeras abordagens sobre tal problemática já foram feitas e as variações estão longe de acabar. E são as ramificações desse conflito que abalam as estruturas de qualquer sistema que busque promover a convivência entre próximos (mesmo que tão distintos) e o sustento comunitário. Má distribuição de poder e renda, questões éticas, burocráticas e religiosas formam o subdesenvolvimento que acompanha o crescimento da população e a alocação desta. O Preço do Amanhã é uma elevação do item-chave para o início de diálogos sobre o tema que, quando rasos, descartam todas as outras variantes da equação; assim como faz o filme.

No longa, passado em um futuro não datado, os seres humanos foram modificados geneticamente para não envelhecerem após os 25 anos. Como pagamento pela dádiva, um relógio biológico (literal) regressivo, exibido no antebraço, lhes dá apenas mais um ano de existência. Para sobreviver a partir daí é necessário ter meios de garantir que mais tempo seja creditado ao seu relógio. Cada minuto é precioso. Horas, dias, meses e anos podem garantir alimentação, moradia, transporte e conforto. O tempo vira moeda de troca em uma ordem mundial em que o salário é pago por dias creditados a sua vida – devendo esse tempo ser equilibrado entre gastos necessários ao sustento e a simples existência. Se o relógio zerar, a morte é instantânea.

Neste universo, Justin Timberlake é Will Salas, um jovem do gueto que, ao lado da sua mãe, briga contra o relógio para garantir a continuidade de suas vidas. Até que Will tem um inesperado encontro com um homem que, cansado de seus mais de 100 anos em um corpo de 25, resolve ter o eterno descanso e doar seus 116 anos (um boa quantia, considerando a “taxa de câmbio” da trama) de seu relógio para Will. Não sem antes expor para o jovem toda a mecânica que orienta a subsistência dos necessitados para que os abastados possam viver para sempre. Agora, Will usará seu século contabilizado para entrar no mundo dos eternos-ricos e fazer justiça.

Uma coisa é certa: Apesar de totalmente inverossímil, a engenhoca de O Preço do Amanhã é pelo menos interessante. Não há explicação plausível que conceda a reviravolta política pela qual o mundo passou para sofrer tal transformação impressa na história. Nem amparo científico. Os encargos são da imaginação. Simplesmente a ideia de todo ser humano carregar um relógio digital gravado em sua pele, que soma e subtrai frações de tempo e ainda permite transferências de quantias entre humanos ou máquinas da Cielo é algo que ou o espectador compra ou encara o incômodo. Ainda assim, todo o programa em torno desta perspectiva é uma criação digna do roteiro do também diretor Andrew Niccol. Os conceitos da disposição societária e os meios de demarcação são eficazes. Niccol utiliza muito bem as ferramentas da Ficção Científica para sustentar a organização do universo que apresenta, e não para enrolar com enxertos de cenas pirotécnicas. Provas disso estão na demarcação das áreas da escala social através de Fusos Horários (com o devido valor de pedágio para trafegar entre elas) e principalmente no novo valor agregado a hábitos corriqueiros (como a necessidade questionável de correr ou comer depressa quando se é rico), simulando novos modelos comportamentais que substituem aqueles que hoje denunciam um membro de uma camada social.

Mas, ainda assim, o filme não faz o suficiente. A empreitada de Will em adentrar no mundo dos ricos para resgatar o tempo acumulado e distribuí-lo entre os necessitados das filas de “bolsa-auxílio” se transforma em uma mera releitura de Robin Hood. Por sua vez, a rica Syilvia Weis (personagem de Amanda Seyfried) protagoniza um claro diagnóstico barato da Síndrome de Estocolmo. O desenlace é uma dupla em ação por uma causa nobre, é verdade, mas que só se justifica de fato por conta da malícia de Andrew Niccol em potencializar às últimas consequências na sua história um problema real. E para haver tempo hábil de demonstrar toda a química da dupla ou preencher com mais personagens acusadores da então realidade caótica, o filme resolve deixar de fora todos os fatores citados no parágrafo introdutório.  Termos esses que, em um mundo real e palpável, influenciariam de alguma forma os caminhos que levaram o mundo ao patamar apresentado na tela. E, quem sabe, até desmereceriam uma interferência da dupla de mocinhos. Nos poucos minutos que se dá ao luxo de esticar as pernas, o filme finge querer entrar em um melhor nível de discussão. Tece, assim, brincadeiras com a aparência mascarada da idade dos indivíduos em cena ou solta frases inspiradas sobre a seleção natural do capitalismo darwiniano. Mas ladrar é tudo o que chega a fazer.

Mesmo com um visível empenho em deixar seu conceito alcançável, O Preço do Amanhã poderia se empenhar muito mais. É bem verdade que o modo como carrega uma ficção científica sem tanta ação e efeitos visuais é de se espantar (não é sempre). Mas a impressão que fica é que muito foi criado parar ostentar uma ideia que não há aparente conformidade com a razão das coisas que gerenciam o mundo. Parece que, diante do cronômetro, O Preço do Amanhã não teve tempo para um convencimento prévio. E, considerando ser tudo baseado na linguagem metafórica para apresentar uma proposta social, nem mesmo para concluir sua sugestão de transformação.

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In Time (EUA, 2011). Ficção Científica. 20th Century Fox
Direção: Andrew Niccol
Elenco: Justin Timberlake, Amanda Seyfried, Olivia Wilde, Cillian Murphy

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