CRÍTICA | O Vingador do Futuro

Ação
// 16/08/2012

Apesar das duras críticas xiitas daqueles que sempre têm longas originais como obras sacrossantas, o remake de O Vingador do Futuro não é de todo ruim. Exceto por sua total despreocupação em seguir adiante com o bom tema que tinha em mãos, o filme despeja uma boa leva de ação de qualidade tocada por uma técnica eficaz.

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O Vingador do Futuro
por Arthur Melo 

Há uma clara resistência por parte do público em preferir versões originais de histórias contadas no cinema àquelas que chegam em novas roupagens todos os dias. Por um lado, há um bom motivo para isso. Se há duas décadas a tecnologia não permitia que os efeitos visuais computadorizados ocupassem mais do que 40% de um filme, hoje a produção gráfica pode ser a responsável pela maior parte da realização de um longa – isso quando não está presente em sua totalidade. Pretendendo dar mais espaço ao impacto que pode ser proporcionado aos olhos, diminui-se o peso e a qualidade das histórias, evidenciando sequências mirabolantes – mas muito bem realizadas – que não compensam a perda para o espectador mais exigente. O Vingador do Futuro, o remake, pode não se encaixar totalmente neste padrão por se tratar de uma renovação de um filme que não envelheceu muito bem.

No filme, após uma intensa guerra química, o mundo se tornou um local impossível de ser habitado, restando apenas a federação dos estados da Grã-Bretanha e a Colônia (que seria a Nova Zelândia). O único meio de locomoção entre estes dois espaços no planeta é através da “Queda”, um sistema de perfuração que transporta as pessoas através de um veículo que passa pelo centro da Terra. Douglas (Colin Farrell) é um homem que trabalha na manutenção dos androides da força policial na federação, mas vive na Colônia (tendo todo dia de fazer o trajeto) e vive com sua esposa, Lori (Kate Beckinsale), até o dia em que conhece uma empresa chamada Rekall, que pode inserir na sua memória lembranças daquilo o que você gostaria de ter vivido. Na tentativa de inserir as memórias de um fictício agente secreto, Douglas se vê no meio de uma caçada ao descobrir que, na verdade, sua vida atual é uma grande mentira implantada em seu cérebro. Agora ele deve contar com a ajuda de Melina (Jessica Biel) para fugir das habilidades da policial que fingira ser sua mulher.

A ideia, proposta no filme original e aqui repetida, é interessante. Dialoga estreitamente com duas das ficções científicas mais aclamadas dos últimos vinte anos, Matrix e A Origem. Mas tal diálogo se encerra na construção do argumento, não alcançando desenvoltura. E o fato dessa limitação já fazer parte da estrutura d’O Vingador do Futuro de 1990 é que torna o longa atual imune às comparações depreciativas. Pelo contrário. Somado ao péssimo resultado (que beira ao grotesco) do visual e da técnica do primeiro filme no tão arrojado público de hoje (no que se refere ao caráter a cada dia mais crítico quanto aos acertos tecnológicos), o filme protagonizado por Colin Farrell se sai até um pouco melhor. Mas, se a indagação do que é realidade e ficção dentro da mente humana permeia toda a narrativa dos longas supracitados, induzindo a plateia a, mesmo contra a própria vontade, questionar todas as situações cotidianas, a dúvida não consegue se validar como alicerce do novo O Vingador do Futuro (de nenhum deles, aliás). O projeto da empresa Rekall, na história, funciona apenas como estopim de uma caçada que se arrasta por toda a trama e é elevada a um nível de importância que consegue eclipsar este que seria um interessante ponto a ser entregue pela história e até mesmo o conflito interno do protagonista, jogado para segundo plano.

Se é a tal caçada que irá dirigir toda a proposta do filme – e parece ter sido uma escolha dos produtores, e não uma falha criativa – que a faça em qualidade. Felizmente, é. A direção de Len Wiseman vez ou outra opta por bons enquadramentos, ótimas movimentações de câmera (como a reação de Douglas à emboscada policial dentro da empresa Rekall, fatalmente maquiada pela edição e computação para sugerir uma tomada única, sem cortes) e planos abertos que mostram o alto nível da Direção de Arte, muito capaz em reunir traços contemporâneos com futuristas sem beirar o exagero. E o mesmo se estende às coreografias das lutas corporais e, principalmente, aos efeitos visuais que fundem muito bem o CGI ao uso de pequenas técnicas “reais”.

O lamento fica apenas para o elo mais fraco do trio formado por Farrell, Jessica Biel e Kate Beckinsale. Enquanto os dois primeiros fluem muito bem (a boa desenvoltura de Biel está até além do comumente entregue por ela e Farrell se sai muito bem dentro e fora das cenas de ação), Beckinsale dificilmente consegue aflorar a periculosidade de sua personagem sem a ajuda de uma frase de efeito ou de uma arma, mal sabendo oscilar entre a dissimulação e agressividade.

Fraco em aproveitar tudo o que o seu conteúdo poderia trazer, mas altamente capaz de entreter quando está disposto a exibir suas habilidades técnicas, O Vingador do Futuro até poderia entrar para a lista das tais refilmagens que não precisavam sair do papel. Mas, observadas suas alterações em relação ao original e o nível daquilo que desde sempre parecia ser o foco de atenção dos produtores, é fácil de se notar que a proposta nunca foi substituir a aventura de Arnold Shwarzenegger, mas oferecer uma opção “consertada” de um produto que visualmente caducou – mesmo que novos defeitos surjam a partir daí. Nada que um novo recall no futuro não possa resolver.

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Total Recall (EUA, 2012). Ação. Ficção-científica. Sony Pictures.
Direção: Len Wiseman
Elenco: Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Ethan Hawke

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