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Estrelado pelo indicado ao Oscar de melhor ator Denzel Washington, O Voo passa longe de ser um drama de uma nota só e apresenta um conjunto que é em turnos impactante, divertido, desconfortável e sentimental, mas permanece coerente quase em sua totalidade.

O Voo
Por Gabriel Costa

Diante dos ingredientes aqui reunidos, o espectador casual poderia muito bem descartar O Voo como um desnecessário amontoado de mais do mesmo. Afinal, entre os temas abordados no novo filme do diretor de Forrest Gump temos desastre aéreo, alcoolismo, dependência química, drama familiar, um belo romance disfuncional e, de quebra, manobras corporativas/judiciais. Mas é justamente a variação habilidosa – e harmoniosa – de tom por parte de Robert Zemeckis que traz o tempero à história do piloto comercial William “Whip” Whitaker (Washington), que salva quase uma centena de vidas na queda do voo 227 da SouthJet, mas enfrenta suspeitas das autoridades e demônios internos diante das reais consequências de seu vício em álcool e drogas.

A primeira cena do longa surpreende diante da classificação etária de 14 anos no Brasil ao apresentar a nudez total da colega de trabalho e amante casual de Whip, Trina (Nadine Velazquez), entre um gole de cerveja e uma carreira de cocaína matinal. Nada fora do normal na vida do protagonista, que pouco depois chega ao aeroporto de Orlando, Flórida, para comandar um avião durante uma tempestade. O comandante faz pouco caso da apreensão do co-piloto Ken Evans (Brian Geraghty) e, após uma turbulenta decolagem, duas aspirinas pedidas à comissária de bordo e amiga Margaret (Tamara Tunie) e algumas doses de vodca surrupiadas do estoque do serviço de bordo e misturadas com suco de laranja, deixa o comando da aeronave para Evans e o piloto automático e tira um cochilo.

Whip é acordado por uma forte turbulência para constatar que a queda é inevitável. Durante uma angustiante sequência, o personagem prova que, embriagado ou não, é um piloto de respeito, e através de uma combinação de manobras espetaculares e decisões ousadas, evita que a tragédia seja ainda pior, ainda que não consiga evitar a morte de seis das 102 pessoas a bordo, entre elas Trina. Encarado pela mídia como herói, Whip, cujo comportamento boêmio não é segredo, logo descobre que sua conduta está sob suspeita da Organização Nacional de Segurança do Transporte americana, inclusive com a possibilidade de prisão. Mais do que isso, ele começa a questionar os próprios hábitos, ao sentir, talvez pela primeira vez, que pode já estar a serviço deles, e não o contrário.

Washington, que nunca perdeu “oficialmente” a qualidade de ator interessante, diferentemente de, digamos, Kevin Costner, retoma aqui uma relevância talvez igualada pela última vez mais de uma década atrás, em Dia de Treinamento. Whip oscila entre a autoconfiança e a arrogância autopiedosa, sem encontrar o limite entre o valor da coragem para ultrapassar limites e a simples irresponsabilidade birrenta em desrespeitá-los. Como polarizadores nesse espectro, estão o amigo e representante do sindicato aéreo Charlie Anderson (Bruce Greenwood), o austero e competente advogado Hugh Lang (Don Cheadle, com a competência habitual), o impagável traficante Harling Mays (John Goodman, para variar roubando a cena) e a viciada em recuperação Nicole (Kelly Reilly), com quem Whip se envolve após um insólito encontro para fumar nas escadas do hospital onde ambos estão internados, ele devido ao acidente aéreo, ela por causa de uma overdose.

O filme deixa explícito o poder destrutivo da dependência sobre o protagonista, mas também mostra de forma impiedosamente maliciosa o apelo desse estilo de vida para Whip. As breves e deliciosas participações de Goodman, não por acaso ao som de Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones, são repletas de ironia e tiradas ágeis, e destaques inegáveis da obra. O encadeamento da trama só fraqueja realmente nos minutos finais, quando um curioso tom bíblico é aplicado de forma pouco crível aos acontecimentos. A engasgada é algo frustrante, e pode até, quem sabe, custar o Oscar de roteiro original a John Gatins. Mas não invalida o aproveitamento dos mais de 120 minutos anteriores.

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Flight (EUA, 2012). Drama. Paramount Pictures
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Denzel Washington, Kelly Reilly, Don Cheadle, John Goodman

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