CRÍTICA | Operação Red Sparrow

Críticas
// 01/03/2018

Os “filmes de espionagem” produzidos cíclica e periodicamente pela indústria cinematográfica norte-americana costumam seguir um de dois caminhos: ou consistem em uma série de sequências de ação vagamente conectadas por rocambólicos panos de fundo de disputa geopolítica internacional, como o recente Atômica, maioria das dezenas de aventuras de James Bond e a irregular franquia-veículo de Tom Cruise, Missão: Impossível; ou em densas – e muitas vezes tediosas – sequências de negociações e contrapartidas que beiram o incompreensível em tramas herméticas como O Espião que Sabia Demais, de 2011, ou o ótimo Sicario, de 2015.

Operação Red Sparrow, estrelado com carisma e entrega por Jennifer Lawrence, tende ao segundo grupo, mas mantém as coisas dentro do palatável ao grande público, ao menos no que se refere ao roteiro sólida, ainda que tipicamente hollywoodiana em seus desdobramentos. Por outro lado, o diretor Francis Lawrence, que trabalhou com a atriz que compartilha de seu sobrenome (mas não são parentes) em três dos quatro filmes da série Jogos Vorazes, carrega nas tintas em algumas cenas brutais de tortura e, ainda que haja consideráveis porções de nudez e situações de cunho sexual, na verdade muito pouco disso é mostrado por um viés sexy ou sensual, uma vez que a grande maioria dos desenvolvimentos mostrados envolvem muito mais humilhação, demonstrações (ou tentativas de demonstrar) poder e revanchismo do que qualquer troca psicológica ou emocional genuína – uma vez que o enredo trata justamente disso.

O longa, baseado no romance de Jason Matthews, conta a história da bailarina russa Dominika Egorova (Lawrence), que, após ser impossibilitada de continuar sua carreira no célebre Teatro Bolshoi ao sofrer uma grave contusão, é recrutada pelo próprio tio, Ivan Egorov (Matthias Schoenaerts, certamente escalado pela evidente semelhança com Vladimir Putin) para treinamento na Escola Estadual Quatro, presidida por uma implacável, mas caricata Charlotte Rampling, onde jovens atraentes de ambos os sexos aprendem técnicas de sedução e manipulação para agirem como espiões de alto escalão do governo russo. A missão de Dominika é identificar um agente duplo russo que trabalha com a CIA, que tem na ponta de sua operação o intrépido e charmoso beberrão Nate Nash (Joel Edgerton, do excelente suspense pós-apocalíptico Ao Cair da Noite, do ano passado).

As performances dos protagonistas, cujo time inclui ainda o sempre impecável Jeremy Irons como o general russo Korchnoi, são o maior destaque, e seguram a peteca ao longo das sucessivas idas e vindas típicas do nicho que o filme ocupa. Também como é característico do gênero, o ritmo das reviravoltas aumenta até a virada final, que justifica diversos momentos que não pareciam ter peso até aquele momento. Sem indicações exatas de quando se passa a ação, o espectador desavisado pode facilmente assumir tratar-se de uma história em plena Guerra Fria até ser surpreendido por menções a celulares e mídias sociais, em um caráter anacrônico pode prejudicar a suspensão de descrença do público. O cerne da trama, contudo, está nos dilemas morais, éticos e pessoais com que as pessoas se deparam quando confrontadas com situações de poucas escolhas – todas elas extremas.


Red Sparrow (EUA 2018). Suspense / Drama. Chernin Entertainment / 20th Century Fox.
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Jeremy Irons, Matthias Schoenaerts, Charlotte Rampling, Douglas Hodge, Mary-Louise Parker.

7-pipocas

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Críticas, Suspense