CRÍTICA: Os 3

Críticas
// 10/11/2011

Assim como Desenrola tratou a primeira relação sexual sem a necessidade de cair na mesmice idiota adolescente, Os 3 também joga fora toda a bobeira do lugar-comum dos folhetins para explorar o momento em que a fase adulta está batendo na porta. Ousadia e ausência de estereótipos definem o bom filme que resultou da proposta do diretor Nando Olival (co-diretor de Domésticas – O Filme e diretor do hit da internet para a Vivo, Eduardo & Mônica).

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Os 3
por Arthur Melo

Não seria propriamente uma posição preconceituosa, mas, sim, reservada. Uma sinopse que apresente como argumento principal um grupo de jovens que passa por inúmeras experiências importantes em conjunto pode, em uma escassez de informações, passar a ideia de um grande e frustrante episódio da Malhação. O primeiro ato de Os 3, contudo, já prova ser uma feliz constatação do contrário. E os atos seguintes vêm para exemplificar como colocar personagens adolescentes em campo.

No filme, três jovens se conhecem em uma fila de banheiro de uma festa. Ao concluírem que devido ao aperto a solução seria utilizarem o espaço ao mesmo tempo, estabelecem um rápido vínculo de intimidade (mínima, ainda assim), que os aproxima até o final da noite. Em meio a uma conversa que põe um ponto final na obrigatoriedade de explicar na trama as origens de cada um, os três resolvem morar juntos, selando uma amizade incorruptível. Durante um projeto acadêmico, o grupo chama a atenção de um empresário que aceita a hipotética proposta de criar uma espécie de Big Brother online na casa dos jovens, em que o interesse não está em suas vidas, mas em vender os produtos domésticos usados por eles. Mas ao se verem necessitados de atrair olhares para si no intuito de se tornarem potenciais “vendedores”, criam uma série de jogos de encenação para instigar o público consumidor.

A princípio, Os 3 demonstra em seus personagens uma incrível velocidade de comunhão não tão corriqueira. Mas logo prova estar certo em agir desta forma. O foco do filme está nos personagens, não nos fatos. Estes estão lá apenas para servirem de campo de interação e catalisador das emoções que traçam as principais características de Camila, Cazé e Rafael. Que respondem muito bem. O roteiro tomou o cuidado de atribuir a cada um dos três um perfil comportamental que, à medida que o longa avança, permite que se espere um tipo de reação ao evento corrente. E isto é um ponto do desenvolvimento. Apesar de alguns dos acontecimentos do ato central não serem propriamente inesperados, são necessários. Como a guinada nos negócios explorada na sequência de vai e vem em que as vendas aumentam progressivamente enquanto os adolescentes resolvem atuar dentro de sua própria casa. A diferença em Os 3 é que esta é uma manobra claramente escrita de maneira consciente, com um propósito para o avanço da narrativa: colaborar para uma definição dos agentes da trama, e não uma limitação criativa.

O bom resultado em cena dos personagens é mais que um sucesso do roteiro. A química entre os protagonistas Juliana Schalch, Victor Mendes e Gabriel Godoy ajuda bastante. É visível o conforto do trio em atuar juntos. O reflexo é claro em cenas cuja intimidade está no texto (livre de excessos “aborrecentes”) e no contato físico. E a influência do diretor Nando Olival (Domésticas – O Filme) foi decisiva para o resultado. O espaço de tempo entre as falas é impecável, criando leveza, atribuindo humor e distanciando o máximo possível de qualquer indício de vulgaridade. Uma preocupação bem-vinda, vista a cena de sexo entre Rafael e Bárbara (Sophia Reis), a desatadora do elo formado pelo trio que só intensifica pela distância o perfeito desencaixe que é o grupo em separado; uma adição que se transforma em uma jogada inteligente da história.

Mesmo sem ser o centro das atenções, a história por trás dos personagens também oferece excelentes passagens. As ideias dos personagens para alavancarem as vendas dos produtos são divertidas. E, quanto não inesperadas, é por conta do conhecimento dado ao espectador a respeito do caráter de algum personagem que esteja disposto a por em prática uma ou outra pegadinha. Isso sem mencionar a direção de arte e a fotografia, presas a basicamente um único cenário de ação, obrigando-as a estabelecerem as diferentes nuances que contornam os distintos momentos da trama.

Simples e honesto, Os 3 pode, para alguns, relembrar ideias de Os Sonhadores e Três Formas de Amar. Seu material é atraente e, ainda bem, acrescenta uma experiência tão irresponsável quanto. Mas, talvez, mais palpável.

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Os 3 (Brasil, 2011). Drama. Warner Bros.
Direção: Nando Olival
Elenco: Juliana Schalch, Victor Mendes, Gabriel Godoy e Sophia Reis

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Críticas, Nacional