CRÍTICA: Os Famosos e os Duendes da Morte

Críticas
// 02/04/2010

Vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio 2009, Os Famosos e os Duendes da Morte é adaptação do estreante em longas Esmir Filho, do romance homônimo de Ismael Canapelle. Filme do devaneio, da febre, de criaturas esmagadas pela melancolia e tédio perambulando por paisagens mórbidas.

Os Famosos e os Duendes da Morte
por Bruno Cava – colaborador

Estruturado como relato de sensações, o filme dialoga com Paranoid Park (Gus Van Saint, 2008) e a sua temática de delírio adolescente, entre desejos incompreendidos e vagas insatisfações existenciais, sentimentos trabalhados no nível da imagem. Numa paisagem bucólica e gelada do sul do Brasil, que conforma com personagens docemente angustiados, a narrativa submege num lirismo cansativo ao redor de um adolescente solitário, que lembra o estilo emo. Esse protagonista mantém um blogue-diário, passa as noites em chats e sonha eroticamente com uma musa juvenil casta, lânguida, pálida e mórbida.

Isto remete o espectador inevitavelmente ao spleen birônico da “Lira dos Vinte Anos” de Alvares de Azevedo. Como na “Lira…”, pontificam em Os Famosos e os Duendes da Morte o medo de amar, a vontade vaga por virgens intangíveis, o sentimento de culpa frente aos desejos carnais e sobretudo o fascínio com a morte. Trata-se de uma história de seres imaginários e idéias abstratas vagando na noite enevoada, como fogos-fátuos sem pele e carne. Sofrendo do mesmo “mal-do-século” dos poetas ultraromânticos, as cenas alternam entre seqüências tranqüilas sobre o tédio da pacata comunidade, e planos febris com flares, névoas e ofuscamentos, em vertigem audiovisual.

É curioso como, no filme, não há duendes nem famosos (senão a aparição espectral de Dylan), mas a morte atravessa-o de ponta a ponta. E são muitos os suicídios da história. Como o roteiro falha em encontrar qualquer sentido para os acontecimentos, parece que, realmente, nada resta aos personagens do que aliviar a sua dor existencial pulando da ponte. E não nos sentimos tocados, tamanha a desumanização dos espectros-personagens.

Ao que tudo indica, o título do longa tem a ver com uma antológica entrevista pelo crítico gonzo Lester Bangs (revista Rolling Stones) do roqueiro queer Lou Reed, em 1975. O que até faz sentido em relação à trilha indie descolada e às passagens homoeróticas, mas de resto parece incongruente com o conteúdo do filme como um todo.

Trata-se, em conclusão, do retrato de uma adolescência descarnada, uma geração despolitizada e autocentrada, que se reinventou nas redes e comunidades da internet. Em busca da pureza e da candidez do desejo, e sem correr os riscos da carne e da matéria, ela tristemente só encontra a ilusão, o vazio, a morte.


Os Famosos e os Duendes da Morte (Brasil/França, 2009). Warner Bros. Pictures
Direção: Esmir Filho.
Elenco: Henrique Larrè, Samuel Reginato, Tuane Eggers.
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Categorias
Críticas, Drama, Nacional