CRÍTICA | Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos

Críticas
// 22/08/2013

Quão ruim a ideia de lançar mais uma adaptação de literatura para jovens adultos pode ser? A partir do momento que comete falhas que nem Crepúsculo foi capaz. Claro que isso não faz de Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos ser tão fraco quanto às adaptações dos textos de Stephenie Meyer, mas é o suficiente para ver, esquecer e, se ainda for possível, até torcer para uma não continuação. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos
por Arthur Melo

Existe um argumento sofrível usado por quem defende o resultado final de algumas adaptações: “mas no livro é assim”. Nisso, a tentativa de defender um longa-metragem acaba esmagando todas as suas chances de ser protegido. Em tal caso, ficam expostos o quão ruim a obra original já deve ser e a incapacidade dos roteiristas em modificá-la de modo que utilize sua essência amarrando as pontas soltas e descartando os problemas. Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos é uma recorrência desse pesadelo.

No filme, Lily Collins é Clary, uma jovem que descobre ser uma Caçadora das Sombras, um grupo que há milênios combate demônios. Após ter sido protegida de todas as maneiras possíveis pela mãe enquanto criança (e isso inclui feitiços e encantamentos), Clary precisa desvencilhar-se das barreiras criadas pela mãe sem a ajuda da própria, uma vez que ela está desaparecida. E só então ela se verá munida de suas habilidades e no caminho certo para encontrar um cálice sagrado que potencializa os poderes de quem bebe nele. Em sua empreitada, Clary terá de enfrentar vampiros, lobisomens e magos, por vezes até contando com a ajuda deles.

O caráter sofrível de Os Instrumentos Mortais não está nem na produção do filme em si, pelo menos não totalmente. A grande falta de critérios, repetitividade e nenhum senso de criatividade estão é na sua história. Cidade dos Ossos reúne em uma só trama diversos aspectos de histórias muito mais conhecidas e já aclamadas. A mãe que sempre soube dos dons da filha e que de repente é emboscada e desaparece, deixando a filha sem apoio para sua nova situação (Percy Jackson), a garota que descobre ter poderes e que desempenha um importante papel no mundo alternativo no qual está entrando (Harry Potter – há até um instituto de arquitetura comparável) e vampiros e lobisomens em lados extremos de uma disputa (Crepúsculo).

Apesar de um primeiro ato firme, ainda que permeado por falas e pequenos acontecimentos que revelam uma preguiça criativa como “ela ainda não está pronta”, Cidade dos Ossos dilui seu teor fantasioso em um romance água-com-açúcar que já mal se sustenta, que dirá com enxertos familiares novelescos jogados logo quando a história precisa acelerar, no arrastado clímax. Para piorar, leva a sério a figura de Jamie Campbell Bower como um galã (mesmo sob o seu corpo matusquelo e rosto andrógeno), dá como segunda opção para a protagonista o melhor amigo vivido por Robert Sheehan (o que é o mesmo que nada) e joga o rosto de Kevin Zegers para o homossexual que recebe flertes de outros personagens só para causar – e o filme ainda acha que está acertando. Não dado por satisfeito, permite que seres humanos se transformem em lobos perfeitos com total consciência e controle de suas ações para chamá-los não de metamorfos, mas sim de lobisomens, ignorando que a lenda impõe a necessidade de uma lua cheia, a perda de consciência e raciocínio e a forma bestial metade homem, metade lobo, perpetuando um erro grotesco na mitologia da fera que já vem se esgueirando desde Crepúsculo.

Os Instrumentos Mortais segue deliberadamente o perfil do “poderia ser pior, mas ainda está ruim”. Poderia, de fato, porque o design de produção não é dos mais inquietantes e a realização é até bastante eficaz. E, para alívio, os efeitos visuais funcionam muito bem, mesmo que poucos. Mas a mão que dá é a mesma que tira. A técnica é empregada em cenas de ação mal pensadas, bem realizadas, mas mal filmadas (note a oscilação). Os dublês e atores principais passam credibilidade em seus movimentos, mas o que é proposto a eles é de pouca inventividade e a câmera nervosa, preocupada em ofuscar qualquer anomalia nas sequências mais agitadas, propõe uma tontura que, ao contrário de Jogos Vorazes, é totalmente inexplicável e dispensável à estética do filme. Contudo, o momento em que Clary paralisa uma legião de demônios em um espaço claustrofóbico merece um breve aplauso.

Cidade dos Ossos falha miseravelmente como o pontapé de uma série que, se bem desenvolta, poderia preencher uma mínima lacuna entre fãs de Crepúsculo e Harry Potter. Mas não acerta nem na fantasia, nem no romance e tampouco na ação. Nem mesmo uma música tema para o casal protagonista teve dedo para escolher, sugerindo uma canção cuja letra, voz e melodia arranham os tímpanos tamanha breguice. A vaga deixada nos cinemas para o público misto de leitores jovens adultos está mesmo diante de Jogos Vorazes e parece que até o seu término não vai haver concorrência.

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The Mortal Instruments: City of Bones (EUA, 2013). Fantasia. Romance. Paris Filmes.
Direção: Harald Zwart
Elenco: Jonathan Rhys Meyers, Lily Collins, Jamie Campbell Bower, Lena Headey.

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Categorias
Críticas, Fantasia, Romance