CRÍTICA | Pantera Negra

Ação
// 07/02/2018

O mais hypado entre os filmes recentes do Universo Cinematográfico Marvel, Pantera Negra traz personalidade própria, visual acachapante e representatividade a um contexto já um tanto homogeneizado pela fórmula: aventura para toda a família + constantes tiradas engraçadinhas + elenco masculino branco/europeu/caucasiano pontuado por um ou dois representantes de outras etnias e gêneros. A trama e ambientação, contudo, não fazem jus às inovações visuais e conceituais, que acabam a serviço daquela mesma história sobre o rito de passagem de um herói-líder predestinado que já vimos – várias vezes – antes.

Coescrito e dirigido por Ryan Coogler (de Creed: Nascido para Lutar), o primeiro filme protagonizado por um super-herói negro desde o plenamente esquecível Steel – O Homem De Aço – um spin off do Superman estrelado pelo astro do basquete Shaquille O’Neal no longínquo ano de 1997 -, e certamente o primeiro desde que o nicho se tornou “respeitável”, ou seja, a implacável máquina bilionária que conhecemos de 2013 em diante, o longa dá continuidade praticamente imediata à trajetória do personagem-título após a breve e marcante participação do monarca de Wakanda em Capitão América: Guerra Civil.

Após a morte do rei T’Chaka (John Kani), mostrada no filme de 2016, é hora do príncipe T’Chala (Chadwick Boseman, de King: Uma História de Vingança) assumir tanto a posição de governante da fictícia nação africana, como também o manto de seu protetor, o Pantera Negra. A história demora a engrenar, e passa por situações batidas como o desafio ritual no caminho de T’Chala ao trono que lhe é destinado e uma sequência de sonho espiritual em que o herdeiro é aconselhado por um ancestral. Qualquer semelhança com a África icônica, mas estereotípica do Rei Leão da todo-poderosa patroa Disney pode até ser coincidência, mas da classe das infelizes. A ação bem coreografada e o elenco carismático – que consegue o feito de divertir e cativar sem recorrer ao ritmo incessante de piadinhas já típico dos filmes Marvel – impedem que a atenção do público se perca, mas não mascaram o desenrolar pouco original das coisas.

Wakanda, retratada como uma isolada sociedade tribal-monárquica-futurista de design impecável, é visualmente fascinante e enriquecida por elementos como o exército de mulheres-guerreiras liderados por Okoye (Danai Gurira, a Michonne de The Walking Dead, e talvez a personagem mais interessante do filme), mas permanece fundamentalmente subaproveitada em meio a um excesso de clichês de ambientação. Um personagem de participação fundamental no desenrolar da trama, o W’Kabi de Daniel Kaluuya (protagonista de Corra!), tem suas motivações tratadas com lamentável descaso, o que puxa todo o enredo na direção da superficialidade.

As coisas melhoram sensivelmente a partir da metade do filme, quando a narrativa adota um sensível tom de espionagem James Bondiana que a aproxima de Capitão América: O Soldado Invernal, com participações de destaque das coadjuvantes Shuri (Letitia Wright) e Nakia (Lupita Nyong’o). O crescimento do vilão Erik “Killmonger” Stevens na trama também se revela uma boa notícia, na medida em que a interpretação de notável presença de Michael B. Jordan retrata um daqueles antagonistas a quem é difícil não darmos razão em certos momentos. O longa não força a conexão com o restante do universo compartilhado Marvel – representado aqui basicamente pela presença do divertido e macabro Ulysses “Garra Sônica” Klaue de Andy Serkis e do Agente Ross de Martin Freeman -, mas não sofre em nada por isso, uma vez que tem fundamentos bem plantados na Guerra Civil.

Ao caminharmos para a conclusão, contudo, os pontos menos consistentes estabelecidos anteriormente no filme cobram seu preço, e minam parte da força adquirida desde então. Novamente, o visual impecável e a adrenalina, aliados à trilha cool elaborada por Kendrick Lamar, ficam responsáveis por carregar a obra – e, mais uma vez, não fazem feio. Enquanto filme de estreia solo, Pantera Negra certamente está entre os melhores absolutos do universo a que pertence. Enquanto décimo oitavo (!) capítulo de longa metragem da história desse mesmo universo, seria beneficiado de uma dose de ousadia compatível com o marco histórico que representa.


Black Panther (EUA 2018). Aventura. Marvel Studios/Walt Disney Pictures.
Direção: Ryan Coogler
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Danai Gurira, Lupita Nyong’o, Letitia Wright, Martin Freeman, Andy Serkis, Forest Whitaker .

7-pipocas

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