CRÍTICA: Para Sempre

Comédia
// 07/06/2012

A comédia romântica Para Sempre (mais dramática que cômica), que estreia nesta quinta, é irregular, mas consegue equilibrar com eficiência seu sentimentalismo e certa dose de frieza. O resultado é uma produção que repete elementos de fórmulas habituais, mas apresenta algum frescor narrativo.

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Para Sempre
por Virgílio Souza

Acidentes. Estresse pós-traumático. Perda de memória. Conquista e perda. Hollywood já tratou de todos esses temas, ligando-os com enorme intensidade ou mantendo-os tão distantes quanto se pode imaginar. Para Sempre é uma tentativa de abordar tais elementos de maneira leve, mas sem fugir dos percalços relacionados a questões – física e emocionalmente – tão complicadas.

Leo (Channing Tatum) e Paige (Rachel McAdams), marido e mulher, nos são apresentados como um casal comum, apaixonado: é assim que surgem, contentes, juntos, na primeira sequência do longa, saindo de uma sessão de cinema. Mas para por aí. Um acidente bobo arremessa a garota pelo para-brisas do carro – segundos após ela desatar o cinto de segurança – e interrompe sua rotina, a coloca em coma e destrói sua memória. A partir daí, só saberemos quem ela era a partir de flashbacks e do que seu companheiro nos contará. O “detalhe”, aqui, é que Paige perde somente a porção mais recente de suas lembranças, o que significa que sequer se lembra de ter conhecido Leo, e menos ainda de ter se casado e construído um lar ao seu lado durante quatro anos. Em questão de semanas, ela volta a ser quem era há quase meia década, com todas as dificuldades que isso pode gerar.

A sequência do acidente, filmada em super câmera lenta, e os instantes seguintes, que mostram a confusa entrada da garota no hospital com um incômodo foco distorcido, nos dão a impressão de que a trama será pautada por excessos de seu diretor, Michael Sucsy, estreante no cinema. O que se vê, no entanto, é uma produção capaz de articular bem suas escolhas visuais e elementos como trilha sonora (obra da competente Rachel Portman) e montagem (responsabilidade de Melissa Kent e Nancy Richardson).

Embora pareça vacilar em meio a tantos tempos diferentes, no princípio da construção da história do casal (apresentada com certa eficiência pelo roteiro, que alterna momentos casuais e situações especiais de sua trajetória juntos), o longa se firma a seguir, quando as bases já estão dadas. O filme arrisca transições menos óbvias (a batida de um copo na mesa, Leo desaparecendo no escuro), a narração em off (que pouco tem a dizer) é deixada de lado, a trilha sonora se torna menos burocrática e o roteiro, escrito a oito mãos, faz transparecer seu maior mérito: não se dedicar exclusivamente à recuperação – clínica e emocional – da vítima.

Assim, se Para Sempre possui algum frescor narrativo, esse é conduzir seu foco até Leo, que não apenas tenta reconquistar alguém que nem mesmo se lembra dele, mas que também precisa conviver com o desdém da família da esposa, a incômoda presença do ex-noivo de Paige (de quem ela se recorda até com certa alegria), sua mudança repentina de comportamento (de artista plástica independente a estudante de Direito rica e mimada) e as dificuldades financeiras enfrentadas. É ele quem está perdido.

O habitualmente seguro Channing Tatum desempenha a tarefa com qualidade, alternando-se entre a confiança e a determinação em cuidar da garota e a descrença nos efeitos de seus esforços. Rachel McAdams, por sua vez, também é competente ao construir Paige como uma figura ambígua, que parece não se dar conta de que há algo a recuperar – e que por vezes se encanta pela possibilidade de tentar retomar sua vida pré-Leo sem cometer os mesmos equívocos de outrora – suas limitações aparecem, contudo, em momentos de maior intensidade, como quando a personagem confronta sua mãe no jardim.

O longa é falho, ainda, na construção dos personagens secundários: os amigos de Leo são meros figurantes (e até mesmo sua função de alívio cômico é mal realizada), e sua colega de trabalho (Tatiana Maslany), que parece ganhar importância ao longo da trama mesmo tendo sido apresentada tardiamente, jamais chega a ser determinante para a vida do rapaz.

O mesmo vale para a família da garota. Há um esboço de arco bastante frágil para o pai (Sam Neill), um homem egoísta e esnobe, mas que se desenvolve, sem nunca convencer, como alguém legitimamente preocupado com a filha, e a mãe (Jessica Lange), que surge sem vontade própria e acaba se revelando devota ao marido e disposta a se sacrificar por seu casamento. Ainda mais problemático é Jeremy (Scott Speedman), ex-noivo de Paige: tão detestável e sem nenhuma característica positiva, o personagem nos impede de compreender o porquê de a garota se interessar novamente (ou de jamais ter se interessado) por ele, ainda que ela mesma tenha se tornado (ou voltado a ser) uma jovem absolutamente desinteressante.

É igualmente problemática a necessidade exagerada em buscar formar coesão: o recurso à repetição de certos elementos(especialmente os votos de casamento de Leo e Paige), por exemplo, é usado sem propósito aparente em diversas ocasiões, gerando incômodo, graças à óbvia relação dos pontos que busca ligar explicitamente. E é ainda mais decepcionante perceber que, por vezes, o longa abandona a estratégia de dispersar fatos com simplicidade pela narrativa, empregada com sucesso em momentos como aquele em que vemos Leo deixar cair seu voto de casamento, mas retorna para buscá-lo.

Finalmente, incomoda a dificuldade enfrentada pelo filme em preparar com maior zelo seus pontos de inflexão. Muito embora o roteiro diga claramente acreditar no inesperado, a resolução dos conflitos soa artificial ou, no mínimo, fácil demais para situações apresentadas como tão complicadas. Tudo é resolvido num estalar de dedos: desde a decisão de Paige de seguir sua rotina com Leo, mesmo sem conhecê-lo, até a lembrança do porquê de ter deixado a casa de seus pais, há quatro anos. No fim das contas, o acaso, mesmo sendo acaso, não parece suficientemente crível. E assim, frente a um desfecho tão óbvio, todo o frescor percebido ao longo da projeção parece desperdiçado.

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The Vow (EUA, 2012). Comédia Romântica. Sony Pictures.
Direção: Michael Sucsy
Elenco: Rachel McAdams, Channing Tatum, Sam Neil, Scott Speedman.

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Categorias
Comédia, Críticas, Romance