CRÍTICA | Passageiros

Ação
// 04/01/2017
passageiros

Dilemas éticos são um elemento recorrente e fundamental de muitas das melhores obras da ficção científica. A questão de como o ser humano lida com as implicações e possibilidades do avanço tecnológico é um assunto tratado do clássico supremo 2001 – Uma Odisseia no Espaço ao recente (e excelente) Ex Machina, passando pela unânime série Black Mirror. O megablockbuster Passageiros não é diferente, e traz em seu cerne uma questão ética e moral ao redor da qual gira toda a situação proposta. E, no fim das contas, o tratamento irresponsável dessa questão frente a clichês e furos de roteiro típicos das aventuras mais comerciais de Hollywood é o grande pecado de um filme caraterizado por fotografia e apuro estético deslumbrantes, e boas performances do casal de protagonistas mais hypado do ano que acaba de se encerrar.

Dirigido pelo norueguês Morten Tyldum, de O Jogo da Imitação e do eletrizante Headhunters, o longa narra uma fatídica passagem da jornada da espaçonave Avalon, que transporta, à metade da velocidade da luz, mais de 5 mil imigrantes interplanetários da Terra em hibernação para a longínqua colônia Homestead. Por consequência de um mau funcionamento do sistema que o manteria adormecido ao longo dos 120 anos (!) de viagem, o engenheiro Jim Preston (Chris Pratt) é único tripulante acordado na impressionante embarcação estelar, tendo como única companhia o barman-androide Arthur (Michael Sheen).

Após mais de um ano vivendo sozinho – e já à beira da loucura –, Preston se vê diante da possibilidade de acordar algum de seus companheiros de viagem, afinal o ser humano é um animal social que necessita da convivência com seus semelhantes. De forma não inteiramente surpreendente, em vez de despertar um colega engenheiro para tentarem, juntos, resolverem o problema que lhes custará uma vida isolada em perpétua viagem espacial, o personagem de Pratt tira a jornalista e escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence) da hibernação para lhe fazer companhia. Os dois logo perceberão, no entanto, que o despertar do próprio Preston foi apenas um dos primeiros sintomas de que há algo maior de errado no funcionamento da Avalon.

A luxuosa espaçonave, aliás, é o maior destaque do filme, ao lado das divertidas e milionárias atuações de Pratt e Lawrence – ambos receberam, respectivamente, 12 e 20 milhões de dólares por suas performances. Com um design que parece uma mistura da Enterprise de Star Trek com a Endurance do clássico moderno Interestelar, a gigantesca Avalon singra uma igualmente impressionante retratação do espaço sideral, dotado de arrepiante profundidade. Questões gravitacionais e alguns trechos específicos da viagem são responsáveis por interessantes momentos de ação visualmente impecável e inovadora.

Conforme se aproxima da conclusão, contudo, o longa passa a abusar mais e mais da paciência do público, enfileirando clichês e “reviravoltas” que desafiarão a suspensão de descrença até do espectador mais dedicado. O longa, que esteve em variados estágios de produção por quase dez anos, teve vários finais filmados, e isso fica evidente na colcha de retalhos que são os minutos finais. A questão ética fundamental da obra recebe um ponto final pouco coerente e até ofensivo, e a parte científica da ficção vai pras cucuias. Resta, como em tantos casos de potencial desperdiçado da toda poderosa indústria do entretenimento norte americana, a embalagem visual de tirar o fôlego e os irresistíveis protagonistas. O conteúdo de questionamento e reflexão característicos do bom sci fi, no entanto, ficam para outro dia.


Passengers (EUA, 2016). Ficção científica / Drama. Columbia Pictures.
Direção: Morten Tyldum
Elenco: Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen, Laurence Fishburne

5-pipocas

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