CRÍTICA: Piranha 3D

Críticas
// 21/10/2010

O terror trash encontrou uma ótima maneira de voltar aos holofotes com o 3D. Vendo no público uma preferência por filmes que assustam mais pelo teor da história do que pelas cenas chocantes, o gênero se alia ao 3D para resgatar o impacto visual com muito sangue de mel e groselha. Piranha 3D, que estreia amanhã, não pensou duas vezes e caiu no mau uso da tecnologia em evidência.

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Piranha 3D
por Marcello Morgan

Atenção, leia as informações a seguir antes de prosseguir com a leitura:

Nunca, jamais vá pescar em um lago reservado para pesquisas do período Paleolítico, sendo que sua entrada é proibida para o público. Caso cometa o erro, jamais leve cerveja com você, porque se você derrubar a garrafa dentro da água e ela aterrissar no fundo do lado, você pode causar uma atividade sísmica que abrirá uma fenda no chão, formará um rodamoinho e liberará a entrada para um lago subterrâneo com piranhas pré-históricas esfomeadas. Se você não deseja esta morte dolorosa, não repita as ações do pescador Matt Boyd. Afinal, é realmente muito provável que os acontecimentos acima tenham um mínimo de verossimilhança. Uma coerência que pode ser facilmente deixada para o pontapé de um roteiro que não teria nada a melhorar depois disto.

O novo filme de Alexandre Aja (Espelhos do Medo) nos leva para uma curtição muito “quente” e perigosa de um jovem chamado Jake Forester (Cody Kennedy), que deixa seus irmãos sozinhos em casa para ajudar Derrick, um diretor de filmes pornô; simultaneamente, há Julie Forester (Elisabeth Shue), mãe de Jake e xerife também local, que junto a um grupo de pesquisadores está fazendo uma busca no lago para descobrir o que aconteceu com Matt Boyd. O filme, incapaz de entrelaçar as histórias, se dividide em dois segmentos para, depois, se tornar único, mostrando os acontecimentos durante o dia dos personagens – filho e mãe –, separadamente, já que eles não se encontram antes da grande carnificina. Jake e o grupo de produção do filme vão para um espaço afastado do lago no intuito de gravar cenas de nudez regadas a álcool, até Jake avistar seus irmãos naufragados em uma pequena ilha. Enquanto isso, Julie e o grupo de pesquisadores descobrem um lago/caverna subterrâneo, pronto para ser explorado por dois pesquisadores. Não há necessidade de citar o ocorrido.

Durante todo o filme, nada além do óbvio se passa: pessoas, invariavelmente, morrem. Banhistas festeiros que desobedecem aos policiais, claro, acabam por se tornar o foco mais atraente das piranhas. São provavelmente as mortes mais chocantes – o único quesito em que Piranha 3D acerta em cheio. Corpos flutuando na água, pessoas atropeladas por barcos, decepações e restos mortais. Os poucos que conseguem ser salvos não escapam de inúmeros ferimentos pelo corpo nos membros que lhe restam deles. A equipe de maquiagem e efeitos visuais compensa no fluxo de sangue aquilo que a história nem sequer cogita trazer, espelhando um ótimo trabalho técnico cuja eficácia é o suficiente para que nada soe falso, estragando a única chance de sobrevivência do longa. Um êxito que não se repete com as protagonistas.

As piranhas computadorizadas são o pior resultado do filme, rivalizando com a trama. Revendo por questões gráficas, é impossível estabelecer qualquer comparação com seja lá que tipo de ilustração de peixes pré-históricos. Apesar disto, os movimentos rápidos e os planos fechados dos ataques aos banhistas revezam o sustento das sequências em questão, nas quais o sangue e os dentes são os aliados da velocidade, mascarando as falhas e trazendo ao primeiro plano toda a comicidade e angústia dos reles figurantes. Comicidade, sim, uma vez que os ruído das mandíbulas assassinas se confundem com o som das gargalhadas pelas mortes non-sense.

Sim, muitas risadas vão correr pela sala de exibição, uma vez que o humor quase pode ser acrescentado como gênero secundário de Piranha 3D. Unindo ao fato de que as piranhas não estão muito perto de serem assustadoras ou realistas, a diversão pelos métodos de ataque só remetem a uma palavra do vocabulário: tosco. Porque “rídiculo” ou “rude” são verbetes muito lapidados rebaixá-los em uma descrição de tais passagens. Não há forma de segurar o riso ao assistir a uma mulher sendo engolida por uma “bóia” ou quando uma piranha cospe um pênis na direção da tela. Tudo é tão exagerado e inacreditável que será impossível não se entregar a diversão.

Em um 3D em que órgãos sexuais decepados, seios, vômito, cerveja, piranhas e mais um monte de objetos são atirados aos olhos do espectador, a curiosidade só resta para que “adereço” será oferecido a seguir. O maior problema da tecnologia 3D é o seu uso. É preciso ser bem feito e proposto nos momentos certos. Como um voto de confiança, poderia-se pensar que pelo fato de ser este o primeiro filme, possam até melhorar futuramente, basta não gravar um plano visto através de uma grade e passar isso para o 3D, são perceptíveis os defeitos da terceira dimensão mal sucedida. Inesperadas sejam talvez as atuações do elenco. Contrariando a expectativa de terrores trash, nos quais os fraquíssimos atores seriam fracos não fariam nada muito além de caretas, correr e gritar (e bem mal, diga-se de passagem), em Piranha 3D há um mínimo de capacidade em transmitir os sentimentos com facilidade em momentos chave.

Nada muito diferente dos terrores atuais, Piranha 3D é um filme estilo comédia besteirol, mas com o suspense e o terror. O que não deixa de conter muitos dos clichês dos filmes em que o monstro quase pega a garotinha, por exemplo, mas consegue atingir o que queria. Assusta e é cômico na hora certa. Expectativa zero e estômago forte para aturar a nojeira que vem pela frente são os únicos requisitos que você deve preencher ao entrar na sessão.

Piranha 3D (EUA, 2010). Terror. Imagem Filmes.
Direção: Alexandre Aja
Elenco: Elisabeth Shue, Adam Scott
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Categorias
Críticas, Terror