CRÍTICA: Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas

Aventura
// 18/05/2011

“Que tal novas histórias de piratas?”. Essa foi a ideia sugerida por Johnny Depp na apresentação que a Disney Pictures fez em 2009, deixando clara a ideia do estúdio de promover um novo longa da franquia iniciada em 2003 pelo produtor Jerry Bruckheimer e que se transformou em um dos maiores sucessos do cinema. Mas “nova” não é bem a melhor definição para Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas. O filme repete exatamente a receita dos três longas anteriores, mas em doses bem menores. Há, pelo menos, um foco maior no único astro do título: Jack Sparrow.

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Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas
por Arthur Melo

Os tempos de pirataria estão acabando. Manter o ofício está cada vez mais difícil. Jack Sparrow (Johnny Depp) sabe disso, ainda que sua residência governada pelo Mickey não tenha aberto os olhos a este fato. O que conduz ao erro Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas.

Na nova trama, Jack Sparrow precisa reunir uma tripulação e se apoderar de qualquer navio (agora que já não tem mais o seu precioso Pérola Negra) para chegar à Fonte da Juventude antes da Marinha Espanhola. Para isso, irá às últimas consequências, como se “aliar” ao temível Capitão Barba Negra (Ian McShane) e se submeter às ordens de um antigo amor, Angelica (Penélope Cruz). O que distancia Navegando em Águas Misteriosas (qual o problema com a tradução literal para “Marés Estranhas”? Soa tão melhor…) da trilogia anterior é a estruturação do enredo. Uma questão que traz melhorias para o andamento da trama – menos confusa – mas que dá margem para seu desgaste ao longo do próprio filme.

Agora, os roteiristas Terry Rossio e Ted Elliott tiveram de adaptar a sua vontade às necessidades da produção. A quarta aventura de Jack Sparrow é, em todos os aspectos, um produto da comparação com os longas anteriores. Em A Maldição do Pérola Negra (o primeiro filme), o trunfo estava em uma história divertida aliada a bons efeitos visuais e a atuação de Johnny Depp. Em O Baú da Morte, há o deslumbre da computação gráfica, visível a cada quadro da trama. Trama esta que já não era muito fácil de compreender de onde ela surgiu. Em No Fim do Mundo a saga praticamente naufragava em um megashow de pirotecnia sem freio que tentava a todo custo prender o espectador a um roteiro que não fazia o menor sentido. Como saldo, uma trilogia bilionária território de críticas negativas e que cuja apreciação além do primeiro filme só recai sobre um público mais despreocupado. Navegando em Águas Misteriosas é o oposto do exagero que foi o terceiro longa e um insucesso em reverter a situação da série aos (só um pouco) mais exigentes.

Saem as inúmeras manobras computadorizadas e entram em igual número as evasivas e escapadas de Jack Sparrow. Limitado por um orçamento bem menor (o passo número um da Disney para evitar o transtorno que foi No Fim do Mundo, cuja produção começou sem nem ao menos o fim ser pontuado), o roteiro se resume a contar a viagem bucaneira entre Londres e a Fonte da Juventude. Para construir a narrativa, o longa mescla novamente conceitos dos filmes de aventura com fantasia (uma mistura que, ao menos, é acertada na dosagem desde o primeiro filme) para adornar a trama. O resultado é uma história simples, sem muitas saídas, que se estende sem necessidade só para dar mais espaço para Jack esticar as pernas e se digladiar com um punhado de tratantes enquanto é capturado e escapado várias vezes. Sem mencionar as tantas trocas, barganhas e malabarismos com objetos. Insistências essas de falta de criatividade que cansam só pelo fato de estarem acontecendo no quarto filme seguido.

Perdendo com um roteiro pouco atraente, espera-se que, em algum quesito extra, tudo isso seja compensado, como todo filme ruim popular da geração atual hollywoodiana. Não. Os efeitos visuais, a exemplo, estão lá, sim, bem mais tímidos, pouco frequentes e usados apenas quando necessários ao desenvolvimento da história. Mas mínguam em sua companhia as divertidas empreitadas mirabolantes de Jack Sparrow que só um espetáculo digital poderiam proporcionar. Agora, sequer o público menos exigente tem o que esperar. Nem mesmo a Direção de Arte teve meios de progresso. Apesar da beleza de algumas composições, tudo está muito distante de embasbacar como em O Baú da Morte e No Fim do Mundo. O mesmo ocorre com uma maquiagem menos detalhista. E onde o dinheiro não influi, amarga a decepção de qualquer maneira. A trilha sonora de Hans Zimmer é um claro escorregão no impecável trabalho quem vem realizando desde 2007. A composição é só referências ao proposto por Klaus Badelt para o primeiro filme, repetindo vários refrões em um único emendo a ponto de causar uma confusão tão grande que destoa de cenas onde todo aquele arranjo não era necessário. No único ponto em que inova, a inclusão dos violões da dupla Rodrigo y Gabriela, se torna batido e caricato quanto ao timbre latino. Sobra para o 3D (realizado durante as filmagens) chamar alguma atenção. E quase o faz. Apesar de inúmeras sequências à noite, a qualidade da captura e tratamento da imagem é suficiente para fazer dos óculos necessários durante a projeção, criando uma sensação aprofundamento satisfatório.

Representando um mínimo de salvação, as falas e indagações em público de Jack Sparrow são um sopro de vida em Rossio e Elliott, conseguindo superar em certas ocasiões qualquer coisa já mencionada pelo personagem (vide a questão lógica levantada por ele ante o embate do clímax). E mesmo que Penélope Cruz tenha provado que fez muito mal deixando de protagonizar Melancholia para estar na produção do aqui inexpressivo Rob Marshal, há química suficiente com Johnny Depp para sustentar uma aventura que pela primeira vez é totalmente erguida pelo ex-Capitão do Pérola Negra (graças ao sumiço de cena do chatíssimo casal outrora vivido por Keira Knightley e Orlando Bloom, que conseguiam arrastar ainda mais a trama e abocanhar preciosos minutos de Sparrow em tela – que é aliás o único e verdadeiro atrativo da série).

Revertendo toda a atenção para o personagem mais carismático, Piratas do Caribe percebeu depois de três filmes qual a sua moeda de troca. Jack pode sustentar sozinho a franquia por bastante tempo. Johnny Depp, inclusive, está disposto a isso. Mas ainda não é o bastante. É extremamente necessário que o Capitão tenha o direito já conquistado de explorar outros mares sem obrigatoriamente cair no enxoval de reciclagem barata. Afinal de contas, Navegando em Águas Misteriosas é só a primeira onda de uma maré cheia que inundará os cofres da Disney até o final da década. E salve-se quem puder.

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Pirates of the Caribbean: At Strange Tides (EUA, 2011). Aventura. Walt Disney Pictures.
Direção: Rob Marshall
Elenco: Johnny Depp, Penélope Cruz, Geoffrey Rush, Ian McShane.
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