CRÍTICA: Planeta dos Macacos: A Origem

Críticas
// 25/08/2011

A princípio, foi meio chocante para alguns começar a descobrir que, depois de uma completa porcaria lançada por Tim Burton em 2001 e quatro filmes muito fracos que deram sequência direta ao original Planeta dos Macacos, alguma coisa boa poderia surgir daí. De fato, a lógica de não termos mais atores vestidos como chimpanzés, e sim animais gerados por computação gráfica, melhora o longa pelo menos na questão visual. Mas, a bem da verdade, é que Planeta dos Macacos: A Origem é muito bem amarrado e estruturado, mesmo que você não concorde com os argumentos dele.

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Planeta dos Macacos: A Origem
por Arthur Melo

Vez ou outra, é interessante que um princípio seja contado para justificar fatos sabidos. Não é o caso, entretanto, da série Planeta dos Macacos, cujo intuito em uma nova produção está mais em utilizar um título de peso para solidificar uma nova franquia com o público atual do que dar embasamento para os filmes iniciados no final da década de 60. Planeta dos Macacos: A Origem é um bom filme. Ótimo em alguns aspectos. Mas não prova ser necessário para a série.

No filme, o cientista Will Rodman (James Franco) está em busca da cura para o mal de Alzheimer. Após a realização de alguns testes de laboratórios em macacos, uma de suas fêmeas sofre um distúrbio e é morta pela equipe de segurança. No entanto, a chimpanzé estava grávida e seu filhote, posteriormente chamado de César (Andy Serkis), nasce com as devidas modificações genéticas causadas pelos testes do medicamento feitos em sua mãe. À medida que cresce, César se torna mais inteligente e ciente da capacidade de destruição humana.

Bem escrito, o longa utiliza boa parte de seu desenrolar tentando estabelecer uma firme relação entre Will e César. E consegue. À medida que o chimpanzé evolui, o filme acompanha entregando uma clara desenvoltura em expor todos os mecanismos que culminam nos acontecimentos seguintes. Nesse passo, descreve um belíssimo crescimento físico e intelectual de César casados, justificados por um estreitamento familiar e ilustrados por excelentes usos de elipses.

Mesmo com uma narrativa firme, Planeta dos Macacos: A Origem traz argumentos que podem soar piegas ou falhos. A já exausta canção da natureza que mais cedo ou mais tarde revida a exploração humana é entoada mais uma vez aqui. E, mesmo com tantas possibilidades imagináveis para serem aplicadas como estopim de uma revolução símia, é esta tão politicamente correta que cai no uso. Isto só colabora para que as propostas do já desenvolto César sejam entendíveis, sim, mas longe de aceitáveis. A geração do caos – mesmo sabendo que esta era a única alternativa dada a uma mente evoluída em relação às demais de sua espécie e que tinha como arma apenas os seus iguais – pode resultar em ótimas cenas, mas não vale como um meio justo de alcançar objetivos.

Por outro lado, assim como o cientista Will elevou suas questões pessoais a um nível que comprometesse sua ética profissional (mesmo que em situações futuras ele se mostrasse mais moral e racional do que seus superiores), César também foi influenciado por problemas muito próprios. Sua vivência entre os seres humanos provou que há mais valor de impacto em casos isolados do que em anos de atenção e afeto, modificando sua visão acerca da nossa raça.

Planeta dos Macacos: A Origem sem querer toca numa questão importante. No cinema, estamos acostumados a reverter a nossa moral em favor daquele personagem que se mostra o mais vulnerável. A bola da vez é César. A narrativa, como em qualquer filme, está disposta a dar um olhar totalmente parcial do diretor, o que contribui para acreditarmos que a ideia de tratar um chimpanzé dentro de uma área residencial é um ato de amor e nobreza. Seria mesmo? Poderíamos, então, julgar como amoral um homem que tenta defender sua família ao se deparar com a presença de um animal silvestre (e potencialmente perigoso) no jardim de sua casa, próximo de suas crianças? Ou, ainda, por se irritar ao ver alguém manobrando o seu carro sem qualquer controle? Se a resposta for afirmativa, então podemos colocar a nós mesmos como mesquinhos por permitirmos todos os dias que tantos animais sejam expostos a experiências das mais diversas para encontrarmos a cura dos males que nos afligem. Quantos se dispõe a impedir este tipo de ação e quantos dariam apoio a uma revolução violenta destes animais? O quantitativo destes grupos certamente seria bem próximo (e ínfimo).

Mas, como a disposição em ser convencido pela história é sempre maior, se torna mais fácil ceder ao desespero de César do que se por no lugar de quem o filme aponta como arrogante. E também isso é fruto do bom trabalho tanto de James Franco quanto de Andy Serkis, principalmente este. Mesmo já tendo provado extrema habilidade em convencer a plateia sob camadas de computação gráfica, Serkis chega desta vez a um padrão muito maior de persuasão. Mas nada chocante ou que mereça uma indicação certa a prêmios. É um trabalho muito bom, sem dúvida, mas nada arrebatador. A computação gráfica responsável pela digitalização do ator, por sua vez, se sai muito melhor na emulação de expressões faciais do que quando os macacos correm ou saltam por aí, visivelmente computadorizados pelos movimentos e, em ocasiões raras, por falta de textura. Surpreende ainda menos só por ser uma tecnologia bastante conhecida há quase uma década.

Ainda que sob argumentos de valores diferenciados de acordo com a perspectiva do espectador, Planeta dos Macacos: A Origem atinge um resultado louvável. Apesar dos pesares, a trama é bem conduzida e se desenvolve muito bem. Mas tem em sua existência um ar de neutralidade. Não fosse pelo título, estaria distante de estabelecer uma relação com o filme de 1968, cuja história tem sérias diferenças. Ao final, soa como um longa que, por melhor que seja (e realmente é), vem do nada e estaciona em lugar algum. Cria a essência de um ótimo personagem, mas conflita com informações previamente dispostas. Agora, se começou como um filme que certamente não havia necessidade em existir, terminou como um conto que exige uma continuação. E a julgar pela qualidade deste, é uma boa coisa a se esperar.

 

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Rise of The Planet of the Apes (EUA, 2011). Ficção Científica. 20th Century Fox.
Direção: Rupert Wyatt
Elenco: James Franco, Andy Serkis, John Lithgow, Freida Pinto
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