CRÍTICA | Planeta dos Macacos: O Confronto

Ação
// 23/07/2014

Com um orçamento substancialmente maior e efeitos visuais compatíveis com este investimento, Planeta dos Macacos: O Confronto dá continuidade à franquia de ficção científica provando que até mesmo um roteiro com tantas arestas e chances de autossabotagem pode dar origem a um filme surpreendentemente bom.

Planeta dos Macacos: O Confronto
por Eduardo Monteiro

Por mais que os humanos e os símios de Planeta dos Macacos: O Confronto pareçam dividir equivalentes habilidades mentais, há algumas diferenças básicas e claras que separam os dois grupos: os primatas, em particular, surgem como seres em fase de adaptação aos avanços cognitivos conquistados no filme anterior (apenas uma década se passou desde que pesquisas de combate ao Mal de Alzheimer conferiram inteligência e lucidez a suas cobaias) e que se organizam em comunidade de forma ainda bastante rudimentar, preservando costumes de sua predecessora fase selvagem. Por essa razão, é suficientemente tolerável que o macaco com tendências psicopatas Koba (Toby Kebbell) desencadeie uma grande intriga a partir de motivações extremamente primitivas – o que não pode ser dito, por outro lado, sobre a contribuição do humano e imbecil Carver (Kirk Acevedo) para os conflitos, já que tamanha estupidez vindo de uma espécie dominante e supostamente evoluída não é tão fácil de engolir assim.

Escrito por Mark Bomback e pelos mesmos Rick Jaffa e Amanda Silver de Planeta dos Macacos: A Origem, O Confronto avança 10 anos em relação ao filme anterior e nos leva a um cenário pós-apocalíptico em que boa parte da humanidade foi dizimada por uma implacável gripe símia. Durante uma expedição motivada pela existência de uma usina hidrelétrica desativada nas redondezas, um pequeno grupo de humanos imunes à doença e oriundos de uma comunidade sitiada de São Francisco acaba entrando no território do bando de primatas liderado pelo pioneiro Cesar (Andy Serkis) e afetando a harmonia daquela população. A rispidez do encontro (contribuição, como não poderia deixar de ser, do tal Carver, um babaca confesso), porém, altera os ânimos de ambos os grupos: de um lado, os macacos prometem uma resposta violenta caso seu território seja invadido novamente pelos humanos, que por sua vez planejam secretamente um genocídio caso os símios dificultem o acesso de técnicos à tal usina, que promete solucionar os problemas energéticos daquela comunidade.

Dirigido por Matt Reeves (Cloverfield – Monstro, Deixe-me Entrar), Planeta dos Macacos: O Confronto conta com um dos piores usos de 3D da safra recente: embora tenha sido rodado originalmente com a tecnologia, o filme não possui um plano sequer cujo efeito tridimensional chame particularmente a atenção – fruto das escolhas equivocadas (considerando exclusivamente o 3D) de Reeves, que adota uma profundidade de campo pequena, mantendo e alterando o foco entre seus personagens em boa parte da projeção. Por outro lado, as decisões narrativas do cineasta são felizes em sua maioria: é extremamente estimulante que uma surperprodução desse porte ouse adotar um ritmo mais lento e dar atenção especial ao desenvolvimento da trama, em vez de submeter o espectador à histeria e ao frenesi de sequências de ação excessivas e constantes. Da mesma forma, as discussões temáticas possibilitadas pela premissa da franquia também não são deixadas de lado pelo roteiro, como, por exemplo, ao destacar a importância da comunicação e da empatia como contrabalanceamento à racionalidade.

Tecnicamente, como não poderia deixar de ser, Planeta dos Macacos: O Confronto é ainda mais interessante e eficiente que o filme anterior: com raras exceções, os modelos digitais dos primatas são incrivelmente realistas, movem-se com absoluta fluidez e exibem uma gama de expressões coerente com a proposta da produção. Nesse sentido, seria injusto economizar elogios ao trabalho de Andy Serkis, cujas sutilezas são registradas com perfeição pelo performance capture e transformam Cesar na incontestável figura mais interessante em cena. Favorecendo o investimento financeiro nos aspectos técnicos, o elenco é notavelmente econômico, desde a escolha do ascendente Jason Clarke para o papel humano principal até a participação do veterano Gary Oldman, que, pela milésima vez (a segunda apenas nesse ano, como Robocop não me deixa mentir), dá vida a uma figura de autoridade secundária sujeita a grandes doses de pressão.

Desperdiçando eventualmente alguns minutos com a irrelevante relação familiar do trio vivido por Jason Clarke, Keri Russell e Kodi Smit-McPhee, Planeta dos Macacos: O Confronto sequer promove um avanço muito expressivo no arco geral da franquia, mas é bastante eficaz e cuidadoso em suas singelas passadas – e, se a sorte continuar a nosso favor, podemos esperar muita coisa boa do que ainda está por vir.

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Dawn of The Planet of The Apes (EUA, 2014). Ficção-Científica. 20th Century Fox.
Direção: Matt Reeves
Elenco: Gary Oldman, Andy Serkis

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