CRÍTICA | Power Rangers

Ação
// 21/03/2017
power rangers

Não é nenhuma novidade que o Cinema, como indústria, vive uma já longa fase de poucas ideias originais. E o consumo imparável de materiais vindos de outras mídias restringe os estúdios a poucas opções de novas franquias. É por isso que tende-se a espremer a última gota do lucro potencial com spin-offs e sequências injustificáveis (a não ser pela arrecadação com produtos licenciados). Quando uma galinha dos ovos de ouro se vai, vem o desespero. Esse foi basicamente o ocorrido quando a Lionsgate percebeu que seu êxito com Jogos Vorazes estava perto do fim, levando a uma sucessão de fatos que transformou Power Rangers em uma aposta necessária (grande leva de brinquedos, bilheteria moderada). Um recurso talvez abaixo do plano A, mas que não por isso significaria um mal resultado. E, que bom, não significou.

Desde que o anúncio foi feito, lá em 2014, Power Rangers resistiu a uma série de duras críticas só porque um estúdio pretendia levar aos cinemas a adaptação de um seriado infantil ruim. Convenhamos, por mais que se goste dos heróis em collant, tudo se baseia na nostalgia e na emoção capturada à época pelo olhar infantil que não enxergava o quão ridículo o programa era (e ainda é). Mas se colocarmos a mão na consciência por um minuto, é bem fácil entender que, se tratando de linguagem cinematográfica, é muito mais plausível adaptar a trama de cinco jovens que usam trajes especiais para lutar contra uma invasão alienígena do que um grupo formado por um humano, uma alienígena verde, um guaxinim falante e uma árvore ambulante. Se deu certo pra este, o que impediria de funcionar pra aquele? Em teoria, só o seu preconceito e implicância sem argumento. Ou só porque acredita-se que apenas a Marvel sabe o que faz.

O novo filme dos Power Rangers é aquele gostoso tapa na cara de quem sempre botou fé nas atuais produções DC Comics e ridicularizou a ideia dos cinco super-heróis tutelados por Zordon chegarem às telas. Mas, principalmente, é aquele lembrete de que devemos, sempre, deixar para elogiar ou criticar uma produção apenas depois de assisti-la, pois mesmo contra a expectativa da grande maioria, Power Rangers funciona muito bem. E isso só aconteceu por dois motivos: o estúdio precisava garantir um bom produto para sustentar a existência de uma nova franquia e a equipe criativa realmente teve boas ideias.

Como se tivesse pesquisado o público não-fã para entender tudo o que o distanciava do seriado, a proposta atual some com todas as maiores gafes alienadas: os adolescentes perfeitos e queridinhos da escola, o figurino formado por roupas nas mesmas cores que suas morfagens, a transformação que dá plenos poderes e conhecimento de batalha em um segundo, a formação do Megazord diante do inimigo (como se ele fosse cessar seu ataque para esperar que todas as peças se unam – me poupe!) e a ameaça que, mesmo alienígena, é totalmente humana e utiliza trajes com inscrições e moldes da cultura terráquea (?). Cai o nonsense e entra a verossimilhança. Mas o que sustenta o longa não são suas decisões conceituais, e sim sua trama. Power Rangers segue a via contrária da zona de conforto dos blockbusters e só entrega a ação depois de se permitir desenvolver seus personagens. Não foi por sorte que entregou um dos super-heróis mais carismáticos vistos em muito tempo com Billy Cranston (RJ Cyler), o Ranger Azul. Dentro do espectro do autismo, Billy pode até ser um belo de um alívio cômico, mas a sua graça não está em ridicularizá-lo, mas sim em cativar-se com a sua inocência. Chega a ser óbvia a preocupação do roteiro em estabelecer o entrosamento dos personagens enquanto constrói a empatia com o público a ponto de ser difícil não torcer pelo sucesso dos cinco jovens na tentativa (e erro) de se tornarem Rangers. E a química do elenco é um alicerce a essa proposta.

Ao lado da via que exclui as galhofas do seriado original, o longa reestrutura o cerne mais interessante de sua mitologia. Não são poucas as mudanças (elas vão muito além dos trajes), afinal, não só os cinco adolescentes ganharam profundidade, como Zordon (Bryan Cranston) se transformou em um mentor cuja frustração é o símbolo de seu tom de urgência, ainda que Rita continue tão vazia quanto na TV. Mesmo com o desempenho ok de Elizabeth Banks, não há uma fagulha de suas motivações além do carimbo da ganância. Pra piorar, suas cenas isoladas são um dos maiores defeitos do filme, fugindo do tom do próprio longa e caindo no melhor que Sam Raimi propunha em suas obras trash somado a um escopo bem infantiloide. Um panorama que muda bastante quando ela passa a interagir com os Rangers (como a rápida mas eficiente luta corporal com eles desmorfados). O erro, contudo, retorna em parte das cenas dos seus Bonecos de Massa, que oscilam entre o bom uso dos efeitos visuais limitados com expressões e ações que muito lembram a cafonice da TV, em um embalo que esvazia severamente o impacto do clímax e alcança a sofrível última cena de Rita Repulsa.

Os contra-balanceios ainda se estendem à técnica. Mesmo com a ótima fotografia que proporciona cenas elogiáveis (como o acidente de carro em uma só tomada na abertura do filme ou o retorno dos Rangers ao Centro de Comand após o primeiro confronto) e a Direção de Arte simples, mas acertada, o visual do longa é bastante comprometido no combate final. É evidente que devido ao orçamento limitado (numa estratégia financeira idêntica a Jogos Vorazes – ou seja, uma provável continuação terá um orçamento maior) o CGI dos zords foi comprometido, mas a qualidade é bastante recompensada com um Megazord que surge devendo muito pouco aos Transformers de Michael Bay.

Power Rangers é um acerto alcançado por estratégia. O estudo do que deu certo nas produções da Marvel está ali, bem como o estudo daquilo que precisaria ser dizimado de sua essência. E mesmo que sua trama não seja das mais originais e patine em uma penca de clichês do gênero, teve a mínima coragem pra arriscar uma super-heroína lésbica e um protagonista autista liderados por um desordeiro fichado, expondo-os ao erro e à própria raiva, ora cultivando decisões que jovens não são capazes de tomar, ora os embebedando em dramas que, mesmo sendo mais uma leva de clichês, são, de fato, adolescentes. Mas é preciso cuidado. Em um possível segundo round, sua falta de foco em com qual audiência quer conversar precisa ser ajustada e o orçamento, por favor, precisa de um enxerto. Daenerys sabe que dragões custam muito, muito caro.


Power Rangers (EUA, 2017). Ação. Lionsgate.
Direção: Dean Israelite
Elenco: Dacre Montgomery, RJ Cyler, Becky G, Bryan Cranston, Elizabeth Banks, Naomi Scott, Ludi Lin

7-pipocas

 

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