CRÍTICA: Preciosa

Críticas
// 10/02/2010

Depois de causar frisson em festivais de cinema como os de Sundance e Toronto e receber seis indicações ao Oscar (incluído melhor filme) o drama Preciosa chega ao Brasil amparado pela boa recepção da crítica internacional e por nomes de peso como o de Oprah Winfrey, que faz as vezes de produtora do longa. Na briga pelo maior prêmio do cinema, quais as chances de um filme declaradamente triste arrebatar a estatueta? Confira.

Preciosa
por Matusael Ramos

Hollywood sempre acolheu de braços abertos personagens cujas histórias, de uma forma ou de outra, arrancassem lágrimas da multidão. De Scarlett O’Hara a Cinderela, passando por Celie (de A Cor Púrpura), o público mostrou que sua aceitação estava intimamente ligada ao quão infelizes eram suas heroínas. Os tempos mudaram e com eles a concepção de sofrimento. A madrasta má de outrora foi substituída por uma mãe opressora e violenta e o amor incorrespondido (ou qualquer variante dele) simplesmente deixou de existir.

Adaptação para o cinema do romance Push da escritora americana Sapphire, Preciosa, considerado o grande filme independente da temporada, conta a história de Claireece Precious Jones, uma adolescente negra, obesa e analfabeta que descobre, aos 16 anos, estar grávida pela segunda vez do próprio pai. Não obstante, Precious é com frequência agredida pela mãe (Mo’nique) que teme, acima de tudo, a suspensão do seguro social que recebe. A situação parece melhorar quando a garota é expulsa do colégio em que estuda e encaminhada para uma espécie de escola alternativa, onde além de conhecer outras adolescentes em dificuldade, recebe o apoio da educadora Miss Rain (Paula Patton, um encanto). Mariah Carey, convincente, integra o elenco como a assistente social cujas tentativas de ajuda, a princípio rejeitadas por Preciosa, acabam enfim, tornando-se desnecessárias.

Os méritos de Precious são muitos. Filmado em apenas 5 semanas em meio às limitações de um orçamento de 10 milhões de dólares (baixo para os padrões hollywoodianos), o filme prima sobretudo pelas atuações, característica essa predominante nos trabalhos do diretor Lee Daniels, que costuma dar margens ao improvisos, de modo a garantir emoções autênticas.

A estreante Gabourey Sidibe, selecionada entre mais de 400 candidatas, empresta à personagem título toda a dúvida que, por força da imaturidade e sobretudo do medo, impede, num primeiro momento, que seus recorrentes sonhos deixem de ser apenas sonhos. Mesmo após anos de toda uma sorte de abusos, Precious não se vitimiza ou demonstra claramente sinais de raiva; como que se a frequência dos abusos eximisse aos poucos a monstruosidade por trás deles. Quase impassível, nesses momentos Precious se refugia em devaneios vibrantes onde é famosa, rica e desejada. Mas, conforme passa a sentir-se amparada por Miss Rain, a garota ganha forças e vê no filho que está por vir, o recomeço. A comediante Monique por sua vez, no papel da mãe inescrupulosa, recebe, tão logo faz sua primeira aparição em cena, o título de vilã – e o detém com êxito pelas quase duas horas seguintes de projeção. Suas cenas são literalmente, arrebatadoras – em particular aquela em que, com assustadora sinceridade, explica  à assistente social Weiss a razão do ódio alimentado por Precious.

Dizer que Precious retrata a vida de muitas jovens seria além de simplista, bastante precipitado. A personagem é demasiado singular e soma tantos problemas, todos eles tão complexos, que estabelecer correlações se tornaria uma tarefa delicada. Talvez aí resida a razão pela qual Precious não chegue a ser um filme inteiramente bom; como se tantos conflitos não coubessem em uma mesma história e ela, no final das contas, soasse exagerada. Não se trata necessariamente de uma questão de assimilação, mas talvez de limites. O fato é que, em Preciosa, o fardo é pesado demais para uma pessoa só. Ou para um filme só.

——————————
Precious: Basde on the Book “Push” by Sapphire (EUA, 2009). Drama. PlayArte.
Direção: Lee Daniels
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’nique, Paula Patton, Mariah Carey

Comentários via Facebook
Categorias
Críticas, Drama