CRÍTICA: Precisamos Falar Sobre o Kevin

Críticas
// 26/01/2012

Ao tratar de um tema polêmico e perturbador de forma pouco comum, Precisamos Falar Sobre o Kevin foge do melodrama e convida o espectador a tirar suas próprias conclusões sobre as causas e efeitos de uma tragédia e a refletir sobre as relações humanas em um dos níveis mais básicos: entre mãe e filho.

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Precisamos Falar Sobre o Kevin
Por Gabriel Costa

Dirigido por Lynne Ramsay (dos pouco conhecidos Morvern Callar e Ratcatcher) e com uma atuação impecável de Tilda Swinton entre seus grandes trunfos, Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme que incomoda. Ao acompanharmos a rotina da protagonista Eva, interpretada por Swinton, há uma sensação constante de inadequação, de que algo está fora do lugar. Mesmo sem apresentar julgamentos morais ou declarações explícitas do que seria “certo” ou “errado” – ou talvez justamente por isso –, a obra estimula um questionamento constante de motivações e sentimentos.

Baseado no livro homônimo de Lionel Shriver, o filme conta por meio de uma narrativa que alterna momentos do presente de Eva com flashbacks do nascimento e criação de Kevin (Jasper Newell na infância e Ezra Miller, de Bastidores de um Casamento, na adolescência), o primogênito de seu casamento com Franklin (John C. Reilly, com sua competência habitual). Logo fica claro que a protagonista não se sente confortável com a maternidade e tem uma relação conturbada com o filho, que nos dias atuais está na prisão. A causa? Ele foi o autor de um massacre escolar nos moldes de Columbine. A abordagem imparcial da direção de Ramsay deixa a cargo do público a reflexão Tostines: Kevin é mau porque a mãe não o ama ou a mãe não o ama porque Kevin é mau?

O desenvolvimento não linear da história, aliado à trilha sutil de Jonny Greenwood, do Radiohead, e à fotografia avermelhada de Seamus McGarvey, contribui para a inquietação crescente de Eva, Kevin e da própria audiência. O único que parece alheio aos conflitos é Franklin, cuja relação com o filho é diametralmente oposta à da esposa. O ingrediente final do desastre é Celia (Ashley Gerasimovich), a filha mais nova de ambos.

A própria natureza da trama, contudo, pode se revelar um empecilho. A história de Kevin e Eva é impactante, mas tão específica que impede a identificação do público em geral com o drama dos personagens. Em pelo menos um par de momentos, o comportamento excêntrico do rapaz parece ser destacado apenas para chocar. Miller está convincente como Kevin, mas o estilo psicótico adotado por ele é tão batido que as passagens do personagem criança acabam sendo mais marcantes. Por outro lado, a exploração constante das neuroses de Eva pode parecer redundante após bater na mesma tecla repetidas vezes. A narrativa convoluta, porém, não tira o brilho da interpretação de Swinton – que merecia, sim, ao menos uma indicação ao Oscar pelo papel.

Não falta intensidade a Precisamos Falar Sobre o Kevin. Os 112 minutos do filme obtêm sucesso em alfinetar sensibilidades, e fogem da tradição hollywoodiana de entregar as conclusões mastigadas ao espectador. Não há como evitar a sensação de alívio após a intencional “tortura” de Ramsay. Cabe a cada um decidir passar ou não pela experiência.

 

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We Need To Talk About Kevin (EUA/Reino Unido, 2011) Drama/Thriller. BBC Films/UK Film Council
Direção:  Lynne Ramsay
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller
Trailer

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Categorias
Críticas, Drama