CRÍTICA | Prometheus

Ação
// 14/06/2012

Trinta anos. E eis que Ridley Scott retorna para a franquia Alien (e a Fox possivelmente possa, assim, apagar da memória do público a existência de Alien Vs. Predador). Mas apesar do peso do nome do diretor, Prometheus ainda não é o grande retorno triunfal esperado. E os maiores problemas estão no roteiro e na má construção de seus personagens.

A crítica que você lerá a seguir contém spoilers (marcados pela cor branca, devendo o leitor selecionar o espaço “vazio” no meio do texto para ler, caso deseje). Clique em “Ver Completo” para conferir.

Prometheus
por Virgílio Souza

Questionamentos acerca da origem da vida (e, mais especificamente, da vida humana) permeiam a existência das civilizações há milênios e, há décadas, chegam aos cinemas sob as mais variadas formas. Em Prometheus, a procura pelo(s) criador(es) é transposta para o espaço, numa espécie de adaptação livre, aventureira e sci-fi do livro Eram Os Deuses Astronautas?, de Erich von Däniken. Os personagens são os dezessete tripulantes da nave-título, assim nomeada em lembrança ao titã grego que, incumbido de criar os homens, deu a eles o fogo dos deuses e acabou punido pela divindade suprema, Zeus. As referências imediatas são interessantíssimas. A execução da jornada, nem tanto.

No fim do século 21, os pesquisadores Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, competente) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green, regular) descobrem evidências de que a raça humana fora criada por extraterrestres: os mapas estelares comuns, encontrados em registros de diversas culturas antigas, são encarados pela cientista como um “convite”. Financiados pela corporação de Peter Weyland (Guy Pearce, condenado por um péssimo – e inexplicável – trabalho de maquiagem), partem em expedição até um planeta distante em busca de respostas sobre a origem de nossa espécie.

A equipe que se junta a eles é, claro, heterogênea. Estão ali reunidos o geólogo encrenqueiro Fifield (Sean Harris), o biólogo nerd Millburn (Rafe Spall), a coadjuvante inócua Ford (Kate Dickie), o capitão determinado Janek (Idris Elba), a fria e descrente Vickers (Charlize Theron) e o robô David (Michael Fassbender). Exceção feita a esse último e a Shaw, os tripulantes são, em níveis variados, absolutamente desinteressantes e mal construídos. A dupla formada por Fifield e Millburn, por exemplo, realiza um tipo falho e deslocado de alívio cômico – repare como nem mesmo os outros membros da tripulação parecem se importar quando os dois estão em perigo, perdidos em um terreno desconhecido. Vickers, por sua vez, se estabelece como uma figura dominante na nave da maneira mais óbvia possível: mulher forte, ela bebe vodca pura, fala com determinação e põe logo as cartas na mesa ao confrontar Shaw e Holloway – e nenhuma dessas características será, mais adiante, determinante para a narrativa.

Se, por um lado, o roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindelof é falho ao tentar criar empatia entre espectador e personagens, por outro, acerta ao pontuar elementos capazes de conferir senso de perigo e urgência à trama. Note como alguns dados são dispersos de maneira natural ao longo dos diálogos para transparecer a dificuldade da missão (falas como “a atmosfera daqui é composta por 71% de nitrogênio” dão o tom do perigo sem tanta obviedade). O problema, no entanto, é que os exploradores parecem ignorar tais informações, tomando decisões incompreensíveis, como tirar seus capacetes e aparelhos de oxigenação em um planeta recém-conhecido (e que é apresentado como um corpo imenso, possivelmente habitado e potencialmente perigoso). Assim, a proximidade entre os irresponsáveis em cena e os espectadores é ainda mais prejudicada: se nem eles se importam com a própria segurança, por que nós deveríamos?

O mesmo vale para a busca pela verdade sobre o surgimento (ou criação?) da vida. As referências religiosas e existenciais são tão pobres que a obsessão do longa em fazê-las permear toda a narrativa se torna um de seus problemas fundamentais. Aqui, vale notar como Shaw, uma cristã convicta que se dirige a Deus em praticamente todas as suas aparições (seu “Oh, God!” é repetido exaustivamente) e que parece buscar respostas apenas para confirmar sua fé e suas certezas (que só parecem certezas, de fato, no discurso), é frequentemente desafiada pelos demais personagens, em especial David, para que se construa como uma figura obcecada e que resiste a todas as provações, divinas ou não, colocadas em seu caminho. Ficasse o elemento existencialista no campo discursivo, ainda que de maneira rasa, não haveria tanto mal.

A ambição do diretor Ridley Scott (um cineasta que parece ter involuído quinhentos anos desde Alien – O 8º Passageiro), no entanto, vai por água abaixo quando o encontro confrontante entre criador e criatura  se torna literal, sobretudo a partir do terceiro ato do filme. Assim, faz com que Prometheus se assuma como o filme B que nunca havia ambicionado ser, muito embora os esforços interpretativos de Fassbender e Rapace sejam louváveis.

É uma pena, portanto, que a lógica visual elaborada pela equipe de direção de arte liderada por John King (de Star Wars: Episódio I) e pelo diretor de fotografia Dariusz Wolski (que se mostra versátil ao explorar um terreno distinto daquele visto em seus trabalhos anteriores, como Alice no País das Maravilhas e Piratas do Caribe), fundamental para a construção do clímax, seja desperdiçada em decorrência de uma série de opções narrativas infelizes de Scott. Nos instantes decisivos, a imensidão do planeta, apresentado na bela sequência de abertura do longa em tons de cinza que sugerem um ambiente frio e árido, dá lugar à onipresença em cena do interior da nave Prometheus, responsável por conferir uma importante sensação de claustrofobia, mas que não apresenta qualquer elemento que fuja do convencional.

A grande falha, nesse sentido, consiste em oferecer pouca liberdade para que se conheça o outro canto do universo, tão misterioso e revelador – algo que só deve acontecer na vindoura continuação do longa. Assim, ao restringir seu foco ao campo da discussão existencialista e às poucas (e pouco inspiradas) sequências de ação, Prometheus nos oferece apenas o breve e insuficiente contato com um planeta que, ao fim da projeção, permanece inexplorado. A jornada tão promissora parece desperdiçada não apenas pela inconclusividade de seus resultados, mas também pela sensação de vazio que dela resulta: no limite, o desapontamento da Weyland Corporation com o sucesso questionável da missão espacial por ela financiada acaba partilhado pelos espectadores.

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Prometheus (EUA, 2012). Ação. Ficção Científica. Fox Filmes.
Direção: Ridley Scott
Elenco: Michael Fassbender, Charlize Theron, Noomi Rapace

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