CRÍTICA: Rebobine, Por Favor

Comédia
// 06/10/2008

O Festival do Rio 2008 está repleto de filmes que não queremapenas fazer a cabeça funcionar, os chamados filmes cult. Um pouquinho de diversão e puro entretenimento,com qualidade, também marcam presença. Uma das melhores comédias do ano, Rebobine, Por Favor, com Jack Black (Kung Fu Panda, Escola de Rock) é uma delas. O longa já estreou no Brasil do último dia 3.

Rebobine, Por Favor
por Arthur Melo

Certo dia, o amalucado mecânico Jerry (Jack Black) resolve sabotar a usina elétrica por acreditar que ela manipula a mente das pessoas. Para o plano funcionar, convence o amigo Mike (Mos Def), que trabalha na vídeo-locadora de VHS “Be Kind Rewind”. Entendendo tardiamente um recado do patrão, Mike resolve abandonar a tramóia e não presencia o fato mais estranho que jamais poderia ocorrer a Jerry: ele foi magnetizado.

A partir de então a história de Rebobine, Por Favor começa de verdade. Voltando à locadora no dia seguinte, Jerry, com seu “poder” de magnetismo, apaga todas as fitas de vídeo das prateleiras sem perceber, o que coloca em cheque a sobrevivência do estabelecimento do Sr. Fletcher (Danny Glover), que tanto quer preservar a memória do bairro. Lança-se no filme uma das melhores formas de fazer comédia. Para evitar a demolição da locadora, Mike e Jerry resolvem refilmar os maiores blockbusters que conhecem, protagonizando cenas divertidíssimas e muito originais, que são um excelente modelo para vídeos infantis da segunda série.

Apesar de se fiar em boa parte da trama na recriação e citação de alguns clássicos do cinema das décadas de 80 a 2000, o longa demonstra criatividade de sobra para gerar o humor em situações inusitadas causadas pela falta de noção e credibilidade dos vídeos produzidos pelos personagens. O que poderia ser um desastre, visto que ninguém seria tapeado pela substituição do conteúdo das fitas VHS – a idéia original da dupla –, se tornou um negócio lucrativo tanto para a “Be Kind Rewind” quanto para a trama. Com a entrada da espirituosa personagem Alma (Melonie Diaz) e certo apoio da espirituosa Sra. Falewics (Mia Farrow), Jerry e Mike passam a produzir em massa e ganham importantes aliados nas produções, colocando a locadora do Sr. Fletcher no mapa da cidade.

Usando a veia cômica pulsante e saliente, Rebobine, Por Favor dá os créditos ao cinema industrial de qualidade. Numa época em que os filmes pipoca têm ganhado maior espaço encobrindo as produções de teor mais artístico, o longa procura mostrar que a forma de cinema que o público em geral gosta também tem o seu valor extra-monetário. São obras que, mesmo possibilitadas por investimentos milionários visando a arrecadação de quantias ainda maiores, foram importantes para identificarmos o que a sétima arte é capaz de fazer hoje em contrapartida com o que era assistido há anos atrás.

Para não escrachar e cair na própria soberba desnecessária, Rebobine se posiciona. A fama e boa geração de dinheiro dos vídeos fabricados no ferro-velho onde Jerry mora cruza com os interesses dos grandes estúdios. Centrados em manipular e reproduzir muitos dólares, as produtoras espremem ao máximo seus títulos mais comerciais até escorrer a última moeda de seu interior. Qualquer um que, direto ou indiretamente lucrar sem repassar o dinheiro, será punido. De certa forma a atitude tem sua razão, mas ignora o trabalho e talento de tantas pessoas que apenas se baseiam numa grande idéia para desenvolver a sua e ter algum modo de sobrevivência. Nisto a alegação do longa é clara. Jerry atenta ao fato de não serem piratas, sem falsificar ou roubar o material de fundo intelectual. Trata-se de uma versão própria sem nenhum intuito de enganar aqueles que se divertem com seus vídeos (pelo menos não a esta altura).

É no momento crítico da história que o roteiro de Michel Gondry, que nomeia a direção também, se destaca. Interpolando a decepção de Mike com a verdade de algumas revelações e o desamparo do Sr. Fletcher diante da iminente demolição de sua locadora com novas jogadas para o riso, o longa não destoa por um só minuto. Qualquer carga dramática necessária é imposta na contagem certa e sua única função é colaborar no desenrolar dos fatos, deixando a emoção acontecer naturalmente.
A iniciativa de Rebobine, Por Favor é tão autêntica quanto a obra máxima da “Be Kind Rewind”. Releva as fraquezas de um cinema sem espaço para a originalidade e recicla o trabalho de profissionais e artistas brilhantes que construíram as enormes zonas de liberdade para difundir idéias que se tornaram hoje as salas de projeção.

Be Kind Rewind (EUA, 2008). Comédia. Europa Filmes.
Direção: Michel Gondry
Elenco: Jack Black, Mos Def, Danny Glover, Melonie Diaz, Mia Farrow

Comentários via Facebook
Categorias
Comédia, Críticas