CRÍTICA: Reis e Ratos

Comédia
// 18/02/2012

Comédia noir. É assim que se autointitula Reis & Ratos, novo longa nacional que chegou ontem às telas do país. Apesar da boa premissa, o filme não consegue estabelecer um desenvolvimento necessário para seu sustento, caindo muitas vezes no óbvio.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Reis e Ratos
por Virgílio Souza

Valendo-se não apenas de sua construção visual, mas também de sua abordagem temática, Reis e Ratos é uma tentativa falha de homenagear, de maneira cômica, o cinema noir. Narrado pela cantora Amélia (Rafaela Mandelli) por meio de flashbacks em preto e branco, o longa é incapaz de estabelecer com qualidade seu próprio ritmo, resultando em um amontoado de diálogos supostamente tarantinescos proferidos por figuras que jamais se desenvolvem plenamente, graças às imperfeições de roteiro e direção e ao encerramento desordenado da trama.

Embora seja dona de uma premissa interessante, focada no submundo das ações da CIA no Brasil às vésperas do golpe de 1964, a produção é prejudicada exatamente por aquilo que deveria ser seu maior diferencial: o aspecto incomum de seus personagens. Girando em torno do agente norte-americano Troy Somerset (Selton Mello) e do Major Esdras (Otávio Müller), amigos de longa data, o filme apresenta os bastidores de sua missão para retirar do poder o presidente brasileiro sem que haja necessidade de intervenção armada dos Estados Unidos.

Para tanto, a dupla recorre a figuras como o viciado em anfetamina Roni Rato (Rodrigo Santoro), o latifundiário Esmeraldo (Orã Figueiredo) e o ex-militar Paulo Barracuda (Daniel Alvim), peças de um plano que, por diversas razões, acaba envolvendo Amélia, o locutor de rádio e “médium não desenvolvido” Hermê (Cauã Reymond) e o marinheiro comunista Américo Vilarinho (Seu Jorge). Evidentemente, a estratégia de Troy e do Major é colocada em prática em vias ocultas e pouco nobres, o que resulta em duas importantes marcas do longa: o fato de a ação se concentrar “em ambientes extraoficiais” (os fundos de uma sapataria, uma cozinha, uma casa no subúrbio) e o foco na penumbra (traço típico do noir que se deseja representar), com direito a perseguições a pé em becos e escadarias.

No entanto, o esforço de se criar uma atmosfera minimamente atraente acaba enfraquecido pelo próprio diretor-roteirista Mauro Lima, que conduz todos os elementos do longa com obviedade – dos longos diálogos explicativos (que se somam à narração em off, também explicativa) às referências que buscam situar o espectador no contexto da época, tais como a morte de JFK e o programa do Chacrinha. Repare como, em várias situações, os personagens iniciam suas falas com expressões como “Vou dizer agora o que nós vamos fazer”, de modo a detalhar o plano que está sendo posto em prática, ou como a falta de criatividade da direção beira o absurdo nas várias sequências em que uma luz vermelha é filmada imediatamente antes de o programa de rádio de Hermê entrar no ar.

O locutor, vale notar, é um dos principais problemas de Reis e Ratos. Não pela atuação de  Reymond, que cumpre seu papel com certa segurança, mas pela construção equivocada do personagem (uma espécie de super-herói acidental), comicamente inábil e responsável por protagonizar algumas das cenas mais constrangedoras e desprovidas de nexo da produção. Selton Mello, por sua vez, está em sua zona de conforto e utiliza com liberdade todos os trejeitos que lhe são característicos, bem como um português afetado e repleto de expressões da língua inglesa, em referência clara (ainda que de gosto duvidoso) aos policiais Fucker e Sucker, personagens do antigo Casseta & Planeta – note que, em determinado momento, Troy chega a pedir que seu parceiro “mova seu maldito traseiro”. Conferindo um ar canastrão ao personagem e valendo-se de metáforas das mais cafonas, sempre ladeado pelo ótimo Müller, Mello compõe uma figura extremamente forçada, mas que serve ao propósito do longa: ser caricatural. As demais atuações, em especial de Rafaela Mandelli e Rodrigo Santoro, são discretas, tanto em qualidade quanto em significância para a trama.

No fim das contas, o que resta é um desfecho apressado, que resolve toda sorte de conflitos num estalar de dedos (e não através de diálogos, mas, novamente, do recurso à narração em off), e que falha em conferir coesão ao momento em que os bastidores do golpe – desenvolvidos de maneira fictícia ao longo da trama – se encontram com o que há de real na história – o golpe propriamente dito.

 

——————————

Reis e Ratos (Brasil, 2012). Comédia Noir (definição própria). Warner Bros. Pictures Brasil.
Direção: Mauro Lima
Elenco: Selton Mello, Otávio Müller, Cauã Reymond, Rafaela Mandelli, Rodrigo Santoro.

Comentários via Facebook
Categorias
Comédia, Críticas, Nacional